• Paulo Vinicius

Resenha: "O Inimigo de Deus" (Crônicas de Artur volume 2) de Bernard Cornwell

Depois do final bombástico de O Rei do Inverno, Bernard Cornwell continua esta explosiva história das façanhas do Artur histórico. Neste segundo volume, Artur irá entrar em rota de colisão com o ascendente cristianismo.

Sinopse:


Cornwell desenha um Arthur familiar e desconhecido - ele é apenas um dos muitos filhos ilegítimos de Uther Pendragon e sem o menor interesse em se tornar rei -, ao mesmo tempo que revela locais e personagens esperados: Merlin, Guinevere, Lancelot, Galahad e a Távola Redonda. Um dos mais importantes autores britânicos da atualidade, Cornwell já foi traduzido para mais de dezesseis línguas e suas novelas alcançaram rapidamente o topo das listas dos mais vendidos: foram milhões de exemplares em todo mundo. A chave de seu sucesso está na criteriosa pesquisa histórica e na narrativa envolvente com a qual Cornwell disseca a vida de seus personagens. A partir de novos fatos e descobertas arqueológicas, Bernard Cornwell retrata em O INIMIGO DE DEUS o maior de todos os heróis britânicos como um poderoso guerreiro que luta contra os saxões para manter unida a Britânia, no século V, no rastro da saída dos romanos. Após vencer inimigos externos e internos, defendendo o trono que deverá ser ocupado por seu sobrinho Mordred, legítimo sucessor de Uther, é a hora de Artur se preocupar em unificar o reino. Mas os conflitos religiosos entre druidas e cristãos parecem mais ameaçadores do que hordas de saxões sequiosos por terras e colheitas. Em contraponto com a sensatez de Artur, surge um Merlin capaz de tudo para resgatar a velha magia da Britânia e reunificar a ilha com seus antigos deuses. Mas Artur só acredita na lei e em juramentos, tornando-se rapidamente o inimigo de todos os fanáticos religiosos. Tendo por narrador Derfel, um guerreiro saxão criado entre bretões e que rapidamente se torna o braço direito de Artur, O INIMIGO DE DEUS segue uma busca por relíquias sagradas, encantos e truques, em meio a batalhas sangrentas e traições. Como a de Lancelot, que tenta usurpar a coroa e o coração da rainha.




O início da Idade Média na Europa ficou marcado pelo conflito entre cristianismo e o paganismo. Será entre os séculos V e VIII que o cristianismo conseguirá obter sua supremacia na parte ocidental do antigo Império Romano. O vazio deixado pelo Império Romano acaba sendo preenchido pela organização montada pelo cristianismo nesse início de trajetória. O Inimigo de Deus trata do conflito entre cristianismo e paganismo. Todos os nuances de como a população abandona os rituais pagãos e passa a frequentar a Igreja. Cornwell detalha bem esse conflito através de uma prosa redondinha. Nós sabemos um pouco de como o conflito vai acabar, mas mesmo assim a história não deixa de ser apaixonante.

Será em O Inimigo de Deus que Cornwell dará mais cores a Derfel. Aqui o personagem tem um desenvolvimento incrível. Sem dúvida alguma, ele é um dos melhores personagens escritos por Cornwell. Isso porque vemos os conflitos, as qualidades, os defeitos, as decisões difíceis em um personagem que está longe de ser perfeito, porém é humano acima de tudo. O desejo dele por Ceinwyn é comovente e ver o personagem brigar com unhas e dentes pela mulher de sua vida é um dos motes desse livro. O amor de Derfel por Ceinwyn não é o mesmo que ele nutria por Nimue. O próprio personagem se dá conta disso durante a travessia pela Estrada Sombria e posteriormente quando eles acabam juntos a Mordred. Claro que Derfel sendo o narrador, ele vai puxar os acontecimentos ao seu redor. O autor não esconde isso em nenhum momento. Ele não tenta enganar o leitor dizendo que Derfel está narrando a verdade absoluta.


"Nós comemoramos. E como comemoramos. Porque agora parecia que tínhamos algo por que lutar. Não por Mordred, aquele sapo desgraçado, mas por Artur, porque apesar de toda a sua bela conversa sobre o Conselho governar Dumnonia no lugar de Mordred, todos sabíamos o que as palavras significavam. Significavam que Artur seria o rei de Dumnonia em todos os sentidos, menos no nome, e por este bom objetivo levaríamos nossas lanças à guerra. Comemoramos porque agora tínhamos uma causa pela qual lutar e morrer. Tínhamos Artur."

Artur também sofrerá um grande desenvolvimento. O leitor percebe o quanto o amor de Artur por Guinevere é algo vão. Cornwell não procura romantizar a relação entre ambos, mostrando como Artur e Guinevere não foram feitos um para o outro. O autor não titubeia nesse sentido. E a cada ação desvairada de Guinevere, vamos percebendo pouco a pouco o quanto ela se distancia de Artur. Para chegar àquela cena no templo de Ísis foi um crescendo que aconteceu ao longo de todo o Inimigo de Deus. O impacto da descoberta por Artur foi sensacional; Cornwell descreveu muito bem como o mundo do poderoso guerreiro foi virado de cabeça para baixo.

Enquanto isso o cristianismo vai esticando seus tentáculos pouco a pouco. Vemos que a aliança de Sansum com Lancelot foi muito acertada. Aliás, combina perfeitamente com o caráter de Lancelot. E quando pensávamos que os problemas de Derfel com os druidas acabaram, aparecem os gêmeos Dinas e Lavaine. Novamente, outra cena que eu preciso comentar é a dos gêmeos atacando a casa de Derfel enquanto este estava fora. Cornwell constrói um ambiente familiar bem sólida para destruir tudo depois. Quando o leitor já estava acostumado com aquele pequeno ambiente de paz de Derfel, os acontecimentos provocam uma guerra entre Derfel e Lancelot. O aspecto religioso presente em O Inimigo de Deus chega a sufocar o leitor em um mundo de intrigas. Mesmo apresentando os elementos da religião e até explicando o motivo do poder dos 13 Tesouros, Cornwell nos dá uma rasteira quando faz o próprio Derfel retirar toda a mística por trás de Merlin. Ele contando a Igraine de Powys antes de voltar a narra a história chega a ser tocante. Descrevendo os "truques" que marcavam a "magia" de Merlin.

Outro elemento claro em O Inimigo de Deus é o conflito. Como Merlin menciona ao longo da história, os deuses antigos não gostam de ordem; eles anseiam pelo caos porque é no caos que eles reinam. Estava claro, assim como o amor de Guinevere e Artur, que as alianças não iriam durar. Todas dependiam de muitas variáveis para dar certo. Seria preciso controlar muitas ações e comportamentos, e o homem não é movido pela lógica. É impossível prever as ações de todos. Uther, pai de Artur, era temido e por este motivo ele foi capaz de manter a Britânia unida. Artur sempre foi muito contestado; talvez se Artur tivesse assumido o trono as coisas poderiam ser diferentes. Artur só vai se dar conta do erro que é Mordred no trono tarde demais.

"- Você é um idiota, Derfel. Mas é um idiota bom em usar uma espada, e é por isso que preciso de você se formos andar pela Estrada Escura. – Ele se levantou. – Agora a escolha é sua."

O Inimigo de Deus consegue manter o ritmo de O Rei do Inverno e ser ainda melhor. As tramas começam devagar e aos poucos elas vão se encontrando em um clímax extremamente veloz e trágico. As batalhas continuam a ser os pontos altos da narrativa do autor e os personagens são esmiuçados. Raramente eu vi um enredo cujos personagens são tão apaixonantes. Recomendo fortemente o livro a todos os fãs de uma boa história.


Ficha Técnica:

Nome: O Inimigo de Deus

Autor: Bernard Cornwell

Série: Crônicas de Artur vol. 2

Editora: Record

Gênero: Romance Histórico

Tradutor: Alves Calado

Número de Páginas: 518

Ano de Publicação: 2002


Outros Volumes:

O Rei do Inverno (vol. 1)

Excalibur (vol. 3)


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