• Paulo Vinicius

Resenha: "A Faca Sutil" (Fronteiras do Universo vol. 2) de Philip Pullman

A mãe de Will sofre de uma condição terrível: a perda de memória recente. Por essa razão, Will é responsável por cuidar dela e das atividades do dia-a-dia. Seu pai desapareceu. Um dia, alguns homens estranhos invadem sua casa e Will, acidentalmente, mata um deles. Ao fugir, Will acaba esbarrando em Lyra Belacqua, a heroína do primeiro volume da série. Qual será o destino da dupla?




Sinopse: Perdida em um mundo novo, Lyra Belacqua encontra Will Parry ― um fugitivo que logo se torna um aliado mais que necessário. Pois este novo mundo é povoado por Espectros sugadores de alma, e no céu as feiticeiras disputam espaço com anjos. Will procura pelo pai, um explorador desaparecido há anos, e Lyra busca a origem do Pó. No entanto, o que os dois encontram é um segredo mortal e uma arma de poder absoluto, capaz de decidir o resultado na guerra que se forma ao redor deles. O que nenhum dos dois suspeita é do quanto suas vidas, seus objetivos e seus destinos estão conectados... até que precisam se separar. A faca sutil é a viciante sequência de A bússola de ouro, um clássico da fantasia considerado pela Entertainment Weekly “o melhor livro de todos os tempos”. A fantástica aventura de Lyra continua, levando o leitor a novos mundos, rumo a uma descoberta devastadora.




Após ler A Faca Sutil, eu cheguei à seguinte conclusão: Philip Pullman tem o dom de esconder críticas sociais em uma história absolutamente inocente. Poucos autores nos dias de hoje são capazes de criar uma história tão cerebral quanto essa ao mesmo tempo em que faz com que seus protagonistas (duas crianças) despertem a atenção dos leitores.

No segundo volume de Fronteiras do Universo vemos Lyra Belacqua continuando sua jornada após o confronto com o seu pai. Mas, em uma terra similar e ao mesmo tempo diferente da sua, ela se encontra com o menino Will. Este acaba de passar por uma situação traumática: foi responsável pela morte de dois homens que vinham perturbando sua mãe. Como esta sofre de uma condição que a deixa sem memória, Will é responsável por cuidar de todos os aspectos da vida de sua mãe. Quando ele a vê ameaçada, seus instintos falam mais alto e ele reage sem pensar. Após o ocorrido, Will deixa sua mãe na casa de sua professora e foge. É durante sua fuga que Will se encontra com Lyra após esta atravessar uma espécie de janela no espaço. Lyra acabara de viver uma experiência terrível tendo que atravessar uma cidade que fica em uma espécie de limbo entre o mundo de Lyra e o de Will. Agora, ela precisa encontrar alguma maneira de conseguir voltar para casa, ao mesmo tempo em que precisa escapar das garras da Sra. Coulter.

Este segundo volume de Fronteiras do Universo é realmente um volume de transição entre A Bússola Dourada (o primeiro volume) e A Luneta Âmbar (o terceiro volume). Ele possui todos os aspectos de um livro de transição: apresenta mais mistérios, coloca os personagens em situações desesperadoras e seu clímax é um cliffhanger para o próximo volume. Isso me deixou muito chateado. Porque o primeiro volume da série é maravilhoso; a história passa em uma velocidade incrível e as tramas acabam sendo fechadas de uma maneira excelente ao mesmo tempo em que ganchos são deixados para a continuação. Quando eu abri A Faca Sutil eu esperava mais daquilo que vi no primeiro volume. E eu pude perceber que o autor segurou muito a mão e deixou os impactos maiores para o terceiro volume. O enredo acabou repleto de muitas explicações que acabaram tomando tempo e espaço desnecessários.

Os protagonistas são bem desenvolvidos apesar de eu achar a Lyra muito estranha em relação a certas situações. Por exemplo, a relação dela com o Will. Ela logo descobre que ele é um "assassino". A reação dela: dá de ombros e diz que ele é o cara perfeito para o que ela precisa. Eu fiquei abismado... Lyra é uma menina e ela toma certas coisas com muita naturalidade. Achei que a personagem passou a aceitar passivamente muitas coisas. Nem parece a menina espoleta do primeiro volume que desafia a tudo e a todos. Nesse ponto eu acho que o autor acabou não sendo muito coerente com a personagem que ele construiu e desenvolveu no primeiro volume. Entretanto, o leitor vê uma personagem que procura entender a situação de Will e se adaptar às circunstâncias em que se encontra.



Já Will é um personagem bem trabalhado. O autor conseguiu em umas cem páginas, o que ele precisou do dobro para fazer com Lyra: construir um personagem interessante com uma história que se liga completamente ao enredo da outra protagonista. Will é um personagem muito triste que teve sua infância tomada por circunstâncias adversas. Ter que cuidar de sua mãe obrigou o menino a crescer depressa. Seu olhar é sofrido e demonstra o quanto ele está insatisfeito com o rumo que as coisas tomaram. Se tornar o portador da Faca Sutil não o ajudou nem um pouco. Muito pelo contrário: colocou mais um fardo em suas costas.

Cittagaze é uma cidade assustadora. Se o objetivo de Pullman era criar uma aversão àquelas crianças, ele conseguiu sem dúvida alguma. Algumas atitudes que elas tomam lembram algumas que os adultos tomam. Nos imaginemos em situações que não compreendemos e acabamos tomando atitudes violentas e irracionais. Isso é o que aquelas crianças acabam fazendo. Os Espectros funcionam como uma crítica às pessoas que não buscam mais a magia em nosso mundo. Estes se tornam seres tristes que querem sugar a alma de pessoas criativas e felizes. Posso estar delirando em minhas deduções, mas essa foi a minha interpretação do motivo de Pullman tê-los introduzido na história. A aceitação dos Espectros à Sra. Coulter se deve ao fato de que esta já é um "Espectro" por si só.



Outros personagens familiares retornam como Seraphina Pekkala e Lee Scoresby. Ambos tem participações importantes para o andamento da história. Vemos um pouco mais sobre as bruxas nos trechos onde Seraphina aparece. São revelados os motivos de estas terem se mantido um pouco distantes no primeiro volume. Sobre Lee, vale a pena a linda cena entre ele e seu dimon na metade final da história. Pullman deixa um grande elemento de ligação em direção à terceira história. O livro acaba bem rápido, representando uma leitura que não me satisfez completamente. Às vezes os leitores reclamam das gorduras deixadas em um livro ou da falta de objetividade de um autor. Aqui eu achei que o autor foi objetivo demais.

É preciso destacar o aspecto religioso do livro. Recomendo até que aqueles mais religiosos não leiam o livro. Pullman é ateu e tece uma série de comentários entre os diálogos dos personagens na história que podem não soar bem aos mais sensíveis. Basta dizer que o antagonista deseja matar Deus. Pura e simplesmente assim. Não sei se o autor vai conduzir de outra forma no terceiro volume, mas foi isso que ele deixou transparecer nesta história. Basta associarmos a autoridade do Magisterium à Igreja que as conexões aparecem rapidamente. Pullman escreveu a série em um momento quando o ateísmo estava em voga e sob forte discussão. Por esse motivo, os ativistas do ateísmo como Pullman revelavam seu lado mais radical e expunham suas opiniões sem temer a opinião pública negativa. A série As Fronteiras do Universo foram uma das melhores representantes desta discussão no universo da fantasia e da ficção científica.

Enfim, A Faca Sutil é um bom livro continuando e aprofundando uma história que era excelente e conseguiu manter o ritmo apesar de alguns percalços. O novo protagonista é apresentado e desenvolvido de forma muito satisfatória e os outros personagens possuem papeis bem importantes para a história. A ambientação continua fantástica com a cidade de Cittagaze sendo marcante para os leitores.




Ficha Técnica:


Nome: A Faca Sutil

Autor: Philip Pullman

Série: Fronteiras do Universo vol. 2

Editora: Suma

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Eliana Sabino

Número de Páginas: 288

Ano de Publicação: 2017 (nova edição)


Outros volumes da série:

A Bússola de Ouro


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