• Paulo Vinicius

Relendo a trilogia Sprawl

Depois de fazer pesadas críticas à trilogia como um todo, me propus a relê-la novamente. Isso para ver se minha opinião mudava de alguma forma. Saibam o que eu achei.



Este é um post sobre um dos meus temas mais polêmicos. Eu fiz críticas severas a Neuromancer e a Mona Lisa Overdrive, volumes 1 e 3 da dita trilogia. Queria usar esse tópico para apresentar meus argumentos mais adequadamente. Aproveito e insiro alguns comentários que o próprio Gibson fez em algumas entrevistas para reforçar os meus argumentos. E, antes de mais nada, quero reforçar que sei da importância do autor para o cenário da ficção científica. Ele foi necessário no período para ventilar um pouco o gênero que sofria de uma estagnação.


William Gibson tem problemas com o que eu chamo de timing. Uma história é contida em um pequeno universo limitado por um certo número de páginas. Cabe ao autor ser capaz de distribuir as suas ideias ao longo desse espaço físico. Essa distribuição de ideias nós chamamos de introdução, desenvolvimento e conclusão. Isso é a essência de todo o texto seja ele ficcional ou não-ficcional. Mas, em ficção a coisa complica mais um pouco. É necessário apresentar os personagens, mostrar qual a tema central e as sub-tramas (quando o autor as deseja) e o clímax para então começar um desfecho. Uma história pode conter um sem número de momentos de clímax para manter o leitor preso na história. Gibson possui sérios problemas de timing em suas histórias. Ele demora muito a apresentar os seus personagens e sua trama central. Usando a edição da Editora Aleph como referência, Neuromancer tem pouco mais de 300 páginas. Apenas por volta da página 140 ou 160 começamos a ver que a história começa a andar com a apresentação da IA Wintermute que estaria por trás das ocorrências que assolavam Case. 3Jane só vai aparecer quase 50 páginas depois. E antes? Apresentação de personagens. Que personagens? Case e Molly. Ah... o Finlandês... Alguns aliados do Case que vão morrer antes do final da história. Para desfrutar de Neuromancer por completo é preciso esperar muito tempo antes de o leitor ser recompensado com uma boa trama. Mona Lisa Overdrive sofre do mesmo problema. Poucos personagens, muita demora para apresenta-los e uma trama tardia. 

Os fãs justificam que Gibson foi inovador ao apresentar uma atmosfera próxima da realidade em um futuro não tão distante. Admito que Gibson é um excepcional construtor de mundos (worldbuilder). Perfeito até e ele conhece o seu mundo como ninguém. Mas, eu não posso vender um livro de ação se na verdade ele é um livro de exploração. Gibson admite em várias entrevistas que quando ele imaginou Neuromancer pensou em um livro do Raymond Chandler, onde um criminoso estaria tentando se vingar da concorrência enquanto se livrava de situações terríveis. Este é o cerne da história de Neuromancer. Mas, acabamos ficando presos em um loop inesgotável de descrições de lugares decadentes e arruinados e uma cidade repleta de luzes de neon. Em outras histórias, Gibson foi capaz de demonstrar moderação: Queimando Cromo e Johnny Mnemonic estão aí para demonstrar essa capacidade. 




Possivelmente esse problema de timing e esse excesso de descrição de mundo estejam vinculados ao fato de Gibson não planejar as suas histórias. Ele escreve “on the fly” e vai fazendo as devidas revisões à medida em que a história progride. Isso é um feito incrível e atesta para a genialidade do autor, mas isto acarreta em um desleixo em manter a história coerente. Esse brainstorm que o autor coloca no papel acaba servindo como algo confuso e às vezes difícil de compreender. Não, eu não tenho dislexia ou sou um tapado completo. Já reli Neuromancer três vezes para entender porque sua obra é tão reverenciada e eu não consigo gostar da mesma. Coesão e coerência são duas palavras que sempre andam juntas. Se você não consegue fazer com que ambas estas palavras trabalhem em uníssono alguma parte do romance fica comprometido. Existem vários trechos truncados em Neuromancer mostrando uma certa dose de problemas de coesão. Já Mona Lisa Overdrive não consegue ser coerente com suas propostas iniciais quando fecha a história. 


E, por fim, minha crítica mais grave é aquilo que mais elogiam na prosa de Gibson: as referências pop culture. Acho legal usar esse tipo de referência, dá riqueza à história e a situa em um espaço de tempo. O excesso delas começa a criar problemas de compreensão da história. Gibson alega que estas referências criam uma segunda camada de compreensão da história e que aqueles que não compreendem não perdem muito. Ah, infelizmente eu não compartilho dessa opinião. Perdi muita coisa da história; ainda mais porque as 150 páginas iniciais são de construção de mundo. Se eu forneço referências significa que estas referências servem para que você consiga imaginar uma rua ou um quarteirão por onde o personagem passa ou onde ele se encontra. Quando eu não sei de onde vem a referência ou para que ela serve, isso significa que minha imagem do lugar onde o personagem se encontra fica comprometida. E, não, eu não estou com vontade de entrar na internet para pesquisar sobre a referência. Se eu estou lendo um livro que possui uma história encerrada em um pedaço de papel e limitada por um número de páginas, eu quero que as informações pertinentes para a melhor compreensão da história estejam todas ali. Seja em um comentário bobo do personagem, uma menção sutil ou até um glossário no final do livro. Se Ursula Le Guin colocou apêndices em sua obra para a melhor compreensão do universo de A Mão Esquerda da Escuridão por que Gibson não pôde fazer o mesmo?


Enfim, nada dos argumentos que eu usei tiram o mérito da obra do autor. Não serei convencido do contrário porque já reli várias vezes e pretendo reler mais algumas. Quem sabe com mais leituras eu possa vir a entender um dia porque existe essa ultraexaltação do autor. Isso também faz com que eu seja mais criterioso quando eu analiso suas obras, mas não deixo de elogiá-las. Reconhecimento de Padrões foi um sopro de ar quando li. Irei ler Território Fantasma e espero boas coisas do trabalho. Queria apenas me explicar porque tenho toda essa ira quando comento de algum dos volumes da Trilogia Sprawl.


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