• Paulo Vinicius

Resenha: "A Luneta Âmbar" (Fronteiras do Universo vol. 3) de Philip Pullman

Depois dos acontecimentos de A Faca Sutil, Lyra se encontra em uma caverna, adormecida, tendo a Sra. Coulter ao seu lado. Will está no rastro de Lyra até que ele é confrontado por duas misteriosas criaturas.

Atenção: contém spoilers dos volumes anteriores.


Sinopse:


Em todos os universos, forças se reúnem para tomar um lado na audaciosa rebelião de lorde Asriel contra a Autoridade. Cada soldado tem um papel a desempenhar – e um sacrifício a fazer. Feiticeiras, anjos, espiões, assassinos e mentirosos: ninguém sairá ileso. Lyra e Will têm a tarefa mais perigosa de todas. Com a ajuda de Iorek Byrnison, o urso de armadura, e de dois minúsculos espiões galivespianos, eles devem alcançar um mundo de sombras, onde nenhuma alma viva jamais pisou e de onde não há saída. Enquanto a guerra é travada e o Pó desaparece nos céus, o destino dos vivos – e dos mortos – recai sobre os ombros dos dois. Will e Lyra precisam fazer uma escolha simples, e a mais difícil de todas, com consequências brutais. A luneta âmbar é o último livro da trilogia Fronteiras do Universo, que teve início com A bússola de ouro e A faca sutil. Uma conclusão emocionante, que leva o leitor a novos e fantásticos universos.





Se confrontados com uma escolha entre um amor e salvar inúmeras vidas, o que vocês escolheriam? No fundo, essa é a grande questão de A Luneta Âmbar que nos coloca mais uma vez ao lado de Lyra e Will enquanto eles tentam salvar os vários mundos da ambição da Autoridade e de todos aqueles que desejam o poder sem limites. Os vários mundo estão ameaçados e os leitores começam a entender mais sobre o que é o Pó e como ele interfere com a própria vida inexistente nos vários mundos. Por outro lado somos colocados junto dos objetivos de Lorde Asriel e da Sra Coulter. Até onde vai o amor de uma mãe por sua filha? E como Lorde Asriel se sente diante de tanta interferência da parte de Lyra? Pullman pega todos esses elementos de enredo, insere mais alguns e consegue finalizar uma trilogia incrível com uma enormidade de ideias que podem gerar bons frutos no futuro.



A partir daqui, spoilers do volume anterior!!!




Depois de um dos momentos mais emocionantes da trilogia, ficamos sabendo o que aconteceu a Lyra depois que ela foi capturada pela sra Coulter. Ela leva Lyra até uma caverna do mundo delas, e mantém sua filha adormecida com uma substância entorpecente. As intenções tortuosas dela somente ela e seu macaco dourado sabem. Nesse cenário desesperador, apenas a sua capacidade de enganar as pessoas vai conseguir mantê-la e sua filha a salvo de seus inimigos. Mas, e se a sra Coulter for o próprio inimigo? Will acorda sozinho na beira de um rio e se depara com Balthamos e Baruch, dois anjos que se rebelaram contra o jugo da Autoridade. Eles vieram em busca de Will e da faca sutil para levá-los até Lorde Asriel e auxiliar em seu plano. A dupla de anjos fica frustrada quando entende que Will não vai segui-los e pretende encontrar sua amiga Lyra a todo custo. Só que tanto os anjos como Will chamaram a atenção do Regente no céu, um ser poderoso chamado Metatron. E Metatron quer destruí-los a todo custo. Além de Lyra e Will, vamos rever a dra Mary Malone, que ajudou os meninos no volume anterior. Ela chegou a um mundo estranho cercado de florestas e de seres que parecem elefantes movidos com rodas? Ou ela está maluca? Isso é o início de uma grande aventura para a doutora. Todas essas peças estão inseridas em um tabuleiro maior e mais mortífero que ameaça o equilíbrio de todos os mundos.


“Disse que toda a história da vida humana tem sido uma luta entre o conhecimento e a ignorância. Ela e os anjos rebeldes, os seguidores do conhecimento, sempre tentaram abrir as mentes, a Autoridade e suas igrejas sempre tentaram mantê-las fechadas, ignorantes.”

A Luneta Âmbar é um atestado da habilidade de contar histórias de Phillip Pullman. Pode até não ser o melhor da trilogia, mas sem dúvida nenhuma é um terceiro volume ideal porque amarra todas as pontas soltas deixadas para trás. Raramente a gente se depara com algo trabalhado nesse nível. Tem momentos nesse terceiro volume que Pullman puxa lá do começo do primeiro volume para explicar sua linha de pensamento. E faz sentido. Dentro da lógica que ele criou para o seu universo, os acontecimentos se conectam e se explicam entre si. Algumas das sacadas narrativas que ele faz são elegantes, como a existência ou não dos dimons em outros mundos. Quando ele terminar de explicar, o leitor vai achar tudo natural. Porém, preciso dizer que achei o livro um pouco longo, até porque eu gostei do ritmo frenético de A Faca Sutil que é menor e onde acontece muita coisa. A narrativa segue quatro núcleos narrativos: Lyra, Will, a sra Coulter e Mary. Tem alguns momentos narrados ao lado de outros personagens, sempre em terceira pessoa, mas estes quatro são os que aparecem com mais frequência.



A construção de mundo é sensacional. Claro que este é um livro com mais do pensamento de Pullman que os volumes anteriores. Alguns temas podem incomodar aqueles que possuem uma sensibilidade religiosa maior. Temos seres humanos matando anjos, um plano para destruir a Autoridade (ou seja, Deus) e um momento em que Lyra é comparada a Eva. Os membros da Igreja se parecem com fundamentalistas lunáticos em busca da destruição do que é nocivo a eles. E eles esticam essa linha do nocivo a tudo o que se colocar em seu caminho. Os anjos aparecem como uma força poderosa e que deve ser temida por todos, inclusive Asriel. E essa sensação fica patente ao longo de todo o volume e nunca nos sentimos seguros quando os anjos estão por perto. Isso se pensarmos em o quanto eles são frágeis, mas o autor conseguiu construí-los de forma que eles parecem seres dotados de capacidades acima da compreensão humana. Se tem uma falha na narrativa de Pullman nesse terceiro volume é em o quanto Metatron ficou raso demais. Não houve tempo para desenvolver seus sentimentos e motivações adequadamente. Descobrimos alguns fatos sobre ele que poderiam ter rendido momentos épicos. O Regente acabou se parecendo mais como uma espécie de bomba nuclear capaz de sair varrendo tudo ao seu redor do que alguém com mais a ser explorado.


Se estou falando em personagens sendo desenvolvidos, preciso falar da sra Coulter que ganhou uma espécie de "arco de redenção". Okay, ela é uma mulher estranha e deturpada. Isso está bem claro. Nem sempre toma as melhores decisões e sua vida é repleta de mentiras e meias verdades. Isso é o que ela é. E o autor não faz meio termo nesse sentido. Só que no fundo ela passou a amar profundamente a sua filha, do seu jeito maníaco e psicótico, mas sim. Algumas de suas ações ao longo desse terceiro volume vão parecer dúbias, mas esse é o primeiro volume onde ela faz o que faz porque realmente quer livrar sua filha de seus perseguidores. E ela não se importa nem um pouco com o que os outros vão pensar de suas ações. A sra Coulter tem dois momentos emocionantes onde ela demonstra até onde ela é capaz de ir por Lyra. Mesmo que seja se atirar do alto de uma ponte ou de um abismo. Ela simplesmente não se importa.


Já do lado de Lyra chegamos a uma conclusão bem simples: ela entrou nessa jornada por causa de sua amizade por Roger. Pensemos no seguinte: ela embarcou com os gípcios porque Roger foi raptado pelo Gobblers. Foi até Bolvangar e precisou encarar cientistas maldosos que ousavam causar a heresia máxima: separar um ser humano de seu dimon. Mas, na confusão da invasão à base, Roger acaba morrendo antes de eles alcançarem Cittagaze. A partir daí, Lyra entra em uma tristeza profunda por se sentir culpada pela morte de Roger. É quando ela conhece Will e o aletiômetro destaca a importância de Will para o que ela pretendia fazer por Roger. Isso é algo que a nossa protagonista não entende em um primeiro momento. Mas, nesse volume a conexão entre os dois e a relação deles com Roger vai ficar mais clara. Lyra ganha várias camadas de sabedoria nesse volume. O quanto ela cresce e amadurece faz com que a menininha atrevida do primeiro volume tenha ficado para trás. E Lyra da Língua Mágica é substituída por Lyra, a Contadora de Histórias. Isso porque o ato de contar histórias vai se tornar fundamental para a sua vida. Histórias essas que precisam ser mais verdadeiras do que aquelas que ela inventava para se desvencilhar de suas dificuldades.


Se Lyra amadurece, Will ganha um novo senso de responsabilidade. O garoto sutil que porta a faca que corta universos agora tem algo pelo que lutar. Ele só não se deu conta de o quanto Lyra se tornou importante para si. A maneira como ele vai atrás de Lyra é quase febril, algo pelo qual ele não mede consequências e é capaz de enfrentar qualquer um que se colocar como um obstáculo a seus objetivos. A partir disso, Will vai precisar confiar. E confiar em outras pessoas mais do que em si mesmo. Algo que ele aprendeu que não deveria fazer. Ao passar tanto tempo abandonado junto de sua mãe, Will perdeu a confiança nos outros. Mas, a conversa com John Parry resgata nele a possibilidade de acreditar em outras pessoas. Mesmo que estas sejam anjos os quais ele viu pela primeira vez. Ou quem sabe um urso de armadura que pode vir a ajudá-lo a encontrar Lyra. Isso sem falar na relação de Will e Lyra que se torna mais complexa e cada momento que eles passam lado a lado é um tempo no qual os dois entendem que as vidas dos dois se completam. E que eles foram feitos para estar um ao lado do outro. Essa realização vai ter consequências arrebatadoras nas escolhas de ambos e que podem afetar todos os mundos.


"Will é o portador da faca sutil. Ele prometera ao pai, no leito de morte, que iria entregar a lâmina terrível ao Lorde Asriel. Está se aproximando uma guerra, a maior guerra de todos os tempos, e a lâmina é a unica arma que pode render o inimigo. Um forasteiro num mundo estranho, Will começa sua jornada perigosa. Mas como pode cumprir a promessa quando Lyra, sua corajosa companheira, está desaparecida?"


Não posso deixar de falar de Mary Malone. E ela representa o quanto a visão de Pullman como um ateu está presente em A Luneta Âmbar. E aí compreenda que não é que Mary entende que religiões não existem e não há um ser divino. Ela entende que existem forças no universo que não somos capazes de explicar. Ao lidar com os seres chamados de mulefas, Mary vai se dar conta da real natureza do Pó. E como ele está ligado aos destinos dos dois protagonistas. A personagem deixou seu laboratório e sua ciência de lado, mas encontrou na vida simples e tranquila de um outro mundo a faísca que acendeu sua criatividade e sua capacidade de análise. Sua jornada da Oxford até esse estranho mundo pode lhe fornecer a experiência necessária para ajudar Will e Lyra a superar suas dificuldades.


A gente tem um clímax explosivo que vai envolver todos os personagens dos três livros em uma grande sequência de ação. Preciso dizer que achei o epílogo bem longo, e mal posicionado. Teria colocado aquele momento antes do clímax e mudado um pouco a maneira como este se sucede. Mas, foi a escolha do Pullman e a gente precisa entender que havia uma razão para tal. Quem espera um final bonitinho, pode ser que se decepcione com o agridoce. De qualquer forma, achei um terceiro volume acima da média e fora um problema aqui ou ali, e alguma discordância de alguns encaminhamentos, gostei demais da jornada.


“Ao redor deles não havia nada senão um grande silêncio, era como se o mundo inteiro tivesse prendido a respiração.”











Ficha Técnica:


Nome: A Luneta Âmbar

Autor: Philip Pullman

Série: Fronteiras do Universo vol. 3 Editora: Suma

Tradutora: Ana Deiró

Número de Páginas: 504

Ano de Lançamento: 2017 (nova edição)


Outros Volumes:

A Bússola Dourada (vol. 1)

A Faca Sutil (vol. 2)


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