• Amanda Barreiro

Setembro King: Revival, de Stephen King

Vícios, visões horripilantes e uma estranha forma de fenômeno físico galvânico moldam a vida de Jamie Morton desde sua infância até a decadência na vida adulta. Quem sabe ele descobrirá alguns segredos no processo.



Sinopse:


Em uma cidadezinha na Nova Inglaterra, mais de meio século atrás, uma sombra recai sobre um menino que brinca com seus soldadinhos de plástico no quintal. Jamie Morton olha para o alto e vê a figura impressionante do novo pastor. O reverendo Charles Jacobs, junto com a bela esposa e o filho, chegam para reacender a fé local. Homens e meninos, mulheres e garotas, todos ficam encantados pela família perfeita e os sermões contagiantes.


Jamie e o reverendo passam a compartilhar um elo ainda mais forte, baseado em uma obsessão secreta. Até que uma desgraça atinge Jacobs e o faz ser banido da cidade.


Décadas depois, Jamie carrega seus próprios demônios. Integrante de uma banda que vive na estrada, ele leva uma vida nômade no mais puro estilo sexo, drogas e rock and roll, fugindo da própria tragédia familiar. Agora, com trinta e poucos anos, viciado em heroína, perdido, desesperado, Jamie reencontra o antigo pastor. O elo que os unia se transforma em um pacto que assustaria até o diabo, com sérias consequências para os dois, e Jamie percebe que “reviver” pode adquirir vários significados.



Revival


Revival já começa com uma prerrogativa grandiosa: uma singela homenagem aos maiores autores do terror clássico, como H. P. Lovecraft, Mary Shelley, Shirley Jackson e outros. Não é difícil comprar a ideia de Stephen King e partir para uma leitura com as maiores expectativas. É engraçado, inclusive, como funciona a minha relação com os títulos do autor. Quando menos espero, é quando ele mais me surpreende. O inverso também se provou verdade, porque Revival foi uma das experiências mais fracas que já tive com o mestre do terror.


“Não está morto o que pode em eterno jazer

Em estranhos éons, mesmo a morte pode morrer.”

H. P. Lovecraft


Revival conta a história de Jamie Morton e o acompanha por toda a sua vida, desde a primeira infância até a velhice, com a narração do próprio. Jamie vem de uma cidadezinha do interior do Maine (típico), um dos cinco filhos de uma família grande e tradicional. Logo no começo, Jamie conhece o Reverendo Jacobs e ali começa uma ligação que se perpetua por toda a história.


Os problemas da narrativa começam justamente nesse ponto. A ideia de uma conexão predestinada com Jacobs, um elo indissolúvel, seria interessante se a vida de Jamie não fosse tão minuciosamente e demoradamente descrita. Mais de sessenta por cento do livro dedica-se exclusivamente a tratar das transições de idade, das reuniões familiares, relacionamentos, carreira etc. de Jamie. O livro é cozido em banho maria e quase nada acontece por páginas a fio. Mesmo com tudo isso servindo para contextualizar e aprofundar o personagem, que, por sinal, é sim cativante, Jamie não convence o suficiente para exigir tanto espaço e tempo do leitor.

Como protagonista do King, conhecido por seus personagens vívidos e super problemáticos, Jamie apresenta uma linearidade muito pouco característica. Não havendo nada de memorável ou muito interessante, resta apenas a simpatia por um mocinho “gente boa”. De outro lado, porém seguindo o mesmo fluxo, o antagonista também não agrega muito, passando batido por outros tantos vilões mais interessantes do autor. É fácil perceber sintomas clichês no personagem. Nada surpreendentes, portanto, os personagens (que costumam ser um grande trunfo do Stephen King) não são ruins, porém estão longe de serem realmente bons.


“Quando alguém fala de riscos aceitáveis, a pergunta que cabe é: ‘Aceitáveis para quem?’”.

A fixação do Reverendo Jacobs pela eletricidade é o que movimenta – razoavelmente – a trama, cheia de experimentos e curas “milagrosas” através de forças misteriosas e mais poderosas que se imagina. É essa eletricidade que permeia e assombra a vida de Jamie, e alguns elementos narrativos utilizados são interessantes, como os efeitos colaterais das curas realizadas. King se aproveita de momentos de marasmo (acho que essa palavra inclusive define o ritmo da leitura) para atacar com trechos sombrios e agoniantes, mas passado o impacto nos vemos de volta à mesma narrativa arrastada.


Apesar de eu detestar fazer isso - vocês vão precisar me perdoar - preciso dizer o quanto o final me decepcionou. Esse foi, inclusive, um dos fatores que mais abaixou a minha avaliação geral. Apesar de tudo ser bem amarrado, até porque estamos falando de um dos maiores contadores de história da atualidade e o talento do King é indiscutível, a impressão que fica é a de um filme B de terror trash.

Gostaria de ter coisas melhores a falar sobre Revival. Eu quis ler esse livro por muito tempo, mas a cada página o desconforto só crescia. Mas está tudo bem, porque nem sempre acertamos na escolha da leitura, e nem sempre o mestre King acerta também. Revival é um livro correto, sem defeitos aparentes além da morosidade, porém profundamente batido e desinteressante. Infelizmente, deixou a desejar.











Ficha técnica:


Nome: Revival

Autor: Stephen King

Editora: Suma

Tradutor: Michel Teixeira

Número de Páginas: 376

Lançamento (no Brasil): 2015


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Livro cedido em parceira com a editora Cia. das Letras.









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