• Paulo Vinicius

Resenha: "Crônicas da Lua Cheia - A Ascensão do Alfa" de Clecius Alexander Duran

Em um prequel para A Maldição do Lobisomem (o primeiro volume da série), vemos a história de Sétimo, um homem em busca do amor de uma mulher e da segurança de sua família que tem sua vida alterada para sempre quando passa por uma alcateia de lobisomens.


Sinopse:


O lobisomem poderia ser mais que um mito? Esta é a questão que a série Crônicas da Lua Cheia tenta responder.

Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Década de 1830. Depois de escapar de um ataque de lobisomens, Sétimo é resgatado por um membro renegado de uma antiga ordem religiosa cuja missão é o extermínio da ameaça licantrópica. Perseguido pela alcateia, o jovem sobrevivente passa a viver em degredo voluntário para não colocar a amada na mira das criaturas bestiais. Sétimo se inicia nos segredos da ordem para arquitetar seu plano de vingança, enquanto que, no seio da alcateia, desenrola-se um perigoso jogo de poder. A vendeta do aprendiz de caçador e a disputa pela posição de alfa dar-se-ão em meio aos confrontos da Revolução Farroupilha.




O surgimento do Maioral


Já disse na resenha de A Maldição do Lobisomem o quanto eu gosto de como o autor explora toda a violência e selvageria do mito do lobisomem. Ao mesmo tempo a escrita consegue ser elegante e te passar uma boa compreensão sobre a narrativa que está sendo contada. Sem querer ser um ufanista bobo, Crônicas da Lua Cheia, do Clecius e Lobo de Rua, da Jana P. Bianchi são minhas histórias favoritas atualmente que trabalham com este mito. Em A Ascensão do Alfa, Clecius dá um passo atrás para explicar o surgimento de um personagem importante em seu outro livro, Maioral. E ele faz isso de uma maneira bem sutil.


"As palavras são meros rótulos que sobrepomos às coisas e elas não têm o condão de alterar sua essência."

Sétimo é um homem impulsivo, apaixonado, intempestivo. Um típico sujeito dos pampas. A narrativa se passa no século XIX durante os anos da Revolução Farroupilha, quando o Rio Grande do Sul buscava sua independência, seguindo o exemplo da Cisplatina, que havia se transformado no Uruguai. Dentro desse cenário explosivo, Sétimo se apaixona pela jovem Jennifer, uma alemã imigrante que veio com sua família para o Brasil. Mas, as dificuldades impostas pela revolução vai separar os dois e obrigar a família de Sétimo, outrora com mais recursos, necessitando tocar o gado para ganhar a vida. Isso os coloca em uma rota de colisão com uma alcateia de lobisomens próxima que estava aterrorizando a região. Quando Sétimo e seu pai acabam esbarrando com os homens que formam a alcateia, uma tragédia acaba se abatendo sobre eles. Após a tragédia. Sétimo fica sedento por vingança e não vai parar por nada antes de conseguir seu objetivo.


A escrita de Clecius continua bem acima da média. Gosto demais de como ele consegue brincar com as palavras, formando orações que ora soam elegantes, ora beiram a ironia. Algo simples como dizer o que um personagem está fazendo ganha outros contornos com as nomenclaturas que ele dá a eles: "Jennifer", "a dama dos olhos lilás", "a bela que encanta os ventos", "aquela que encanta minha vida". O autor parece que usa as palavras como marionetes fazendo os seus caprichos. Os parágrafos dançam como nenúfares e suas belas flores. A maneira como ele imposta suas frases combina com o contexto da época dando a impressão de estarmos lendo algum romance do período vitoriano. Mas, é preciso apontar também que ao mesmo tempo em que a escrita é um ponto forte do romance, é também o seu calcanhar de Aquiles. É preciso tomar cuidado com o excesso de floreamento nas descrições, porque pode acarretar em uma distração sobre o que realmente se deseja colocar naquela cena. Em alguns momentos da narrativa, a escrita acaba ofuscando a cena em si. Uma boa escrita ajuda e muito na parte do entretenimento. Mas, ela precisa ter um propósito que é o de avançar a história e deslindar o que se deseja ali naquele momento.


Mas, não pensem que a escrita é apenas bonita. O autor consegue entregar algumas cenas de ação e violência bem grotescas. Afinal, uma flor é linda, mas ela é uma armadilha para pegar insetos. Quanto mais bela, mais eficiente. E nesse sentido alguns momentos são incríveis como a emboscada feita pelos membros da alcateia aos gaúchos e mais tarde o combate singular. O autor consegue imprimir a emoção certa no momento adequada.


"Wendigo gostava especialmente de uma refeição que lhe proporcionava a emoção da perseguição. Muitas vezes, uma torrente de sangue inocente era derramada como tributo dessas caçadas. Porém, essa não era justamente a utilidade do sangue? Ser derramado?"

Um universo em construção


O leitor que se encantou com A Maldição do Lobisomem conhece mais detalhes sobre como funciona o mito do lobisomem nesse mundo. O autor expande um pouco a mitologia revelando alguns detalhes como a existência de caçadores de lobisomens e de como estes imaginam que estes seres teriam surgido. Não há nenhuma informação absoluta e incontestável porque acredito que o próprio autor não tenha chegado na versão definitiva daquilo que deseja entregar. Mas, é uma boa para atiçar os leitores com informações que podem ou não ser precisas. Afinal, nunca sabemos ao certo quando um mito é apenas um mito de quando um mito é baseado em histórias reais. Essa brincadeira com a informação é bastante eficiente. Achei que o autor poderia ter brincado um pouco mais comentando sobre rumores da existência de outras alcateias espalhadas pelo Brasil. A história acabou contida demais na vendetta de Sétimo.


"O homem guiado por suas paixões sempre aceita mais facilmente a versão que melhor se adequa aos seus preconceitos e à sua visão de mundo."

Por outro lado, há toda uma riqueza de detalhes sobre parte da história do Rio Grande do Sul no século XIX. Demonstra um pouco de como o autor pesquisou elementos históricos nos quais calcar os seus personagens. Eles são verossímeis dentro do cenário criado. Há a inserção do sobrenatural, mas é mescla do real com o ficcional é tão boa que isso acaba dando mais realismo à coisa. E não pensem vocês que caçar lobisomens é algum tipo de episódio da série de TV Supernatural. Eles são realmente difíceis de serem mortos. Alguém matá-los é um feito e tanto. Mas, voltando aos elementos históricos, eles servem como propulsores para que as ações ocorram. A emboscada jamais teria acontecido se a família de Sétimo não tivesse sofrido com os rigores e a violência feita pelos revoltosos. Só tenho um pequeno problema com isso: algumas vezes o autor gasta páginas demais para destrinchar acontecimentos e desenvolvimentos da revolução que em nada contribuem para a sua narrativa. As informações precisam ter objetivo. Se uma determinada batalha da revolução afetou de alguma forma um personagem, ela precisa ser descrita. Caso contrário, é apenas informação que não serve ao todo. Por essa razão, senti que o romance tem um pouco de barriga em alguns trechos, principalmente em sua metade. Durante o primeiro terço da história não há problema porque estamos localizando os personagens dentro de um mundo. A partir do meio, a narrativa precisa focar nos personagens a menos que esta tenha importância para aquilo que o autor deseja entregar.


Confesso ter curtido mais os capítulos que se centram na alcateia e na dinâmica dos personagens que a formam. Como Julio é um lobisomem gigante que deseja tomar a posição de alfa do atual líder. Ele enxerga nos seres humanos apenas o seu repasto de todos os dias. Ao mesmo tempo em que é violento, consegue ser esperto e ardiloso. Já Tibério é um pobre diabo meio tonto, porém útil quando necessário. É o elo fraco do grupo. Raul é o beta, mas não deseja de nenhuma forma ser o principal. É centrado e focado e entende que Julio é uma possível ameaça ao bem-estar da alcateia. Já o líder é um homem sábio e muito vivido. Conhece a natureza de homens e lobos e se arrepende um pouco de ter colocado Julio em sua alcateia. Se preocupa se precisará tomar uma decisão que não o agradará. Toda a dinâmica é tensa e mostra as pequenas engrenagens da mente de todos do grupo se movendo lentamente.


A Ascensão do Alfa é um prequel competente que reforça as bases criadas no primeiro livro. Aumenta parte da mitologia acrescentando alguns detalhes que vão levantar as sobrancelhas dos leitores. O mais legal é que o autor criou possibilidades para ele escrever histórias adiante ou atrás em sua linha temporal. Eu certamente leria uma narrativa com lobos atuando durante o período de Jesus Cristo na Galileia ou até no presente com as consequências do primeiro livro. Se podemos fazer uma brincadeira, é quase como se o autor criasse linhas para fazer seu próprio Assassin's Creed só que com lobos.


"Mantenha a alma forte e o coração sereno."


Ficha Técnica:


Nome: A Ascensão do Alfa

Autor: Clecius Alexander Duran

Série: Crônicas da Lua Cheia vol. 2

Editora: Auto-publicado

Gênero: Terror

Número de Páginas: 229

Ano de Publicação: 2017


Link de compra:

https://amzn.to/36asXR8


Tags: #aascensaodoalfa #cleciusalexanderduran #cronicasdaluacheia #sobrenatural #lobisomem #violencia #revolucaofarroupilha #vinganca #ficcoeshumanas






ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.