• Paulo Vinicius

Resenha: "Excalibur" (Crônicas de Artur vol. 3) de Bernard Cornwell

Atualizado: 1 de Mai de 2019

Bernard Cornwell finaliza a trilogia com chave de ouro. Mostrando os destinos de Artur e de nosso querido Derfel, o autor vai nos mostrar como vai se construir a lenda do Rei Artur e como Derfel termina seus dias.

Sinopse:


Neste terceiro volume da série, iniciada com O rei do inverno e O inimigo de Deus, o escritor imerge o leitor em uma Britânia cercada pela escuridão. E apresenta os últimos esforços de Artur pra combater os saxões e triunfar sobre um casamento e sonhos desfeitos. Excalibur mostra, ainda, o desespero de Merlin, o maior de todos os druidas, ao perceber a deserção dos antigos deuses bretões. Sem seu poder, Merlin acha impossível combater os cristãos, mais perigosos para a velha ilha do que uma horda de famintos guerreiros saxões. O livro traz vívidas descrições de lutas de espada e estratégias de guerra, misturadas com descrições da vida comum naqueles dias: longas barbas servindo como guardanapos, festivais pagãos, com sacrifícios de animais, e pragas corriqueiras, como piolhos. Tendo por narrador um saxão criado entre os bretões, Derfel, braço direito de Artur, Excalibur acompanha os conflitos internos de Artur, recém-separado da esposa, mas ainda apaixonado por sua rainha. Atacado por velhos inimigos, perseguido por novos perigos. Mas sempre empunhando a espada Excalibur, um dos objetos de poder legados aos homens pelos antigos deuses dos druidas. Cornwell mostra, ainda, como as ameaças vindas de todos os lados acabam fazendo com que Artur se volte para a religião, chegando a batizar-se como cristão. Todos os sacrifícios são válidos para salvar sua adorada Britânia.




Antes de mais nada é preciso aplaudir a narrativa criada por Cornwell. Ele realmente conseguiu contar uma história épica digna da lenda do rei Artur. Personagens cativantes em situações que condizem com aquilo que o autor apresentou nos volumes anteriores. Esse fechamento de história é brutal, conseguindo superar completamente aquilo que foi apresentado antes. O autor dá uma aula sobre como manter o interesse do leitor mesmo depois de mais de mil páginas.

Não vou cansar de ressaltar a narrativa de Cornwell. Ela é espetacular em cada página que você vira. Em nenhum momento eu me senti cansado ou com vontade de largar o livro. Muito pelo contrário, eu fazia o possível para que a história rendesse mais e enxergava o final do livro até com certa melancolia. Seria o final da jornada. Mas, ao mesmo tempo, eu queria saber o que iria acontecer aos personagens. O livro passava com muita suavidade. Muitos podem argumentar que a trilogia é extensa tendo mais de quatrocentas páginas cada volume. Sinceramente? Não senti. Achei o livro curto até de tão bem amarrada que era a história.


- Então sim, eu tinha de lutar – retruquei. Na verdade havia gostado da luta. Só um idiota deseja a guerra, mas assim que a guerra começa ela não pode ser lutada de meia vontade. Nem pode ser lutada com arrependimento, mas deve ser levada com uma alegria terrível em derrotar o inimigo, e é essa alegria selvagem que inspira nossos bardos a escrever suas maiores canções de amor e de guerra. Nós, guerreiros, nos vestíamos para a batalha como nos enfeitávamos para o amor: fazíamo-nos belos, usávamos nosso ouro, púnhamos cristas nos elmos engastados de prata, andávamos empertigados, cantávamos vantagem, e quando as lâminas assassinas chegavam perto sentíamos como se o sangue dos Deuses corresse em nossas veias. O homem deve amar a paz, mas se não puder lutar de todo o coração não terá paz.

Mais uma vez somos presenteados com a narrativa de Derfel. Como bom contador de histórias ele busca contar com o máximo de veracidade possível a história de Artur. Porém, prestem atenção: a veracidade de Derfel. É o seu ponto de vista. Quando Igraine tenta mudar a história somos confrontados com versões diferentes da história. Nosso narrador é não-confiável simplesmente porque é o seu ponto de vista sobre os acontecimentos. Cornwell nos mostra como muitos dos relatos que temos de determinados acontecimentos nada mais são do que versões. E elas podem servir a interesses que visem destacar a atuação de um ou outro personagem. Hoje sabemos que os saxões acabaram por ocupar todo o território britânico.

O título deste terceiro volume é justo. Porque no fim das contas este terceiro volume é centrado no símbolo da espada sagrada. Ela representa a Inglaterra e o reino que nunca existiu de Artur. A espada é o último tesouro cedido a Merlin, o primeiro recuperado e o último destruído. Quando a espada desaparece no mar, isto simbolizou o fim da ocupação britânica já que Artur acaba embarcando em direção a algum lugar sagrado além das brumas. A questão da magia nunca esteve em questão e o autor até brinca um pouco com estas questões de feitiços e sabedoria antigas, mas não a vemos de fato. Mas, a crença dos homens no poder dos antigos é o que dava força a estes povos se manterem unidos por uma causa. O paganismo possuía seus próprios ritos e crenças. O autor é bem crítico em relação ao cristianismo apresentando boa parte dos padres e bispos como pessoas corruptas e que apenas queriam o seu próprio bem. Alguns vão argumentar que Emrys é representado de maneira diferente assim como Galahad. Sim, são exceções e eles nem são tão ortodoxos assim.

Algumas passagens são épicas. O trecho que acontece em Mynydd Baddon é extraordinário. As passagens transbordam iminência e violência. O autor sabe apresentar um combate em todos os seus ângulos: a brutalidade, a eficiência mecânica das tropas, o desespero dos derrotados. Ali, Derfel estava colocado contra a parede e precisava proteger as mulheres que ele havia resgatado. O curioso é como a história deste combate foi mudada posteriormente nas canções dos bardos. A batalha na praia também foi fabulosa. Demonstrou toda a fúria por trás da lenda desses guerreiros. Alguns momentos esbanjavam poesia em sua brutalidade. Apesar de já sabermos o final de Derfel desde o primeiro volume da trilogia, eu fiquei torcendo por uma redenção do personagem no final. Mas, ele apenas aceitou o seu destino. O que não deixa de ser memorável.

A ambientação continuou excelente. Verdadeiramente era um tempo de mudanças e o autor soube passar isso muito bem. A agonia daqueles que ainda eram fieis aos antigos deuses se vendo tendo que abandoná-los em prol de uma possível solução pacífica. A promessa de Artur se casar com Argante para mim foi o extremo da decadência dos britânicos. Realmente serem derrotados pelos saxões era um ponto final a esses momentos de sofrimento. Todos os sonhos de Artur foram destruídos pela realidade cruel dos fatos. Como Merlin disse no segundo volume, os deuses antigos não gostam de um mundo ordenado; eles preferem o caos. E a ordem e justiça de Artur demandavam muitas concessões. Estava claro que não iria durar muito tempo.

Vou parar de comentar muito porque já soltei alguns spoilers. Poderia falar de Guinevere e sua tentativa de se redimir de seus pecados, das armações de Sansum que age de maneira dúbia até o final ou até da covardia de Lancelot. Minha recomendação: leiam a trilogia. Que coisa maravilhosa. Queria muito ver esta trilogia transformada em uma série... não em um filme porque este não conseguiria captar a grandiosidade da história apresentada pelo autor. Cada momento é de tirar o fôlego e o leitor fica tentado a continuar a leitura até encerrar a história.

"É melhor não saber do futuro. Tudo termina em lágrimas, e é só o que há”.

Ficha Técnica:


Nome: Excalibur

Autor: Bernard Cornwell

Série: Crônicas de Artur vol. 3

Editora: Record

Gênero: Romance Histórico

Tradutor: Alves Calado

Número de Páginas: 532

Ano de Publicação: 2002


Outros Volumes:

O Rei do Inverno (vol. 1)

O Inimigo de Deus (vol. 2)


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