• Paulo Vinicius

Resenha: "Black Dog - Os Sonhos de Paul Nash" de Dave McKean

Em uma narrativa completamente onírica, explorando a arte e os sonhos de Paul Nash, Dave McKean explora os horrores da guerra por um ponto de vista único. Uma leitura diferente, mas bastante impactante.



Sinopse:


Conhecido por sua colaboração com Neil Gaiman ― na série Sandman e em Sinal e Ruído, Mr. Punch e Violent Cases ―, Dave McKean assombra o universo dos quadrinhos desde a sua estreia nos anos 1980. Agora, a DarkSide® Books apresenta a nova graphic novel do legendário multiartista, baseada na vida de Paul Nash, pintor inglês surrealista que combateu na Primeira Guerra Mundial.BLACK DOG: OS SONHOS DE PAUL NASH aborda, sobretudo, esse período delicado e determinante na vida do pintor, que iria marcar profundamente sua produção artística posterior, e compõe, através das lembranças de Nash e seus companheiros de batalha, um painel multifacetado e tocante sobre como a guerra e situações extremas nos modificam e como lidamos com toda a dor, a perda e o trauma que ela provoca.Paul Nash alistou-se no Exército britânico aos 25 anos de idade, seis semanas após o início do confronto, e engajou-se primeiro como soldado e mais tarde como oficial artista de guerra. Sobreviveu a muitos dos seus colegas soldados que tombaram nas trincheiras na Bélgica, retornou à sua Inglaterra natal modificado após as terríveisexperiências que encarou, e encontrou um propósito para a morte e a destruição que atravessaram o seu caminho.


A guerra forneceu-lhe algo a dizer. E o levou a criar pinturas poderosas, fantásticas, perturbadoras e que conseguem transmitir um vislumbre da loucura que a guerra produz em todos aqueles que participam dela. Uma citação recorrente sobre o artista afrima que “enquanto a grande maioria testemunhava as explosões ao redor, para Nash, as explosões aconteceram dentro dele”.E são exatamente as pinturas de Paul Nash ― ao lado das memórias autobiográficas que o artista deixou ― que inspiraram este lançamento da DarkSide® Graphic Novel. BLACK DOG: OS SONHOS DE PAUL NASH se utiliza de diversas técnicas e estilos, e transforma a linguagem e a estética dos sonhos, dos pesadelos e da memória, com todas as suas alterações e confusões próprias deste estado entre a vigília e sono, influenciando e, por vezes, formando a nossa percepção da realidade. Pensada em cada detalhe, esta graphic novel arrebatadora nos concede um pequeno vislumbre da experiência aterrorizante que foi a guerra para Paul Nash.Além do próprio pintor, o outro único personagem recorrente é o seu cão negro, que o acompanhia, conduz e assombra desde a primeira infância, ainda que alterando a forma e a função a cada momento de sua vida. O cão negro personifica há muito tempo a depressão e o presságio da morte na mitologia e na ficção, simbolismo que aqui tem a função de um fio condutor que nos leva pela loucura e os devaneios de Nash, ajudando a consolidar a ideia de que os acontecimentos e a realidade são muito mais as impressões que ficam com a gente do que qualquer outra coisa.“Quando me deparo com a obra de Paul Nash, sempre me sinto como se estivesse assistindo a um sonho.


É como se estivéssemos olhando para o mundo real através do filtro de sua imaginação. Tantas e tantas pessoas afastam e escondem suas experiências de guerra e não querem falar a respeito – mas artistas como Nash conseguem transmitir suas impressões das pessoas e do panorama e refletir sobre a psicologia daquela experiência”, declarou Dave McKean ao jornal britânico The Guardian. “Em suas notas autobiográficas, ele começa a falar sobre os sonhos praticamente no primeiro parágrafo. Recorda-se de um cão negro que aparecia constantemente neles. Abordar a sua trajetória através dos sonhos foi a maneira perfeita, uma resposta imaginativa para uma vida e obra bastante reais.”


A mãe de Nash sofreu de demência e foi por fim internada; aquilo o asfixiou, de certa maneira. O cão negro acabou por significar várias coisas: as nuvens da guerra se aproximando, um guia, um alerta. “Meu pai morreu quando eu era muito jovem, e desde então sempre tive uma sensação da morte me rodeando. Não é algo físico – não acredito na vida após a morte, em anjos e nada dessa tolice. É apenas uma pequeno zumbido na mente, uma voz insistente com a qual você convive o tempo inteiro”, afirma McKean. “Olhando para o mundo agora, vendo as pessoas saindo da Síria, o modo como lidamos com a guerra não muda nunca. Essas cicatrizes psicológicas profundas estão presentes, e a capacidade das pessoas para superar isso de algum modo – de maneira criativa ou seja como eles conseguem lidar com isso ― é tão importante agora como foi há cem anos. E não creio que a natureza dessas cicatrizes mudem.






Paul Nash foi um pintor da linha surrealista nascido no século XIX na Inglaterra. A temática de suas pinturas sempre girava em torno do significado da guerra e como ela afeta as emoções das pessoas. Nesse quadrinho, a convite de fundações como o Imperial War Museum, Dave McKean usa as pinturas de Nash como inspiração para criar pequenas vinhetas sobre a vida do pintor e como ter participado da Primeira Guerra Mundial afetou a sua maneira de enxergar o mundo e fazer sua arte. Além disso, vemos como uma família disfuncional e uma sociedade de época marcada por um conformismo assustador contribuíram para tornar o pintor em uma figura de vanguarda que foi capaz de produzir quadros estonteantes, porém repletos de uma melancolia e uma tristeza interna que toca até o fundo de nossos seres.


Conheço Dave McKean pelas suas artes de capa da série Sandman, de Neil Gaiman e por ele ter feito a arte de Violent Cases, uma HQ muito boa que teve roteiro de Neil Gaiman também. Assim como nesta HQ, McKean usa sua arte como uma forma de criar ambientes abstratos que se confundem entre a realidade e a fantasia. Cada uma de suas cenas parece ter textura mostrando uma vivacidade. Já outros quadros são repletos de simbolismos que remetem a múltiplas interpretações como o peixe da figura acima. Ele tanto pode significar a chegada dos alemães na Inglaterra, ocupando o país como uma nova espécie animal como pode conotar também a chegada de um imenso objeto estranho e bizarro diante de uma sociedade que ignorava tudo, atônita. Minha única reclamação é que alguns quadros ficaram escuros demais dificultando ao leitor a capacidade de discernir o que está sendo apresentado. Não sei se isso se deveu a problemas na impressão ou ao tipo de papel empregado. O papel parece ser da linha offwhite fosca... talvez a opção por um papel mais brilhante como o couché tivesse valorizado melhor as pinceladas de McKean.


Não tenho muito a comentar sobre a narrativa porque ela é bem ligada à própria biografia do Nash. O que a gente consegue compreender juntando as peças da história é que Nash teve uma criação inquieta muito por conta da doença degenerativa de sua mãe. Ele parece ter deixado seu lar bem cedo e ingressou em uma academia de artes. Lá ele não foi capaz de se encontrar, pois sua mente buscava outras inspirações. Nash foi convocado como soldado britânico durante a Primeira Guerra Mundial onde participou de batalhas catastróficas como Salônica e Cambrai, que tiveram um impacto profundo em suas inspirações para a pintura. Ele perdeu amigos e percebeu a tolice da morte durante um conflito como esse. Foi capaz de transmitir essa agonia através de quadros que exploravam a abstração e a capacidade de empatia do observador. A narrativa de McKean possui muitas idas e vindas, não sendo totalmente linear. Portanto, o leitor vai precisar se esforçar um pouco para manter em mente as informações dadas em momentos anteriores.



Precisamos falar da figura que dá nome ao quadrinho, o cachorro negro. Assim como em outros momentos existem várias interpretações possíveis para ele. O cão pode representar a visão solitária de Nash em relação ao mundo que o cerca. Ele nunca se deu bem com seu pai e sua figura materna era completamente ausente devido ao seu estado de saúde. Isso provocou um vazio em sua vida que nunca foi preenchido. Tanto que podemos ver em algumas cenas como a do quadro acima, Nash perseguindo o cachorro. Isso pode significar uma busca por uma companhia ou até por si mesmo. Como quando ele enxerga o cão mais tarde quando comenta sobre sua experiência mal sucedida na academia. Quanto à identidade em si, vemos outro momento em que Nash sai de dentro do corpo do cachorro, como se ele tivesse tirando uma roupa. Esse momento pode ter significado o encontro consigo mesmo, a possibilidade de ter entendido o que ele desejava realizar. Ao mesmo tempo, o cão negro pode significar a chegada da guerra. E o animal significar a própria morte chegando e se avizinhando diante dele e de seus conhecidos.


Outro animal também habita a narrativa. É um martim-pescador que aparece em algumas páginas, sempre lindamente ilustrado diante de uma paisagem sempre obscura e sombria. Normalmente os pássaros conotam uma vontade de ser livre, de poder voar para outros lugares. Ser capaz de mudar e seguir rumo ao sul, junto de outras aves realizando suas migrações. Mas, a ave pode ter outro significado também. O martim-pescador é uma ave que vive na costa e se alimenta de pequenos peixes. E vimos que Nash representou a invasão nazista à Inglaterra através de um peixe dirigível gigante. Pode significar os esforços de guerra da Inglaterra em busca da paz entre os povos. Algo que precisa se sobrepor ao terror da perda de inúmeros compatriotas.


A Primeira Guerra Mundial não costuma ser um dos temas mais populares. Isso porque ela foi uma guerra suja e com um arcabouço de fontes histórias bem menor em relação à Segunda. Ela girou em torno de uma disputa imperialista entre potências europeias. O que foi marcante nela foi o emprego de armas químicas e de táticas de trincheiras. Por ter sido o primeiro conflito de proporções mundiais, os envolvidos não acharam que a guerra fosse durar tanto tempo. Mas, ela acabou durando quatro anos e destruiu quase um terço da força de trabalho masculina e ativa da Europa. Sem falar naqueles que voltaram traumatizados com as experiências do conflito. Algo que pode ser visto nos quadros de Nash como quando ele mostra a morte banal de seu amigo. A ele restou apenas a tarefa de levar uma carta de seu amigo a seus amados. Tem um quadro magnífico e terrível mostrando corpos empilhados em uma das trincheiras, como se fosse uma macabra pilha de ossos em reverência ao deus da guerra. A Primeira Guerra se desenvolveu de forma lenta, principalmente pela opção de construção de trincheiras. Impedidos de sair delas, os mortos eram empilhados em cantos dessas longas estruturas e os soldados se viam obrigados a conviver com isso. Ou seja, a guerra não apenas feria com balas, mas destruía mentes e corações.


Voltando um pouco antes, Nash critica a imobilidade da sociedade europeia diante da escalada de conflitos entre as nações europeias. A Primeira Guerra Mundial era um conflito inevitável porque questões de hegemonia estavam em jogo. Neste momento aqui não era um embate ideológico como foi a Segunda Guerra Mundial, mas um espaço para que nações conseguissem expandir seus territórios e mercados. Tem um momento na HQ que se passa em um bar em que Nash fica estarrecido com a forma blasé como as classes médias encaravam toda a situação. Como produtores culturais, cabia a classe artística e intelectual se posicionar a respeito do que estava acontecendo, algo que o próprio Nash deixa no ar. O real problema do conflito só vai pesar de verdade quando as mortes começaram a acontecer. Sem contar que o primeiro ano de guerra foi marcado por um estranho e mórbido otimismo de que tudo acabaria rápido, o que, como vimos, não foi o caso.


Ter participado da guerra causou um impacto muito grande em Nash. Os horrores da guerra mexeram até com sua capacidade de percepção da realidade porque a HQ deixa a entender que ele teria se ferido em duas oportunidades, uma que evitou ele de seguir junto com sua companhia até Salonica (o que salvou sua vida porque sua companhia foi dizimada) e outra em Cambrai onde ele foi ferido durante um confronto. Isso fez com que ele perdesse a noção de tempo e do que ele conseguia enxergar, traduzido em uma sequência sensacional onde Nash entra em um labirinto formado por uma rede vermelha que ele precisa atravessar até chegar em uma espécie de ninho de pássaros. Nash alega até não ser capaz de pintar nada diferente que não tenha a ver com guerra. Ela despertou nele uma espécie de fascínio estranho sobre a vida e a morte dos homens.


Black Dog é uma HQ complexa, madura e bastante simbólica. Confesso que fiquei tocado por como a vida de Nash foi atribulada e o quanto a participação em um conflito foi capaz de mudar para sempre a mente de alguém que tinha tudo para ser uma pessoa feliz. Mas, a guerra foi tão marcante que o levou a caminhos espinhosos. Dave McKean é um artista formidável e que conseguiu criar uma narrativa que explora as várias facetas da vida e da obra do pintor. Isso enquanto faz uma crítica social ferrenha a uma classe média que deixou acontecer um conflito que destruiu a vida de milhares de pessoas. Se entendermos o cão negro como um guia para a guerra, ele provavelmente latiu na casa de muitas dessas pessoas e nenhuma delas lhe deu atenção, apenas Nash. Aliás, fica uma curiosidade: Paul Nash pereceu em 1946, um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial.



Ficha Técnica:


Nome: Black Dog - Os Sonhos de Paul Nash

Autor: Dave McKean

Editora: DarkSide Books

Gênero: Biografia/Guerra/Fantasia

Tradutor: Bruno Dorigatti

Número de Páginas: 120

Ano de Publicação: 2018


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