• Paulo Vinicius

Resenha: "Zero K" de Don DeLillo

Em uma instalação chamada de Convergência, Jeffrey Lockart é chamado pelo seu pai, Ross, para testemunhar o congelamento dele e de sua madrasta que está em estado terminal. Um romance sobre identidade, nomes, tempo e a importância de nós mesmos. 

Sinopse:


Quando, a convite do pai, o jovem Jeffrey Lockhart viaja a uma zona remota do planeta para dizer adeus à madrasta, Artis, debilitada por uma doença degenerativa, ele se depara com algo com que nunca sonhou. Artis está, na verdade, prestes a ser depositada em uma cápsula criogênica, em um imenso complexo médico e tecnológico projetado para armazenar corpos humanos por tempo indeterminado. Exposto a dispositivos insólitos, Jeffrey é forçado então a avaliar suas percepções e crenças. Do distanciamento do pai à morte da mãe, ele se vê diante de uma série de lembranças dolorosas, que parecem determinantes para seu futuro.




A ética por trás de criogenar pessoas para um futuro distante sempre foi uma discussão ética que perpassou os últimos anos. Quem criogenar? Por que criogenar? Ao mesmo tempo somos apresentados a um personagem extremamente blasé que não se conforma com o que o sistema lhe coloca. Don DeLillo nos apresenta uma ficção científica sobre os nossos tempos, onde a reflexão é mais importante do que o cientificismo da coisa. 

Vou começar destacando aula de escrita dada pelo autor. Ele consegue ter muita profundidade em cada frase criada. Existe não apenas um segundo significado, mas também uma sonoridade nas palavras. Elas parecem certas aonde se encontram. Pétreas, absolutas. Sua narrativa é em terceira pessoa, a partir do ponto de vista do Jeffrey. O discurso percebido é o direto, mas com longos diálogos contemplativos onde os personagens expõem suas ideias e concepções. Temos capítulos bem temáticos onde o protagonista vai construindo bloco a bloco a sua visão de mundo. Vale destacar também uma preferência do autor por períodos curtos e perguntas que suscitam respostas repetidas. Por exemplo: "Tudo bem?... Tudo bem." Essa repetição serve para enfatizar a ideia explorada pelo autor. Ou até para produzir algo categórico para encerrar o assunto e avançar na ideia. 

Queria destacar também o trecho onde ele explora o ponto de vista da Artis. Ele brinca afirmando que se trataria de uma narrativa em terceira e em primeira pessoa simultaneamente. E a gente realmente percebe isso naquele trecho. Ao mesmo tempo em que ela está enxergando a narrativa, ela está contando sobre si mesma e observando o cenário. É um experimento muito interessante e que só deu certo por causa das condições nas quais a personagem se encontrava. 

Outro ponto é que podemos basicamente dividir o livro em duas grandes narrativas: uma em que Jeffrey vai se encontrar com Ross na Convergência e a segunda parte em que acontece dois anos depois. É possível perceber uma temática comum aos dois trechos que é a busca pelo seu papel no mundo. Jeffrey critica Ross porque acredita que seu pai ainda não cumpriu seu papel no mundo. Tendo sido um pai ausente, ele fez de seu filho uma pessoa incompleta. Ao não enxergar seu lugar no mundo, Jeffrey tem essa postura blasé. Ele ainda se encontra em busca de um significado para si e este significado só viria a partir de uma definição de seu pai. 

"O tempo. Eu sinto o tempo em mim por toda parte. Mas não sei o que ele é.  ​O único tempo que eu sei é o que eu sinto. É tudo agora. Mas não sei o que isso quer dizer."

A grande discussão do livro é acerca da nossa identidade como indivíduos dentro da sociedade contemporânea. Ross é um homem de negócios, um projetista. Alguém que entende de previsões e de movimentos. Quando sua segunda esposa entra em um estado terminal, a reação imediata dele é desejar estar com ela. Mas, quando argumentos plausíveis são apresentados para ele, o que era instinto dá lugar a uma análise profunda. Porém, Ross é uma pessoa ausente. Não fica claro se ele ama ou amou tanto Madeline quanto Artis. A impressão que passa é que Artis parece ser uma pessoa que deu um norte para o personagem. Não à toa, quando Ross fica sem Artis ele adoece imediatamente. 

Jeffrey é uma completa incógnita. Por ele ter essa postura blasé, ele questiona e contra-argumenta. Para mim, DeLillo usa Jeffrey como um personagem-orelha na primeira parte e com um personagem ativo no segundo. O papel de Jeffrey na primeira parte é percorrer os corredores de Convergência e ter acesso às diversas linhas de pensamento. Em um momento eles estão discutindo as motivações que levaram Ross a seguir Artis na criogenia. Isso porque Ross não está doente. Ele precisaria ser morto para depois ser criogenado. A discussão gira em torno da ética por trás dessa morte: é ou não é assassinato? A gente acaba entrando na discussão acerca da eutanásia, mas uma eutanásia sem uma doença. Uma expectativa de um tempo futuro vindouro que seria uma espécie de Época de Ouro. Há também uma discussão religiosa sobre o que viria no porvir. Um personagem conhecido como O Monge estaria ali para mostrar as implicações religiosas nesta postura de Ross. Interessante que o personagem guia o pensamento de Jeffrey ao longo da discussão. 

Há também uma forte importância no ato de nomear e definir. Isso me fez associar ao mito egípcio da nomeação. Nomear dá poder a alguém. Poder esse ligado à vida e à morte. Jeffrey leva esse ato de nomear até além: encadear as palavras, buscar sua semântica e até em que língua uma determinada palavra se encontra. Uma das passagens mais importantes nesse tema é quando Jeffrey leva Stak até o museu e mostra a ele uma pedra. A ideia é dizer a Stak que apesar de a pedra possuir um nome, ela não existe. É uma noção heideggeriana de que a existência estaria relacionada à racionalidade. Somente os seres humanos, capazes de estabelecer lógica e razão existiriam. Animais, plantas e objetos são, mas não existem. É uma discussão que redunda em camadas e mais camadas de contra-argumentos. 

Zero K pertence a toda uma vertente de livros que exploram a relação da sociedade com o indivíduo. Obras como Passagem para o Ocidente (de Mohsin Hamid), O Conto da Aia (de Margaret Atwood) e até o Não me Abandone Jamais (do Kazuo Ishiguro) utilizam a ficção científica para criticar algum tema presente nos dias de hoje. Não se importam tanto com a cientificidade por trás do termo ficção científica, mas do aspecto social dele. Para mim, é uma leitura que vale a pena. 


Ficha Técnica: 

Nome: Zero K Autor: Don DeLillo Editora: Companhia das Letras Gênero: Drama/Ficção Científica Tradutor: Paulo Henriques Britto Número de Páginas: 272 Ano de Publicação: 2017


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*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras


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