• Paulo Vinicius

Resenha: "Deus Sonha o Homem" (Requiem vol. 1) de Lidia Zuin

Lynx é contratada para um estranho serviço e ela logo descobre que foi colocada para matar pessoas, algo que ela nunca fez em sua vida além de em jogos de primeira pessoa. Mas, pouco a pouco, Lynx vai questionando as barreiras que compõem a realidade.



Sinopse:


Primeira parte da série cyberpunk REQU13M, da autora Lidia Zuin, "Deus sonha o homem" antecede o conto "Dies Irae". Lynx, em seus primeiros anos como hacker, não tem experiência o suficiente para saber que esse é um mundo sem recompensas. Para financiar seus vícios, ela aceita um trabalho obscuro, que vai arrastá-la pelas ruas sujas da cidade, confrontá-la com snipers e enigmas e mostrar que confiar num estranho pode ser tão perigoso quanto confiar no que seus sentidos dizem ser a realidade.





Esse é o segundo conto que eu leio da Lidia Zuin e o segundo que eu leio com a personagem Lynx. O primeiro da série principal da autora, Requiem. Pelo que deu claramente para perceber a autora se inspirou bastante na escrita de William Gibson e seu Neuromancer, mas ao mesmo tempo eu vi muito de Philip K. Dick na narrativa com o choque entre o que é a realidade percebida e a realidade imaginada. Não vou dizer que me tornei um fã ardoroso da série até porque, assim como no outro conto que eu li, enxerguei alguns problemas que me incomodaram, mas ao mesmo tempo a autora consegue trazer algo bem diferente da verborragia desconexa que tanto me incomoda em Neuromancer.


É possível fazer uma sinopse bem rápida de Deus Sonha o Homem. Lynx é uma hacker: ela vende os seus serviços por um alto valor e costuma ser vinculado ao Movimento, um grupo de pessoas dedicadas a derrubar as grandes corporações que controlam o mundo em que ela vive. A protagonista é contratada para um estranho serviço: ela precisa comparecer até um lugar onde novas instruções lhe serão dadas. Ao chegar lá ela se depara com uma mala contendo uma sniper e uma arma de alto calibre e instruções para matar um indivíduo, algo que ela nunca fez. E é aí que começa um jogo de gato e rato em que ela própria também passa a ser perseguida. Só que tem dois detalhes: os assassinos que a perseguem são clones e ela sente que está em algum tipo de realidade virtual, mas não se lembra de quando se conectou a uma.


A escrita da Lidia continua sendo um dos pontos altos dela. A impressão que eu tive em Dies Irae se repete aqui. Ela é curta, eficiente e sabe usar bem as referências pop sem fazer o leitor se perder, algo que Gibson faz muito em seus romances. Aqui não. Nunca me senti totalmente perdido. Se eu me perdi, foi porque a autora assim o quis, por algum elemento de enredo. Nunca foi algo acidental ou um erro de escrita. Em alguns momentos a gente sente aquele decadentismo típico do cyberpunk em que enxergamos as luzes de neon ao nosso redor, bem a la Blade Runner. Nesse ponto a autora é muito feliz em traduzir isso para as páginas de sua narrativa. Outra escolha acertada é o uso da narrativa em terceira pessoa, com uma visão onisciente das coisas. Mas, ela mantém a "câmera" na Lynx e nós seguimos junto a ela em seus momentos alucinados.


Consigo ter duas impressões sobre esse conto: o início e o fim que são excelentes e o meio que é arrastado. Raramente eu gosto tanto de um começo de história como eu gostei de Deus Sonha a Máquina. As descrições da ambientação e cenário e a maneira como as coisas vão acontecendo uma após a outra não dão ao leitor uma chance de descansar nem por um instante. O final também é repleto de ideias incríveis. Me senti lendo alguns dos melhores livros do Philip K. Dick como Ubik ou Os Três Estigmas de Palmer Eldritch onde o autor coloca umas ideias bem malucas sobre o que é ou não real. Só que ela me aparece com aquele meio de conto que é estranho e incoerente onde os acontecimentos parecem não se conectar com nada. Tem o momento na danceteria, depois a segunda perseguição e ela conhece uma das pessoas envolvidas no seu estranho contrato.


Deus Sonha o Homem começa a tocar nos temas que a autora quer apresentar ao longo de sua série de três noveletas. Apesar daquele meio estranho que se arrastou, o final deste primeiro volume me deixou muito animado. Lidia tem uma noção boa sobre investigação e ligação com temas exóticos. Fazer a personagem se questionar sobre o que ela está vendo ou percebendo ao seu redor já foi feito outras vezes, mas é a maneira como você faz que o torna distinto do que foi feito antes. Só isso já merece a sua atenção.










Ficha Técnica:


Nome: Deus Sonha o Homem

Autora: Lidia Zuin

Série: Requiem vol. 1

Editora: Draco

Número de Páginas: 38

Ano de Publicação: 2013


Avaliação: