• Paulo Vinicius

Resenha: "Uma Casa no Fundo de um Lago" de Josh Malerman

James finalmente consegue criar coragem e chamar Amelia para sair. Ele pega a canoa de seu tio e a leva para conhecer os lagos que ficam próximos da cidade. Depois de se embrenharem pelo segundo lago, menos cheio e mais interessante de se passar a dois, o casal encontra um terceiro lago. E nele, uma casa submersa no fundo.


Sinopse:


James e Amélia têm dezessete anos. Em comum, além da idade, têm o fato de estarem um a fim do outro e de serem tomados pelo nervosismo quando James chama Amélia para sair. Mas tudo parece perfeito para um primeiro encontro: um passeio de canoa pelos lagos, levando um cooler cheio de sanduíches e cervejas.


À medida que se aprofundam na exploração, os dois chegam a um lago escondido e encontram algo impressionante debaixo d'água. Um lugar perigosamente mágico: uma casa de dois andares com tudo que tem direito — móveis, um jardim, uma piscina e uma porta da frente, que está aberta.


Enquanto, fascinados, vasculham o imóvel e tentam passar uma boa impressão para o outro, cresce o medo. Será que um local misterioso como aquele esconde alguém — ou algo — vivo? Uma coisa é certa: depois de mergulhar nos mistérios da casa no fundo do lago, a vida deles jamais voltará a ser a mesma.





Quantos de nós já não tivemos nosso lugar secreto quando adolescentes? Seja este um lugar em que ficávamos sozinhos ou um cantinho em que passávamos ao lado de nossos amados. Este encanto pelo segredo que não pode ser revelado a ninguém está presente nesse novo romance de Josh Malerman. Um segredo a dois que acaba por se tornar uma obsessão mortal. Depois de vermos histórias com mais elementos de terror psicológico como Caixa de Pássaros e Piano Vermelho, Uma Casa no Fundo de um Lago é uma novella bem diferente vinda do autor. Uma história que vai trabalhar mais com nossa imaginação do que em revelar alguma coisa.


Assim como um belo romance, a narrativa começa com um garoto a fim de uma garota. Depois de batalhar com suma timidez ele consegue finalmente chamá-la para sair. E pensa em um primeiro encontro diferente: andar de canoa pelas lagoas que se situam um pouco mais afastadas da cidade, em um terreno de seu pai. A primeira lagoa é muito conhecida por todos e talvez eles não conseguissem ter a privacidade que tanto desejavam. Mas, a segunda lagoa é menos conhecida e eles seguem até lá. Após alguns momentos bem fofos entre o casal, James avista um túnel levando a um terceiro lago do qual ele nunca tinha ouvido falar. Uma travessia incômoda mais tarde, eles chegam até lá onde se deparam com uma estranha cena: uma casa no fundo do lago. Tudo sobre essa casa parece estranho: ela não parece ser o alvo de intempéries e os móveis e objetos parecem estar como se fossem em uma casa na superfície, contrariando todas as leis da física. O casal decide manter o segredo para si enquanto exploram a casa como se fosse a deles.


Uma coisa que não podemos negar é o quanto Malerman tem uma escrita lenta e cuidadosa. Diferentemente de Stephen King que gosta de fazer com que o cenário ou a situação lhe permitam trabalhar a psiquê das pessoas, Malerman usa o cenário apenas em segundo plano para que as emoções tomem o primeiro plano. O objetivo final é o mesmo, que é o de criar o terror psicológico, mas o caminho percorrido é ligeiramente diferente. Mesmo sendo uma proposta bem simples, a narrativa acaba ganhando um tamanho bem maior do que ela deveria ser. Caixa de Pássaros é um romance que parece ter o dobro do tamanho que precisa; este romance possui esta mesma sensação. No entanto, a gente acaba fisgado por o quanto os personagens possuem personalidade. Nada de heróis aqui; James e Amelia possuem suas qualidades e defeitos bem claros. Ninguém é idealizado.



Amelia é a garota típica de cidade pequena. Aquela personagem clichê que deseja sair a todo custo de onde ela está e que difere de todas as outras ao seu redor. Ela trabalha em um supermercado para conseguir bancar suas despesas. Com o tempo vamos conhecendo o quanto Amelia é uma mulher obsessiva quando coloca um objetivo em mente. O medo não a faz parar diante de algo que pode lhe ferir. Em alguns momentos chega a ser engraçado porque ela espera que James recue diante de uma situação e ele espera que ela lhe dê a deixa para recuar. Mas, isso nunca acontece porque um espera as ações do outro. A partir do momento em que a loucura estoura, eu fico realmente me questionando se a Amelia realmente gosta do James ou se ela gosta da aventura de explorar a casa. Esta é uma pergunta não respondida pelo romance.


"Ela estava sorrindo. O sorriso de sobrancelhas arqueadas que amigos dão uns aos outros antes de entrarem na casa dos horrores do parque de diversões ou de darem play em um filme extremamente assustador".

Já o amor de James por Amelia é bem claro. Não há dúvidas nisso. Ele é louco por ela. O leitor fica desejando que eles voltem do lugar em que se encontram porque sabe que algo não vai dar certo. Certas cenas nos mostram que alguns perigos que eles vivem poderiam ter sido evitados. Mas, isto não acontece simplesmente porque James acaba em dúvida se vai conseguir manter o interesse de Amelia por ele caso se afaste da casa. Essa insegurança do personagem permanece ao longo de toda a história e outra dúvida que surge é se houve realmente um crescimento da parte dele ou se ele apenas se manteve o mesmo ao final.


Algumas falhas de roteiro são percebidas com clareza. Malerman não explica como o casal consegue permanecer vários dias fora de casa, dormindo em cima de uma balsa. Eles voltavam para casa ao final do dia? Deram uma desculpa para faltar dias de trabalho? Ninguém os deu como desaparecidos? A relação de ambos com suas respectivas famílias não é trabalhada em nenhum momento. Amelia tem pais? É órfã? Mora sozinha? No caso de James, o único que aparece nas cenas é o tio que empresta a canoa. A exploração da casa se dá em uma espécie de cenário quase onírico onde os dois personagens parecem viver uma realidade própria à parte do mundo real.



A narrativa emprega uma estrutura simples e bastante eficiente com três atos: a apresentação dos personagens, a exploração da casa e o clímax. Não há firulas narrativas presentes aqui e eu gostei dessa abordagem mais direta. Alguns leitores se incomodaram com a falta de explicações sobre a casa e o final aberto demais. No primeiro caso, eu fico em cima do muro a esse respeito. Não sei se teria valido a pena o autor ter explicado o que era o fenômeno. Fico como a Amelia: para que entender o como e o por que? Vai fazer alguma diferença? Ao mesmo tempo penso que realmente faz falta para uma possível mitologia entender por que aquilo estaria acontecendo. Sei lá, o autor poderia ter inserido recortes de jornal entre capítulos ou atos comentando de outros momentos em que a casa apareceu. Já no caso do final aberto, isso eu achei legal. Ele permite que nós extrapolemos o que foi escrito para escrevermos o final que quisermos a partir da descoberta de Amelia.


Uma Casa no Fundo de um Lago é uma novella que trabalha mais com o suspense do que com o terror propriamente dito. Seu tema principal é a fascinação que sentimos diante do inexplicável. O quanto o fantástico permeia nossas mentes quando somos mais jovens e o quanto precisamos desse mesmo fantástico para tirar nossas vidas da mesmice do cotidiano. No fim das contas, Amelia só queria sair do lugar comum e nós acompanhamos o relacionamento dos dois personagens, entre altos e baixos. Vale bastante a pena.









Ficha Técnica:


Nome: Uma Casa no Fundo de um Lago

Autor: Josh Malerman

Editora: Intrínseca

Tradutora: Fabiana Colasanti

Número de Páginas: 160

Ano de Publicação: 2018


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