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Resenha: "Umbrella Academy - Suíte do Apocalipse" de Gerard Way e Gabriel Bá

Atualizado: 14 de jan. de 2020

Reunidos pelo excêntrico Hargreeves, sete crianças nascidas sob circunstâncias especiais são treinadas para salvar o mundo. Mas, após muitos desentendimentos, todos seguem seus próprios caminhos. Com a morte de Hargreeves, eles se reúnem novamente. E o fim do mundo está à espreita...

Sinopse: Em um inexplicável evento, quarenta e três crianças foram geradas espontaneamente por mulheres que não apresentavam sinais de gravidez. Sete dessas crianças foram adotadas por Sir Reginald Hargreeves e formaram a Umbrella Academy, uma família disfuncional de super-heróis com poderes bizarros. Em sua primeira aventura, essas crianças enfrentam uma enlouquecida Torre Eiffel. Quase uma década depois, a equipe se separa, mas esses irmãos desiludidos se reúnem bem a tempo de salvar o mundo outra vez.



Grupos disfuncionais não são novidade no universo das HQs. A gente tem vários exemplos desde a última década. Temos diante de nós um grupo de pessoas com poderes que tiveram suas vidas alteradas por algum motivo (não revelado neste primeiro volume) e seguiram suas vidas. Anos mais tarde, eles são reunidos novamente por conta de uma tragédia e acabam precisando salvar o mundo de uma ameaça terrível. Em Umbrella Academy temos uma equipe que não funciona como uma equipe. E eles precisam descobrir o que neles há de módico de família.


O tema principal aqui é o como estes meninos foram reunidos e para o que foram. Hargreeves não é uma figura paterna para eles. Longe disso. Eles são criados em um ambiente ruim onde os laços familiares se estabelecem entre eles e não com seus pais. Talvez a única pessoa ali que tenha algum tipo de carinho por eles é Pogo, e mesmo assim sob um ponto de vista científico. Quando a ameaça acontece, em nenhum momento a gente vê os personagens realmente agindo como uma equipe (contrariando os flashbacks deles como crianças em que eles funcionavam até muito bem). Começando a falar por Kraken, ele é um personagem egocêntrico e desconfiado. Quase uma versão meio caricata do Batman. Ao sempre disparar no meio das missões, ele coloca os outros personagens em situações perigosas até desnecessariamente. Ele guarda muito rancor por Vanya ter revelado os bastidores da família em um livro autobiográfico.


Spaceboy é o âncora da família. É o virtuoso. Aquele que acredita que eles devem cumprir uma missão. A personalidade de Luther chega a ser ingênua e inocente diante de um mundo que funciona mais em cinza do que em bons e maus. Ele fica ao lado de um robô na lua à espera de alguma ameaça que parece nunca chegar. Quando retorna à Terra descobre que sua família mudou muito. E que não há mais neles aquilo que os fazia ficar unidos. Não dá para dizer ao certo que ele sente algo por Rumor, muito por conta de uma pequena malandragem da personagem. Esta é muito mal desenvolvida na narrativa. Sabemos que ela é mãe e está preocupada com a segurança de sua filha, cuja guarda saiu de suas mãos por motivos que desconhecemos.

Vanya é a normal do grupo. É aquela que, apesar de ter nascido no mesmo dia dos demais, aparentemente não possui poderes. Ela sempre é tratada com reserva e uma certa condescendência pelos demais. Mantida sempre longe dos momentos de ação, Vanya acaba desenvolvendo muito rancor por conta disso. Hargreeves não se mete sequer a explicar o porquê de ela estar distante. Mais tarde, quando as coisas degringolam e a ameaça fica séria, a revolta de Vanya é o que acaba levando a história adiante. Ela se torna um alvo da Ópera Verdammten, um grupo de vilões que querem destruir o mundo. E alguns segredos a mais da família são revelados causando problemas de proporções apocalípticas. E tudo isso por causa de segredos, mentiras e traição.


Aparentemente o Número 5 desapareceu quando era pequeno e parece ter ido para o futuro acidentalmente. Ele não consegue saber o motivo pelo qual ele acaba indo parar lá, mas uma coisa é certa: o futuro não é brilhante para a Umbrella Academy. Quando ele retorna para o presente, volta com um alerta: o mundo será destruído e os personagens estarão no olho do furacão. Eles acabam sendo mortos por uma ameaça desconhecida para ele. Vemos que Número 5 permaneceu muitos anos preso em um futuro distópico até que algo aconteceu para causar o seu retorno. Muita da história do personagem tem furos os quais ele não se preocupa em contar. Ah, e ele voltou ao passado no corpo que ele tinha antes de desaparecer. Um adulto experiente no corpo de uma criança. Mas, assim, não esperem muitas revelações aqui. Gerard Way coloca muitas minhocas em nossas cabeças a respeito do que acontece com ele.


Sobre Séance não dá para falar muita coisa. Ele quase não aparece neste primeiro volume. Está sempre no fundo, levitando junto de seus mortos. O personagem parece observar as coisas de forma passiva. Sobre os demais personagens, Way os coloca de forma muito caricata o que me incomodou muito. A própria narrativa principal não foi capaz de me envolver pelo simples motivo de deixar muitos furos. Entendo que algumas são coisas que ele vai trabalhar futuramente (em Dallas), mas mesmo assim, coisas básicas como a interação em família, os problemas entre eles e o papel das pessoas da mansão na criação deles não são explicados.

Achei a narrativa também muito apressada. As coisas se sucedem em uma velocidade assombrosa. A gente não consegue parar e refletir sobre o que está acontecendo. Normalmente, isso poderia ser algo positivo, mas aqui é muito estranho. Por exemplo, em Black Hammer, Jeff Lemire gasta bons capítulos simplesmente reforçando os laços e relações entre os personagens. E a proposta básica de ambas as obras é basicamente a mesma. Way se foca em nos colocar em situações absurdas. As ideias que ele tem são brilhantes, mas a maneira como ele as explora é muito pobre. Deixar as coisas a cargo do leitor imaginá-las chega a ser até preguiçoso, como a história por trás de como Hargreeves encontrou Pogo. Se a minha temática se foca em estabelecer relações familiares, não trabalhar estas mesmas relações de uma forma satisfatória é um erro primário. Tudo é muito confuso: saímos do ponto A para o ponto B, mas como as pessoas chegam nesse ponto B não é explicado. Ora temos um cara em uma armadura de robô atirando lasers por toda a parte, na outra temos uma orquestra sinfônica do mal. Para a seguir, Way colocar algum problema de família.


Para complicar ainda mais a situação, não sou fã do estilo de arte do Gabriel Bá. Pelo menos não aqui. A arte tende a ser caricata, exagerando nos modelos corporais e com o rosto deformado em algumas partes. Sim, essa é a proposta do artista, mas para o que Way pretende fazer, não achei uma boa combinação. Eu curti o visual de alguns personagens como o Spaceboy e o Séance, enquanto outros tem um estilo que chega a ser estranho demais. A White Violin tem um visual que eu, sinceramente, não sei sequer explicar o quanto eu não curti. Outro elemento que me incomodou foram as sequências de ação que me pareceram confusas demais (no segundo volume, Dallas, Bá nos mostra que evoluiu bastante nesse sentido). De duas, uma: ou o artista não era muito experiente em desenhar cenas de ação, ou o roteiro que chegou para ele era confuso e Way não foi capaz de aproveitar o talento do artista.


Sei que vocês querem que eu faça uma comparação entre a série de TV e a HQ, mas não considero isso legal porque são mídias diferentes. Fica aqui apenas o meu elogio à edição da Devir que está muito boa e no final conta com uma galeria de capas. Aliás, as capas das single issues estão um espetáculo à parte. Outra coisa que chama a atenção também são os trechos de recapitulação que são bem malucos. No fim das contas, Umbrella Academy é uma HQ divertida. Apresenta algumas ideias bem malucas e conseguiu ser inovadora e abrir espaço para outros experimentos do gênero como Black Hammer, que veio depois. Vou ler o volume 2, mas não é algo que tenha aberto horizontes para mim. Porém, acho que tem muito espaço para melhorar e coisas a serem exploradas.


Ficha Técnica:


Nome: Umbrella Academy - Suíte do Apocalipse

Autor: Gerard Way

Artista: Gabriel Bá

Editora: Devir

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Marquito Maia

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2018


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