• Paulo Vinicius

Resenha: "Violent Cases" de Neil Gaiman e Dave McKean

Um rapaz conta suas memórias de infância que envolvem o osteopata que cuidou de Al Capone, festas infantis e reuniões de gângsters. O quanto nossa memória pode pregar peças?

Sinopse:


Obra de estreia da parceria Gaiman e McKean, a HQ Violent Cases mistura realidade e fantasia ao narrar as memórias de um jovem que na infância conheceu o médico osteopata do gângster Al Capone. Com um enredo repleto de mistério e nostalgia, a história se divide entre os relatos do médico sobre sua convivência com o gângster e a relação do garoto com o pai. Lançada originalmente em 1987, Violent Cases acompanhou o período de ouro que rendeu Cavaleiro das Trevas, Watchmen, Maus e outros quadrinhos clássicos. Mais do que isso, foi a partir dela que se lançou a carreira de dois nomes determinantes para o cenário das HQs, da literatura e do design contemporâneos. A verdade e a confiabilidade das memórias são o fio condutor desta história. Nela, o protagonista conta que, quando tinha seis anos, uma briga com o pai levou-o a um osteopata para tratar o braço. Esse médico dos ossos, de procedência incerta, aparência imprecisa e passado nebuloso, é o pivô das memórias do narrador que, mesmo sem muita segurança, entrelaça os mundos de violência na família, nas festas infantis e entre os famosos gângsteres do período da Lei Seca.




Falar em Neil Gaiman e Dave McKean na mesma frase é como falar de arroz com feijão, de bife com batata frita, de leite com café. São duas pessoas que tem tanta química, mas tanta química juntos que qualquer coisa que eles produzam juntos é algo especial e essencial às nossas vidas. E é isso que nós temos diante de nós: um dos primeiros trabalhos da dupla em uma temática muito à frente em sua época.

No final da década de 1980, quadrinhos ainda eram mais voltados para contar histórias de super-heróis. Alan Moore quebrou muitos paradigmas ao nos entregar histórias emblemáticas como O Monstro do Pântano e Watchmen e abriu portas para inovadores como Neil Gaiman. Violent Cases nasceu como um conto literário, por isso a diferença em relação a roteiros de outras HQs. A história é tão bem construída que a própria linguagem empregada por Gaiman nas páginas transborda beleza e sutileza. O roteiro brinca com duas temporalidades: a no presente em que o protagonista está contando sua história e a no passado em que as cenas são apresentadas. A história apesar de brincar com aspectos surreais vez ou outra, é facilmente compreensível e permite múltiplas interpretações. A riqueza da história está no fato de ela possuir simbolismos e vários significados escondidos nas entrelinhas.

O traço de McKean é bem diferente do padrão. Tem vários toques artísticos que dão um estilo único e singular à história. McKean escolheu uma palheta de cores bem escura variando do preto e branco ao marrom e em alguns trechos ao azul. Isso dá um clima bem claustrofóbico à história como em alguns momentos na festa de aniversário. Adorei a maneira como o artista trabalhou os quadros, ora com divisões grandes, ora com splash pages com o texto posicionado em partes dos quadros. Se você analisar a edição como um todo, ela é um trabalho de arte incrível. Por mais que a arte possa causar estranhamento em alguns leitores, como o trabalho com a face ou os ângulos bem diferentes empregados, tudo funciona em harmonia com as palavras. Texto e imagem se unem para formar um todo. Por isso que eu disse no começo da resenha que a química entre Gaiman e McKean é espetacular.

"O que é gângster? Não lembro o que foi que meu pai disse; só lembro da empolgação que esta informação me deu ao entrar na minhda vida. Gângsters usavam chapéus e dirigiam carros grandes. Gângsters tinham metralhadoras que guardavam nas maletas de violência. Os gângsters brigavam com a polícia. E eu aprendi tudo isso antes de chegar à casa dos meus avós. "

Estamos diante de uma história que trabalha momentos da Lei Seca. Antes de mais nada é preciso dizer que qualquer coisa que eu fale acerca da história pode ser ou não uma informação precisa. Isso porque Gaiman trabalha com questões relacionadas à memória vivida e à memória afetiva. O personagem conta a sua infância, mas suas lembranças são meio nebulosas. Tanto é que ele mistura fatos e rostos, dá importância a coisas sem importância (mas que para ele-criança tinham muita importância) como o mágico gordo e os biscoitos recheados. Por essa razão o narrador é extremamente não confiável e o leitor acaba precisando usar os próprios instintos para diferenciar (ou não) o que é verdade e o que é imaginação.

Achei fenomenal a maneira como Gaiman nos coloca nas situações mais bizarras sob a ótica de uma criança. A situação com o pai dele constitui claramente um ato de violência doméstica, mas o protagonista tem memórias nubladas a esse respeito. Ou seja, é o seu inconsciente dizendo para ele não se lembrar com precisão deste momento. O narrador cria a figura do osteopata que cada um enxerga de um jeito diferente. Curiosamente aqui o autor brinca com como enxergamos as pessoas. O pai do menino enxerga como um velho estúpido e o menino tem uma visão de um homem sábio e vivido. Mais para a frente quando o osteopata conta sua história, nosso protagonista cria uma terceira imagem sobre ele a partir da emoção e da vivacidade de sua história. Outra cena marcante é como o menino muda a impressão que ele tinha sobre o mágico careca. No começo, ele sequer se lembra do personagem, demarcando ele como um ser esquecível. Logo a seguir ele se torna o foco da atenção, pois ele representa algo que ele detestava em festas infantis e por fim ele é apresentado de forma imponente como alguém que merece sua atenção.


A romantização do fenômeno dos gângsters é colocada aqui. O osteopata nos apresenta uma visão quase heróica de tais personagens ao colocá-los simplesmente como homens que vendiam bebidas. E esta é a visão que muitos no período tinham a esse respeito. Pensar que Capone e Torrio eram apenas criminosos comuns no meio de uma efervescência que foi a Era de Ouro nos EUA é tirar todo o glamour apresentado nos filmes. Algo que foi construído com o passar das décadas. Isso se reflete na maneira como o protagonista os descreve. A frase mais emblemática disso é: Gângsters usam chapéus. Hoje, ninguém mais usa chapéu. Parece que uma era gloriosa havia terminado para dar lugar à mediocridade. E McKean consegue impor o estilo violento dos gângsters através de seus traços. Enquanto a criança imagina uma visão romântica, somos colocados frente a quadros onde Capone demonstra toda a sua violência, seja esmagando seus oponentes com um taco de beisebol, seja eliminando a tiros os seus inimigos. O contraste é fantástico e dá um efeito incrível à maneira como o leitor se relaciona com a história. Isso porque novamente Gaiman trabalha com a maneira como o nosso cérebro se lembra dos fatos.

Violent Cases é uma HQ incrível de dois mestres que, colocados juntos, sempre produzem histórias inesquecíveis. Os desenhos são de tirar o fôlego, brincando com nossas expectativas quanto ao que está sendo dito. É uma ode à Idade dos Gângsters norte-americanos contado sobre a perspectiva de uma criança.


Ficha Técnica:

Nome: Violent Cases Autor: Neil Gaiman Artista: Dave McKean Editora: Aleph Gênero: Thriller/Drama

Tradutor: Érico Assis Número de Páginas: 64 Ano de Publicação: 2014


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