• Paulo Vinicius

Resenha: "Confinados" de Alexandre Braoios, Soraya Abuchaim, Oscar Nestarez e outros (Parte 1)

Atualizado: 4 de Jun de 2019

Esta é a primeira parte da nossa resenha sobre a coletânea Confinados, publicada pela Monomito Editorial. Ela se baseou em um desafio chamado Ghost Story Challenge que simulava a forma como Mary Shelley escreveu Frankenstein em um retiro com seu marido e outros autores. 

A proposta de Confinados é muito criativa: colocar autores em um retiro simulando à maneira como Mary Shelley, Lord Byron e outros se juntaram para propor um desafio: escrever a proposta de uma história de terror em um lugar afastado e submeter o seu rascunho aos seus colegas. A ideia é ótima porque coloca os autores em uma situação-limite onde eles precisam deixar de lado as indecisões de como começar a escrever algo e colocar a mão na massa. Por mais que nem todos os contos sejam excepcionais (em qualquer coletânea não existe uma unanimidade), a maioria é de bom nível e fica de acordo com a proposta em si. 

A temática básica da coletânea é o lado obscuro do ser humano. Os autores precisaram explorar o que o ser humano tem de pior e colocá-lo em situações onde esse lado aparece bastante. O resultado são contos bem sombrios que não deixam nada a desejar a grandes autores de terror. 

Nesta parte falamos dos seguintes contos:

1 - "Salve às Orcas" (de Francis Graciotto) 2 - "Complexo de Ed" (de Everaldo Rodrigues) 3 - "Vontades" (de Jorge Alexandre Moreira)  4 - "O Bebê de Eliza" (de Kathia Brienza) 5 - "Geometria das Estrelas" (de Duda Falcão) 6 - "Lealdade" (de Adriano Vendimiatti)


Vamos às resenhas:


1 - "Salve às Orcas"


Autor: Francis Graciotto Avaliação:




Simplesmente adorei o quanto o conto do Graciotto é pertinente e contemporâneo. Explorar uma situação que trata de um grupo de jovens influenciados por um jogo online e precisam cumprir missões. Mas, esse aqui é um pouco mais letal do que o Baleia Azul e vemos isso a partir das ações dos envolvidos. O final é bem inesperado e criativo. Uma ótima forma de iniciar a coletânea.

Gostei de como o autor não criou necessariamente um protagonista. Temos uma protagonista que reflete sobre suas ações no começo da história e percebe que se encontra em um caminho sem volta. Mas, depois somos colocados diante de uma reportagem sobre a protagonista e um elemento-final que explora as consequências das ações dela. Essa alternância entre formas de apresentar a narrativa muito me encantou e eu gosto bastante da escrita do Francis. Já o conhecia de um pequeno conto sobre o livro Febre Vermelha (que eu estou devendo uma leitura ainda). 

A exploração de outros fomatos narrativos como o texto de whatsapp, a reportagem jornalística e uma outra pessoa observando de fora a protagonista da narrativa contribuem para transformar o conto do autor em uma experiência. Experiência essa que eu recomendo bastante a todos os leitores.


2 - "Complexo de Ed"


Autor: Everaldo Rodrigues Avaliação:





Quem já não ouviu histórias (no cinema ou em documentários) de filhos reprimidos que odeiam suas mães. Aqui temos uma história onde o protagonista descarrega todo o seu ódio sobre a sua progenitora em uma versão de um complexo de Édipo invertido. O autor consegue entregar no mínimo uma história curiosa e uma outra maneira de entender essa relação repressora entre mães e filhos. 

Algo que está presente por toda a narrativa é o ódio, a raiva. Isso permeia as páginas. Cada segundo, cada pensamento do personagem é ele imaginando (e realizando) formas de eliminar sua mãe. Essa relação distorcida vai sendo desenvolvida ao longo das poucas páginas da narrativa em pequenas situações do cotidiano. Algo que o Everaldo se supera é justamente nisso: transformar o banal em terrível. Tem um momento do jantar entre os personagens que parece que o lado vermelho dos dois personagens transborda pelos poros. É tenso, e o suor cai do rosto do leitor. 

Mais pungente ainda é o fato de a narrativa ser em primeira pessoa, contada pelo filho. As descrições que ele faz são muito vívidas e constroem esse elemento de raiva e ódio que tanto transborda na trama. O autor foi muito feliz ao conseguir colocar esse tema na narrativa e faço ideia dos demônios que ele teve que invocar para poder conseguir escrever esse tipo de história. Não deve ter sido muito fácil emocionalmente falando. 

3 - "Vontades"


Autor: Jorge Alexandre Moreira Avaliação:





Sempre nos questionamos até onde vai o poder de uma família poderosa. Qual é o alcance que eles possuem? O que eles podem conseguir? Imaginem se houvesse um serviço de delivery voltado para essas famílias poderosas que fosse capaz de arranjar qualquer tipo de produto que eles quisessem. Objetos, pessoas, situações. Absolutamente qualquer coisa: da mais exótica à mais podre, da inexplicável à mais torta. Esse é o mote da narrativa criada pelo autor. 

Algo que ele sabe fazer muito bem é esconder do leitor o que é aquilo que o jovem filho pediu ao pai. Este tentando atender às vontades do filho se espanta com o que foi pedido, e começa a perceber o quanto seu filho tem uma personalidade torpe mesmo tão jovem. A parte legal é esse suspense criado pelo autor, ao mesmo tempo em que mostra o cotidiano de uma família com muito dinheiro e status. Um cotidiano marcado por luxos, pecados e decisões; uma família que coloca o resto do mundo em um local muito abaixo deles, como se observassem pequenas formigas caçando açúcar. Aliás, é essa visão mesmo que o autor emprega para descrever a forma como o pai observa as demais pessoas. Quase como na posição de um deus, decidindo vida e morte para todos. 

Gostei da narrativa e da forma como os diálogos se tornam importantes para a compreensão da relação entre os personagens. Com isso vamos entendendo pouco a pouco aonde o autor quer chegar. O final é muito bom... dava para imaginar que seria algo naqueles moldes, mas mesmo assim, o autor surpreendeu. Acho que faltou criar mais algumas cenas com o garoto para mostrar o quanto seus pensamentos eram estranhos. Dessa forma a gente não imaginaria nunca que sairia dali algo positivo, mas algo podre. Só ficaria a cargo do leitor tentar imaginar qual o nível de podridão do rapaz. 


4 - "O Bebê de Eliza"


Autora: Kathia Brienza Avaliação:





Acho legal a ideia de se inspirar em trabalhos de sucesso. É bem clara a inspiração de Kathia Brienza na obra de Ira Levin (O Bebê de Rosemary): problemas na gravidez aliados a pequenos toques do sobrenatural. Mas, eu fico pensando em até onde a homenagem pode acabar prejudicando o resultado final. No conto temos um casal que está passando por um lindo momento com a gravidez da esposa. Isso até acontecer um parto prematuro levando à morte da criança. A partir daí vai acontecer alguns fatos bem estranhos até levar ao final perturbador. 

Esse e outro conto mais à frente me incomodaram por conta da solução encontrada para a narrativa. Algumas coisas ficam melhores quando se opta pela simplicidade e não pelo caminho mais tortuoso. O quanto seria perturbador se a solução encontrada não fosse sobrenatural e sim, um desvio de personalidade da mãe levando-a a criar um bebê morto. Daria uma história de arrepiar sem a necessidade de inserir elementos sobrenaturais. É a navalha de Occam: às vezes a solução mais simples é a mais correta. 

Infelizmente a opção pelo final acabou tirando um pouco da minha empolgação inicial com a história, semelhante ao que veremos em Lealdade mais à frente. Gostei das descrições, apesar de a autora precisar trabalhar um pouco nelas de forma a torná-las mais vívidas. Me senti desconectado em alguns momentos com a história, apesar de a narrativa do marido tentar nos atrair a sentir uma empatia com eles. De todo o modo, quem for fã de O Bebê de Rosemary vai curtir a releitura de Kathia Brienza. 

5 - "Geometria das Estrelas"


Autor: Duda Falcão Avaliação:





Primeiro conto em que o autor se volta para a influência de Lovecraft. E quem acompanha o trabalho do Duda, sabe o quanto ele é habilidoso em empregar a linguagem do autor, mas de uma forma particular, algo só dele. Eu até prefiro ler uma interpretação de Lovecraft pelas mãos do Duda. Sou daqueles que não consegue aturar a forma pomposa como o autor cria seus trabalhos. Prefiro algo mais pés no chão como o Duda faz. E ele faz isso como nenhum outro autor. Aqui temos um grupo de pessoas dedicados a ressuscitar uma poderosa criatura ancestral. Duda descreve o passo-a-passo do grande dia em que os eleitos receberão suas bençãos malditas. 

A narrativa é em primeira pessoa o que permite ao autor expor como o protagonista (um membro importante da seita) pensa, como ele visualiza o seu grande feito. As descrições são repletas daquela aura cósmica e maldita que somente este tipo de história poderia nos apresentar. Gosto de como o personagem em si parece quase vilanesco, mas sem ser tolo. A construção do personagem é muito boa e o leitor fica torcendo pelo sucesso dele, por incrível que pareça. 

Só achei que a narrativa poderia ter tido algumas páginas a mais para que o Duda tivesse espaço para colocar mais alguns detalhes no ritual como apresentar algumas das figuras de elite presentes ali ou abusar de suas descrições que eu tanto curto. O conto redundou em algo muito legal, apesar de não ser exatamente aquilo que eu gostaria de ter lido. Aí é aquele mau hábito de lermos demais um autor e acabarmos criando uma barra de expectativa mais alta. Isso sempre interfere em como analisamos as coisas. 


6 - "Lealdade"


Autor: Adriano Vendimiatti Avaliação:





Assim como em O Bebê de Eliza, eu senti que o autor poderia ter optado pela solução não sobrenatural. A história é de arrepiar e tentar imaginar um líder mundial conhecido por suas ações de paz como um ser maldito e depravado seria algo poderoso. Aí novamente a opção pelo sobrenatural me incomodou muito. Porque tirou mais de dois terços da graça da história. Eu sei: vai parecer que eu estou sendo chato e metendo o bedelho na criatividade alheia, mas é preciso sempre pensar em grandes possibilidades para a narrativa. Esta coletânea tem vários nomes do terror que vem ganhando espaço simplesmente por saírem do lugar comum. Pessoas como a Karen Alvares, a Soraya Abuchaim, o Everaldo Rodrigues e o Francis Graciotto que apostam... às vezes dá certo, às vezes não dá. E muitas vezes no gênero do terror, a opção pelo sobrenatural parece a pior possível. Vários dos melhores contos memoráveis de Stephen King simplesmente exploram a maldade humana. Pura e simples. 

Nosso protagonista é um fuzileiro que está concorrendo à vaga de segurança particular da Casa Branca. Quem está no poder é um presidente norte-americano que vem se destacando por ser uma figura da mediação. Alguém que conseguiu arrancar a paz dos lugares mais improváveis sem arrancar nenhuma gota de sangue. Mas, existe um segredo obscuro por trás da figura do presidente. E quando o protagonista descobrir, os limites de até onde vão sua lealdade serão testados. 

Outro elemento que me incomodou um pouco é que a história se arrasta por algumas páginas a mais. Daria para cortar uma ou duas páginas sem a perda da mensagem que o autor queria passar. Porém, o autor se destaca com a habilidade de criar bons diálogos. Daqueles que passam a sensação de estarem realmente acontecendo. Alguns autores tem enorme dificuldade em criar diálogos verossímeis; passam um ar muito artificial na fala. Aqui não. Soam bem naturais. Apesar de ter ficado decepcionado com as escolhas do autor, preciso confessar que a narrativa é boa e ele sabe construir boas cenas de gore. 

Ficha Técnica:

Nome: Confinados Autores: Alexandre Braoios, Soraya Abuchaim, Oscar Nestarez e outros Editora: Monomito Editorial Gênero: Terror Número de Páginas: 184 Ano de Publicação: 2018


Outras Partes:

Parte 2

Parte 3

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