• Paulo Vinicius

Resenha: "Com Sangue" de Stephen King

Em uma coletânea de quatro novellas, Stephen King nos presenteia com o estranho e o insólito. Em uma das histórias, um garoto desenvolve uma relação de amizade com um velho senhor que o pede para ler livros para ele até que ele morre. Em outra, vemos o retorno de Holly Gibney em uma história que a colocará em uma investigação mortal.



Sinopse:


Brilhante em narrativas curtas, King já escreveu alguns contos que viraram sucesso em todo o mundo, como as histórias que inspiraram os filmes Conta comigo e Um sonho de liberdade. Neste livro, assim como em Quatro estações e Escuridão total sem estrelas, ele cria uma coleção única e emocionante, demonstrando mais uma vez por que é considerado um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos.


Este é um livro sobre amor, amizade, talento e justiça… em suas formas mais deturpadas. Em Com sangue, Stephen King reúne quatro contos com protagonistas inteligentes e complexos, que têm sua vida comum transformada por algum elemento inexplicável.





Gosto demais das narrativas curtas do King. Sempre famoso por seus livros grandes, acho que ele consegue ser mais conciso e eficiente quando se propõe a fazer uma narrativa mais curta. E ele prova isso mais uma vez em Com Sangue onde ele faz experimentalismos e brinca com temáticas bem atuais, fugindo até um pouco dos seus clichês costumeiros. Isso produz um livro surpreendente com várias histórias que poderíamos dizer estarem prontas para serem filmadas, dada a sua experiência como autor. Posso dizer com tranquilidade que essa é uma coletânea de histórias acima da média que, mesmo eu não curtindo um ou dois dos contos presentes, não tira em nada a qualidade do que ele apresenta aqui.


Começamos com O Telefone do Sr. Harrigan que, para os mais experientes com o autor, tem muitas similaridades com Aluno Inteligente, uma das histórias que compõem a coletânea Quatro Estações. Mas, tirando o aspecto sinistro do velho nazista dessa história, temos uma relação de amizade entre o protagonista e o velho senhor. Harrigan é um velho muquirana que, apesar de milionário, é daqueles que escondem dinheiro embaixo do colchão. Craig acaba se tornando uma espécie de leitor de histórias para o velho, que não enxerga mais. Um dia, Craig presenteia o velho com um iphone e mostra a ele as maravilhas de se ter notícias ao alcance das mãos. Isso muda para sempre a perspectiva do velho até sua morte. Quando ele é enterrado, Craig coloca o iphone no bolso dele como uma espécie de recordação da amizade formada entre eles. E, estranhamente, o iphone parece funcionar mesmo meses depois do velho ter sido enterrado. E acontecimentos bizarros se ligam a esse iphone.


A narrativa é bem simples e contada em primeira pessoa. O que é bem diferente para o King já que ele não emprega tanto esse modo de discurso. Mesmo assim a história funciona bem e é quase como se fosse um diário de vida. Por conta dessa simplicidade e essa intimidade que temos com o protagonista eu curti bastante o jeito descontraído como o autor conta a narrativa. O elemento sobrenatural é uma mera curiosidade da história. A narrativa é sobre Craig e o quanto a amizade com Harrigan mudou a sua perspectiva de vida. O velho muquirana e rabugento, mas com um interior doce e caloroso se torna o modelo de ética para a vida de Craig. Em vários momentos na história, diante de situações difíceis, Craig se questiona "o que o senhor Harrigan faria em uma situação dessas?". É uma boa história e uma maneira interessante de se iniciar essa coletânea. Quando ao sobrenatural da história, a gente fica com aquela ideia de se o morto realmente teve algo a ver com os acontecimentos trágicos da história. Pode ser só um fruto da imaginação do protagonista ou muita coincidência.




A segunda história me surpreendeu bastante. É de um experimentalismo narrativo que não costumo ver no autor. Chama-se A Vida de Chuck e é contada de trás para frente em três atos. Cada um deles é mais diferente do que o outro e, apesar de contarem narrativas diferentes, envolvem a figura comum de Chuck. No Ato III (que é o primeiro) temos dois pontos de vista: um deles se passa em um mundo que está sofrendo uma espécie de apocalipse em que acidentes naturais se sucedem um após o outro e as pessoas estão desesperançosas em relação a seu futuro; no outro ponto de vista, temos Chuck entubado em uma cama de hospital prestes a morrer com um câncer. No Ato II temos o recorte de um dia acontecendo para três pessoas diferentes: Chuck, um músico de rua e uma jovem garota que acabou de ser dispensada pelo namorado. A ação se passa em um momento mágico em que o músico está tocando suas músicas para ganhar o seu dinheiro do dia e Chuck está passando pela rua quando pára para vê-lo tocar. Isso gera um daqueles momentos que só acontecem uma vez na vida. No último ato (o Ato I) temos um Chuck criança vivendo com seus avós a quem ele ama e tem bastante amizade. Seu avô lhe conta a história do sótão da casa que parece ter alguma coisa a ver com fantasmas e faz as pessoas terem visões assustadoras.


Por mais que eu ame a Holly Gibney, essa é a melhor história da coletânea. Me recordo que ao final do segundo ato eu me emocionei bastante. King produz uma narrativa de uma beleza e uma poesia que eu vi poucas vezes na carreira dele. Gostaria demais de ver essa história curta transformada em um filme que certamente ganharia a aclamação do público. É quando o autor sai daquela alcunha de escritor de terror para escrever boa ficção. Tem lá sim os seus elementos de estranhamento, mas assim como na primeira história, eles não são aquilo que há de mais importante na narrativa. Tem algumas cenas mágicas que acontecem em vários momentos. Como não há risco de eu dar spoilers já que a história só fica clara com a visão do todo, vou me permitir contar as minhas favoritas. Tem um momento no primeiro ato em que um dos protagonistas chega no condomínio de sua ex-esposa a quem ele está indo se encontrar para estar com ela diante de uma perspectiva de tudo acabar para todos. Ele passa por uma menina andando de patins de forma inocente pelo grande espaço na frente. E é como se sua vida inteira fosse colocada em perspectiva. No segundo ato, o momento musical é, sem dúvida alguma, o ponto alto. Que momento! Só de comentar eu já me arrepio.


E, no último ato, temos uma longa conversa sobre a efemeridade da vida entre o avô e seu neto. E esse talvez seja o tema que ligue as três narrativas. O quanto viver a vida ao máximo seja importante porque talvez nunca tenhamos um amanhã. O segundo ato é de uma filosofia carpe diem que somente um homem como King que já escreveu sobre tantas pessoas horríveis ao longo de sua carreira poderia conceber. Ele tenta nos passar que mesmo nas situações mais difíceis, aquele momento mágico, aquele momento especial pode estar nos esperando no minuto seguinte. E, claro, o objetivo da nossa vida não é almejar este momento especial específico, mas criar o máximo de lembranças memoráveis para que nossa vida possa fazer sentido no final das contas. Mesmo que tenhamos a vida tirada muito cedo por algum motivo qualquer.



A terceira história é a que dá nome à coletânea e tem como protagonista Holly Gibney, personagem introduzida na série Bill Hodges e que faz uma participação também no livro Outsider. Fica o aviso de que vou precisar dar spoilers das duas séries para poder falar da premissa básica. Então se você não quiser, pule esse trecho.



Essa história se passa algum tempo depois do que Holly passou ao lado de Ralph para deter uma criatura que parece ter saído de algum filme de terror. Holly agora é uma detetive particular com algumas pessoas trabalhando junto dela e resolvendo casos de contravenção, investigação e traição. Nada igual àquilo que ela passou antes. Mas, um ataque terrorista a uma escola infantil vai chamar a atenção de Holly. Principalmente um estranho repórter chamado Chip Ondowski que sempre está no lugar certo das tragédias. Além disso, Holly vai precisar lidar com diversos problemas pessoais. Ao lidar com traumas do passado, nossa detetive vai precisar buscar forças interiores para seguir em frente e superar seus medos. E que, embora sua mãe seja um monstro, existem monstros ainda piores à espreita.


É curioso pensar em o quanto King gosta da Holly. Deu para sentir isso em Outsider e aqui. E provavelmente essa não vai ser a última vez em que a veremos. Ela é uma personagem bem complexa, repleta de medos e receios que dão caldo para múltiplas histórias. Antes de tocar nos principais temas deste conto, queria trazer esse subplot. Porque a personagem cresce e se desenvolve bastante aqui. O que eu senti é como se o autor a estivesse preparando para voos mais altos. Suas ações escondem ainda seus traumas, como a criação distorcida e obsessiva de sua mãe que gerou uma mulher insegura e com graves problemas de autoconfiança. Ela está namorando Jerome, um personagem que apareceu na trilogia Bill Hodges e que trabalha ao seu lado e uma parte de sua vida ela ainda esconde dele. Isso será colocado a teste neste história porque Holly vai descobrir da pior maneira que ela não está mais sozinha. E que precisa criar laços afetivos com outras pessoas.


Sobre o plot em si, achei até um pouco normal comparado a como King costuma trabalhar esse tipo de narrativa. Até me decepcionou um pouco. Porém, ele toca em temas bem atuais como a desinformação e a necessidade de criar notícias impactantes. Dá para sentir aquela pitada de crítica do autor na maneira como os noticiários exploram a tragédia humana. O sofrimento, a perda de alguém querido se torna munição nas mãos de um veículo de TV que deseja audiência a qualquer custo. É o cobrir todos os ângulos de uma notícia. Embora o autor deixe claro na narrativa a necessidade de obtermos informações verídicas sobre os assuntos, é preciso tomar cuidado ao não transformar a dor em espetáculo. O monstro que se alimenta da dor humana é bastante real. Basta ligarmos na TV à tarde e assistirmos o empenho dos repórteres em captar as lágrimas, os gestos... tudo para conquistar pontos de audiência através da nossa empatia. Depois de algum tempo ficamos tão anestesiados com isso que já não nos importamos tanto assim com o próximo. Mortes em série se tornam o padrão do noticiário.



A última história se chama Ratos. E trata de obsessão. Um autor quer escrever o seu novo romance longo e para isso ele quer deixar para trás as distrações mundanas. Para isso ele vai passar algum tempo em uma cabana que pertenceu a seu pai que fica em um lugar bem distante no norte dos EUA. Mas, sua esposa teme que ele tenha uma recaída. Há alguns anos atrás, ao escrever o seu último romance longo, Drew teve um colapso mental ao não conseguir concluir seu romance, e quase incendiou sua própria casa. Lucy teme que isso possa acontecer de novo e faz o possível para ele não ir. Só que seu desejo de escrever um romance longo é maior do que tudo e ele segue até lá. Depois de se estabelecer lá, Drew fica muito doente, o que preocupa sua esposa principalmente porque uma tempestade está a caminho e pode deixá-lo incomunicável por vários dias. A teimosia de Drew vence e ele permanece. E sua situação vai piorando. Será que ele conseguirá terminar sua história?


A obsessão de Drew pode ser familiar a vários de nós. Em algum momento de nossas vidas, alguma de nossas escolhas pode nos ter colocado em uma rota de colisão com a sanidade. Um trabalho da escola, um projeto pessoal, um objetivo quase inalcançável. O que fazer nesses momentos? King não te dá a resposta correta, mas certamente ele vai fazer os leitores pensarem um pouco a partir dessa história. Se vale a pena deixarmos nossa casa e nossa família para trás em troca de algo egoísta. Não digo que não faria o mesmo que Drew, mas chega um momento da vida, após uma certa idade em que colocamos as coisas em perspectivas. Não somos mais aqueles jovens pistoleiros tentando conquistar o velho oeste, sem trocadilhos com o romance Rio Amargo que Drew tenta escrever. É que algumas coisas se tornam mais importantes do que outras. Nossa bagagem vai crescendo e precisamos nos preocupar mais com o que e como vamos carregar.


Com Sangue é uma boa coletânea. Não é excepcional como algumas do começo da carreira do autor, mas suas histórias produzem impacto nos momentos certos. Esse formato com certeza é um dos melhores hoje para o autor. Impede que ele escreva com exageros como os famosos tijolos de mais de setecentas páginas que demoram a engrenar e conseguem manter a qualidade de sua pena em histórias de tirar o fôlego. A segunda história para mim foi a melhor. A última vez que o King me pegou desse jeito foi com o romance Ascensão que me lembro de estar em uma véspera de ano novo dentro de um coletivo, chorando que nem uma criança. Isso é o que vocês podem esperar aqui. A história com a Holly de protagonista é legal, mas achei um pouquinho alongada demais para ser só uma novella.










Ficha Técnica:


Nome: Com Sangue

Autor: Stephen King

Editora: Suma

Tradutora: Regiane Winarski

Número de Páginas: 400

Ano de Publicação: 2020


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*Material enviado em parceria com a editora Suma