• Paulo Vinicius

Resenha: "Dragonero vol. 0" de Luca Enoch, Stefano Vietti e Giuseppe Matteoni

A queda dos monólitos de pedra traz um mau portento para o continente de Erondar. O retorno iminente de forças antigas e sombrias precisa ser detido a todo custo. Para isso o mago Alben vai precisar da ajuda de pessoas capacitadas: Ian, ex-oficial do Império, Gmor, o orc e Myrva, a tecnocrata.



Sinopse:


A série fantasia de maior sucesso na Europa. Fora das terras civilizadas do Erondar, além da ciclópica barreira do Valo, que separa o Império da Terra dos Dragões, a Antiga Interdição, que sela e aprisiona os abominosos em seu mundo escuro, está para ser quebrada. O mago Alben sabe o que deve fazer para evitar essa catástofre. Ele convocará a oficial Myrva, a monja guerreira Ecuba e Ian Aranill, ex-oficial do Império, além do orc Gmor, amigo leal de Ian. Alben sabe que eles deverão enfrentar as forças maléficas evocadas por Shiverata, seu antigo inimigo, e as hordas dos algentes, os únicos seres sencientes que habitam a Terra dos Dragões. E sabe que Ian, membro da família dos Varliedartos, os Matadores de Dragões, é o único que poderá encarar a última terrível ameaça que deverão enfrentar. Junte-se a esses cinco heróis para fazer uma incrível viagem através de uma terra de maravilhas, prodígios, fantasia e horrores mortais.







Essa é a combinação perfeita de uma narrativa de RPG, com espada e feitiçaria e um pouquinho de tecnologia. Isso no pacote de um fumetti, um quadrinho italiano da Sergio Bonelli Editore, o que já garante por si só uma alta qualidade de arte e roteiro. Poderia ser melhor? Claro! Adicione mais de 250 páginas de ação e você tem horas e horas de diversão. Fazia tempo que eu não me perdia por tantas horas lendo um quadrinho. Você simplesmente não consegue parar antes de terminar a história. E ela é comprida. Esse ainda é um volume de aclimatação para o leitor, para nos acostumarmos com o mundo, mas temos uma história fechadinha aqui, com início, meio e fim. E o autor entrega uma narrativa de proporções épicas em que a vida de todo um reino se encontra nas mãos daquele grupo de heróis. Ao mesmo tempo em que precisam encarar um vilão poderoso, algumas pequenas ideias são soltas aqui e ali que vão dar origem a outras histórias. Só tenho a aplaudir e fazer uma resenha super elogiosa sobre este volume zero.


O mago Alben foi convocado pela tecnocrata Myrna a pedido dos governantes da República para investigar movimentos estranhos dos algentes, elfos cinzentos deturpados pelos abominosos que vivem na Terra dos Dragões além dos muros do Valo. A queda dos monólitos de pedra, construções feitas com o sacrifício de dragões para selar os abominosos em seu mundo sombrio, começaram a cair. Isso pode significar o retorno de uma guerra entre os seres da luz e os seres das trevas. Para impedir essa tragédia, Alben vai procurar selar novamente o abismo que serve de passagem entre este mundo e o dos abominosos. Mas, entrar na Terra dos Dragões é uma missão perigosa e ele vai precisar de aliados. Além de contar com Myrna, Alben vai atrás de Ian Arandill, um ex-oficial do Império, a sua guardiã Ecuba, o orc Gmor e a elfa Sera. Eles precisarão de toda a sua coragem porque as forças das trevas parecem já estar em Erondar e eles já sabem das intenções de nossos heróis.


Que belo roteiro criado por Enoch e Vietti. Isso é só a ponta do iceberg da história. Isso porque os dois autores usam este volume 0 para apresentar vários conceitos como a existência de um Império e uma República, a rixa entre magos e tecnocratas, as relações entre os vários seres como os elfos e os orcs. Apesar de ser uma HQ com quase trezentas páginas, parece ter muito mais, ao mesmo tempo em que é uma leitura rápida e divertida. Conhecemos um pouco da dinâmica do mundo, das cidades e até um pouco da história sombria que trata da guerra entre luz e trevas. O que foi criado aqui certamente será desenvolvido em histórias mais específicas em futuras edições. Algumas coisas não ficaram claras, o que foi feito de propósito para despertar a curiosidade do leitor. O roteiro é muito bom e consegue passar um clima de iminência e temor que vai cercar a história. Os personagens precisam realmente resolver essa missão, caso contrário vidas estarão em risco. E a todo o momento esse medo paira no reino como uma cena quando várias pessoas fogem de uma cidade que é atacada por demônios. Um buraco infernal surge subitamente no meio da cidade de onde saem estas criaturas.


A parceria entre Ian e Gmor é sensacional ao longo da história. Um humano e um orc que são companheiros de batalha. Essa é até uma das histórias que acaba ficando para futuras edições, mas começamos a ver a origem dessa amizade. Eles formam parceiros que se complementam. O orc falastrão e briguento e o humano valente e experiente. A dinâmica entre os dois funciona muito bem. Ao mesmo tempo, temos Ian e Myrva que são irmãos que não se falavam há algum tempo. Ian ainda permanece com os instintos de irmão, protegendo-a dos perigos durante as batalhas. Mas, Myrva não é mais uma criança; ela é uma tecnocrata que possui habilidades importantes de combate e se incomoda com esse comportamento do irmão. Existe também algo mais profundo entre eles que os colocam em lados diferentes de uma cerca que não somos capazes de enxergar. Percebam que essas dinâmicas entre os personagens fazem parte de um pano de fundo que não fica tão claro em um primeiro momento. Mas, que se pararmos para prestar atenção, está ali.



Ian esconde também um passado complicado. Ele foi comandante de um batalhão imperial e atuava em incursões dentro da Terra dos Dragões para deter os algenses. Mas, em uma destas incursões aconteceu algo trágico e todo o batalhão de Ian pereceu tendo sobrevivido apenas ele e outro soldado. Depois dessa situação, Ian teria pedido para sair das forças armadas e atuar apenas como um batedor. Mas, parece que existem motivos mais profundos do que isso. Algo que fica um pouco no ar. E até mesmo as relações entre as cidades e como elas funcionam (sejam elas imperiais ou livres) é colocada no ar. Tem um momento em que ficamos sabendo de onde vem as pedras da luz, itens importantes para a economia dos centros urbanos. Ian se insere em todos esses esquemas sem ocupar espaço demasiado na narrativa. Enoch e Vietti são cuidadosos para não errarem a mão e distribuir protagonismo entre os demais personagens.


Alben é o típico sábio já idoso que funciona como uma espécie de enciclopédia de conhecimentos do reino. O curioso é que os autores dão essa função a ele também sem exagerar. Então suas explicações são bem diretas e nos fornecem apenas as informações que precisamos saber para esta história em particular. Mas, dão deixas para outras coisas colocadas em segundo plano. Uma coisa divertida é que Alben tem medo de altura, e para adentrar em algumas construções é preciso pegar um tipo de elevador. Esse medo de altura produz algumas situações bem divertidas e é uma peculiaridade atraente. Ou seja, o velho mago não é um ser perfeito e super poderoso. Fiquei extremamente curioso com as políticas dos reinos porque ao que ficou parecendo as coisas não são tão bem corretinhas como parecem. A informação sobre a queda dos monólitos demorou a chegar a Alben e Myrva por uma vontade dos governantes de deixar que a situação se resolvesse por si só. Ou seja, existe mais nessas primeiras páginas a ser visto depois.


O volume zero de Dragonero é uma formidável porta de entrada para a série. Faltava uma aventura de capa e espada que eu queria ver via Bonelli e aqui temos ela. Com toda aquela qualidade que esperamos de um quadrinho italiano. Enoch e Vietti introduzem sementes para dezenas de histórias aqui, mas não ficam só nisso. Conseguem entregar uma história redondinha, de proporções épicas, momentos emocionantes e um clímax incrível. Isso aliado a uma arte linda de Matteoni que mescla belas ambientações, momentos de lutas empolgantes e cenários detalhados.


O Quadrinho em 1 Quadro:



Trouxe uma página bem interessante para destacar alguns pontos da arte de Matteoni. Percebam primeiro a atenção ao design de personagens. Sim, de vez em quando, quando temos muitos personagens presentes na cena, Matteoni desfoca um pouco o fundo. Mas, quanto mais chegamos para frente da cena, mais detalhes são apresentados. Além disso, os cenários internos sejam masmorras, cavernas, uma casa ou o alto de uma torre são muito detalhados. Por exemplo, na casa do Ian conseguimos ver a espada ao fundo, uma lareira, uma pequena cadeira de balanço para o protagonista relaxar e até um alçapão no canto esquerdo do cenário. O piso e as paredes são destacados também. O design de personagens é bem explorados com as várias raças presentes aqui: os algentes, os orcs, os elfos, os diversos tipos de humanos e até os demônios. Se pararmos para pensar existe toda uma profusão de personagens em um pequeno espaço de histórias. Matteoni entregou muita coisa em pouco tempo.


Outro detalhe presente no quadro acima é o quanto os personagens são expressivos. Provavelmente um item da escola Bonelli é ser capaz de entregar boas expressões faciais que permitem aos leitores imaginar como estes estão sentindo, pensando ou reagindo em determinado momento. Estou usando Ian como exemplo, mas outros personagens também são ricos nisso. Podemos ver, por exemplo, a elfa Sera que é uma menina que chora bastante quando precisa sair de sua vila para ajudar o grupo de Alben. Mas, aos poucos ela desenvolve uma relação divertida com o orc Gmor. E uma das primeiras brincadeiras é uma piada que ela faz em um determinado momento, o que gera um sorriso matreiro em seu rosto.


As sarjetas também possuem um detalhe bastante interessante. Detectei a existência de três tipos: uma retilínea e comum, uma redonda e uma reta só um pouco mais larga. Matteoni usa para indicar momentos narrativos diferentes. Enquanto que a retilínea comum serve para encaminhar a história no presente, a existência de uma abaulada (ou arredondada) indica um flashback. Algum momento no presente que gera uma memória de algo associado. E a sarjeta mais larga representa alguma visão de algum lugar à distância. Quando Alben usa seus poderes para investigar o envolvimento dos adversários. Matteoni não precisa usar nenhuma expressão indicando temporalidade ou lugar; ele usa os próprios elementos artísticos para guiar o olhar do leitor.











Ficha Técnica:


Nome: Dragonero vol. 0

Autores: Luca Enoch e Steffano Vietti

Artista: Giuseppe Matteoni

Editora: Mythos

Tradutor: Julio Schneider

Número de Páginas: 292

Ano de Publicação: 2019


Outros Volumes:



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