• Paulo Vinicius

Resenha: "Dragonero vol. 2" de Luca Enoch, Stefano Vietti e Giuseppe Matteoni

Buscando os conselhos do mago Alben, Ian e seu grupo se dirigem ao Eremitério e descobrem o que pode ser um grupo obscuro por trás do tráfico de armas para os orcs. O passado de Ian se encontra de forma decisiva com o presente.


Sinopse:


Seguindo a costa sudoeste do grande mar de Eolanisuhre, Ian, Gmor, Sera e Myrva chegam até o refúgio de Alben, o Luresindo. Será que o velho feiticeiro será capaz de rastrear o inimigo obscuro que está usando a “lama pírica” novamente? Seis anos antes, Ian encarou a mesma ameaça, em uma missão que o levou até as minas sulfúricas de Calefhundar! Atravessando um labirinto de túneis subterrâneos repletos de armadilhas mortais, o Dragonero encontra o centro de um laboratório de alquimistas, os enfrentando e tentando descobrir a fórmula secreta da destrutiva arma.






Esse segundo volume continua o arco de histórias começado na semana passada e o leitor começa a entender mais ou menos como Enoch e Vietti pensaram a sua narrativa em Dragonero. Esta vai ser uma construção lenta e progressiva, diferentemente do que aconteceu no volume especial que apresentou a série. Os autores estão com os pés no chão e sem pressa de tocar a sua história. Nesse primeiro arco o foco parece ser no passado de Ian e até temos alguns desenvolvimentos interessantes que remetem ao volume 0. Sem falar nas contradições de um mundo em que magia e tecnologia disputam espaço.


Na edição anterior vimos o passado de Ian ao lado de Khail e Xara quando eles se envolveram com a lama pírica desenvolvida pelos alquimistas a mando de Margrava. De alguma forma os traficantes de armas que Ian encontrou em Baijadan conseguiram obter a fórmula. No passado, Ian comenta como eles escaparam de uma emboscada feita pelos soldados de Margrave quando ele e seu grupo tentaram roubar a fórmula e descobrir onde o produto era feito. E conheceram a misteriosa Atrea, uma elfa negra que tem um temperamento extremamente volátil e que adquiriu uma estranha afeição por Xara. No presente, Alben conversa com Ian sobre os efeitos que o sangue de dragão fizeram na mente e no coração do herói. E revela que os traficantes podem estar aliados a uma sociedade de guerreiros poderosos que podem estar por trás das incursões orcs contra as vilas dos homens.

A arte de Matteoni me agradou um pouco mais neste volume porque o roteiro permitiu a ele trabalhar os seus pontos fortes que são o emprego adequado de iluminação nos cenários e a capacidade que ele tem de criar estruturas arquitetônicas variadas e interessantes. Tem duas cenas que mostram a habilidade do artista e são bem exemplares de como ele enxerga as cenas. Em uma delas, Ian, Gmor, Myrva e Sera estão cavalgando por uma floresta com uma área costeira ao fundo. Enquanto eles conversam entre si, Sera está apreciando a mata e a fauna presente ali. Nisso um pequeno pássaro pousa em seu dedo e a personagem rapidamente observa e sorri para o animalzinho que voa em seguida passando ao lado do rosto de Myrva. São três pequenos quadros dispostos lado a lado na horizontal que mostram a expressão da personagem, a floresta ao fundo, a luz incidindo na paisagem e o pássaro descrevendo uma rota de voo enquanto os demais personagens olham de relance. Simplicidade e beleza unidas em uma mesma cena. A segunda cena se passa no passado de Ian e tem os personagens dispostos em uma clareira dentro de uma caverna em que Atrea está conversando com Myrva. Em uma pose simples, Atrea se levanta com as plantas que ela controla ao seu redor e o rosto levantado para o alto enquanto a luz do sol entra pelo topo da caverna e a banha em uma bela visão. Mas, os olhos de Atrea demonstram inocência e loucura ao mesmo tempo. O autor conseguiu entregar dois sentimentos opostos em uma única cena.


No passado de Ian temos uma situação bem curiosa. E isso chega até a se conectar com o outro tema no presente. Margrave produziu uma arma capaz de enfrentar e derrotar seus inimigos. Mas, o custo do uso dessa arma é muito elevado. A lama pírica queima tudo por mais tempo. Sejam pedras, árvores, carne. O massacre que Margrave provoca na edição passada com os orcs demonstra o real poder dessa arma. A justificativa dada por ele é o de pacificar o seu reino a qualquer custo, mas percebemos a ambição inescrupulosa por trás de suas ideias. Xara é uma tecnocrata que veio junto de Ian e Khail para investigar o potencial da arma e perceber algum abuso. Mas, Xara também tem seus objetivos e como qualquer cientista deseja explorar os seus instrumentos ao máximo. Ela percebe a possibilidade de ela mesma aprender a fórmula da substância e empregar para o que ela deseja. E conseguir dinheiro e glória com isso. Nesse sentido Myrva é diferente de Xara: enquanto Myrva pensa no uso responsável da tecnologia e no seu potencial para o desenvolvimento humano, Xara imagina as conquistas que podem ser obtidas a partir de uma descoberta. São cientistas que bebem de um mesmo chamado, mas possuem alinhamentos diferentes no que diz respeito ao resultado final.

Já no presente Sera e Myrva tem uma discussão sobre a interferência do homem na natureza. Isso acontece em dois momentos até. Sera critica Alben ao ver o seu pomar organizado com todo tipo de frutas e hortaliças. Ela comenta que a natureza não é organizada e possui sua própria maneira de se apropriar dos espaços. Já em uma discussão com Myrva, Sera questiona por que o ser humano insiste em querer domar a natureza. Na opinião da tecnocrata a natureza está a serviço do homem, o que define bastante a nossa visão atual de como nos relacionamos com o meio ambiente. Essa necessidade de transformar, de mudar, de mexer. Por essas e outras encaramos desequilíbrios no meio ambiente e os autores procuraram trabalhar isso de forma sutil a partir de visões díspares de mundo colocando uma elfa (normalmente ligados a florestas) e uma humana especializada em tecnologia.


Esta segunda edição continua a colocar a narrativa em andamento. O ritmo está devagar, mas as cenas de ação são extremamente empolgantes. Esse também é um outro ponto forte do artista que consegue criar tensão nas cenas. O leitor consegue acompanhá-las, imaginando cada um dos detalhes se sucedendo um após o outro. Tem um momento em uma espécie de ruínas de masmorra de anões em que várias coisas estão acontecendo ao mesmo tempo: soldados chegando, pedras ruindo, um abismo perigoso. Com tudo isso a narrativa se encaminha para o seu ápice na próxima edição, mas creio que se eu for pensar em um sentido de ritmo e desenvolvimento, esta segunda edição está mais interessante do que a primeira por causa dos questionamentos do protagonista.












Ficha Técnica:


Nome: Dragonero vol. 2 - O Segredo dos Alquimistas

Autores: Luca Enoch e Stefano Vietti

Artista: Giuseppe Matteoni

Editora: Mythos

Tradutor: Julio Schneider

Número de Páginas: 100

Ano de Publicação: 2020


Outros Volumes:

Vol. 0 Vol. 7

Vol. 1 Vol. 8

Vol. 3

Vol. 4

Vol. 5

Vol. 6


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