• Paulo Vinicius

Resenha: "Mona Lisa Overdrive" (Trilogia Sprawl vol. 3) de William Gibson

Atualizado: 29 de Mar de 2019

No capítulo final de sua trilogia, veremos o autor ligando várias pontas soltas deixadas nos volumes anteriores. Algumas figuras familiares aparecerão ao lado de uma extrapolação do que significa a matrix criada em Neuromancer.



Sinopse: As Inteligências Artificiais assombram a matrix. O ciberespaço, essa espécie de alucinação coletiva, está cada vez mais perigoso. As Inteligências Artificiais atingiram a autoconsciência e dividem esse espaço com os mais inusitados personagens, movidos por interesses diversos e intenções nem sempre lícitas. Nesse cenário, três diferentes histórias se entrelaçam e trazem o leitor de volta para o universo de Neuromacer, em uma última e impactante aventura. Monalisa Overdrive é o terceiro volume da Trilogia do Sprawl.


No mundo de Gibson iniciado por Neuromancer, o que é a matrix? O que ela representa? Depois do surgimento das IAs que começaram a agir independentemente, como a matrix evoluiu? E o que são os loa que habitam um universo além da matrix? Sempre estiveram lá ou são o resultado dos acontecimentos de Neuromancer? Estas são algumas das perguntas que serão (ou não) respondidas durante o livro.


Para os apaixonados pela trilogia, leiam apenas os dois primeiros parágrafos, porque eu vou reclamar horrores desse livro. Digo logo que achei o mais fraco da trilogia. Até Neuromancer é melhor do que Mona Lisa Overdrive. Eu realmente achei que após a leitura de Count Zero (o melhor da trilogia) poderia esperar algo muito bom. Quando abri o livro, minha expectativa era a melhor possível até porque li Reconhecimento de Padrões e Count Zero que fizeram mudar minha opinião sobre o autor. Mas, já dizia aquele velho ditado “Alegria de pobre dura pouco”.


O melhor ponto de Mona Lisa Overdrive é a profunda ligação que ele tem com a mitologia criada por Gibson. Neuromancer e Count Zero podem ser lidos separadamente. Não senti nenhum problema de continuidade em Count Zero. Lógico que se você quer saborear mais a história recomenda-se a leitura em ordem. Mona Lisa é quase um mish-mash dos dois primeiros. Mantém a atmosfera cyberpunk do primeiro enquanto que usa os elementos sobrenaturais do segundo. Acredito que o autor queria repetir a fórmula do segundo e trazer os elementos clássicos do primeiro. Ver o fechamento de histórias foi muito gratificante para mim. Revi alguns personagens do primeiro como Molly e o Finlandês, além de algumas menções ao que Case fez. O autor manteve uma fidelidade àquilo que ele havia escrito. Acho isso positivo para o universo da história.


Gibson conhece o Sprawl com a palma da mão. A maneira como ele sabe lidar com a ambientação revela que ele pensou em todos os detalhes de sua megalópole decadente. Aquela sensação de quando assistimos Blade Runner está presente aqui: muitas coisas orientais, o individualismo das pessoas e os constantes golpes além da distância das corporações para os homens comuns. Gibson também descreve muito bem a matrix. Ele sabe o que ela significa e como descrevê-la de forma com a qual o leitor consiga imaginá-la. Mesmo quando 3Jane começa a distorcer a matrix, sabemos de que forma a matrix era antes do que ocorre no terceiro livro.




O retorno de Molly Millions foi fantástico. Ela é a melhor personagem criada por Gibson. Percebemos nela a pró-atividade, a revolta e a violência em uma mulher marcada por aquilo que se passa em Neuromancer. Ela é a essência do Sprawl. 3Jane também é uma personagem muito interessante. Sua mente distorcida e a motivação que ela tem para perseguir Molly são totalmente válidas. 3Jane é simplesmente mesquinha; uma mente infantil com muitos poderes. Ela brinca com a humanidade da mesma maneira que uma criança brinca com uma casa de bonecas. Angela Mitchell também é uma personagem interessante. Eu realmente gostei das partes em que Gibson dá continuidade à sua história. E como a personagem mudou do segundo para o terceiro livro.


Mona Lisa Overdrive é uma obra que sérios problemas de progressão (o que em inglês a gente chama de timing). O livro demora quase 150 páginas para começar a história. Se o livro é o fechamento de uma trilogia, não deveríamos passar tanto tempo para falar a respeito das motivações dos personagens. O que Gibson fez em 150 páginas, poderia ter feito em metade disso. E aí o livro sofre no final. Porque a metade final é muito rápida e às vezes a gente não entende o que se passa com os personagens entre os capítulos. Muitas cenas ocorrem em um ritmo acelerado demais.


As melhores partes do livro são contadas muito rapidamente. Toda a situação com Samedi, Papa Legba e Mama Brigitte passa rápido demais. Eu queria ver mais daquilo. Queria saber mais sobre esta mitologia interessante que apareceu no segundo livro. A relação entre Angie e os loa faz aparecer uma série de questionamentos que Gibson não responde. O livro é bacana e, fora os problemas recorrentes na escrita de Gibson, a história chega ao fim de uma forma mais ou menos satisfatória. No mais, eu já me acostumei com a escrita do autor e consigo ser um pouco mais tolerante com as bobagens dele. Entendo a importância dele para o gênero cyberpunk, mas isto não o torna um deus imortal sem quaisquer falhas. Precisamos criticá-lo de uma forma inteligente, apresentando argumentos bons para isso.





Ficha Técnica:


Nome: Mona Lisa Overdrive

Autor: William Gibson

Série: Trilogia Sprawl vol. 3

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica

Tradutores: Carlos Irineu e Candice Soldatelli

Número de Páginas: 320

Ano de Publicação: 2017 (nova edição)


Outros volumes da série:

Neuromancer (vol. 1)

Count Zero (vol. 2)


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