• Paulo Vinicius

Resenha: "Um Tom Mais Escuro de Magia" (Um Tom Mais Escuro de Magia vol. 1) de V.E. Schwab

Kell é um Antari: alguém capaz de caminhar pelas Londres de diferentes dimensões. Ele é responsável por manter uma comunicação entre os reis destes lugares. Mas, também tem um vício por contrabandear objetos entre as Londres. Este vício o colocará em um perigo mortal.

Sinopse:


Entre em um universo de aventuras audaciosas, poder eletrizante e Londres múltiplas. Kell é um dos últimos Viajantes — magos com uma habilidade rara e cobiçada de viajar entre universos paralelos conectados por uma cidade mágica. Existe a Londres Cinza, suja e enfadonha, sem magia alguma e com um rei louco — George III. A Londres Vermelha, onde vida e magia são reverenciadas, e onde Kell foi criado ao lado de Rhy Maresh, o boêmio herdeiro de um império próspero. A Londres Branca: um lugar onde se luta para controlar a magia, e onde a magia reage, drenando a cidade até os ossos. E era uma vez... a Londres Negra. Mas ninguém mais fala sobre ela. Oficialmente, Kell é o Viajante Vermelho, embaixador do império Maresh, encarregado das correspondências mensais entre a realeza de cada Londres. Extra-oficialmente, Kell é um contrabandista, atendendo pessoas dispostas a pagar por mínimos vislumbres de um mundo que nunca verão. É um hobby desafiador com consequências perigosas que Kell agora conhecerá de perto. Fugindo para a Londres Cinza, Kell esbarra com Delilah Bard, uma ladra com grandes aspirações. Primeiro ela o assalta, depois o salva de um inimigo mortal e finalmente obriga Kell a levá-la para outro mundo a fim de experimentar uma aventura de verdade. Magia perigosa está à solta e a traição espreita em cada esquina. Para salvar todos os mundos, Kell e Lila primeiro precisam permanecer vivos.




Uma das grandes qualidades do gênero Young Adult é a escrita extremamente veloz que faz com que o leitor seja capaz de terminar um livro em poucos dias. Mas, Um Tom mais Escuro de Magia tem apenas traços deste gênero. É um livro voltado para um público adulto até porque tem alguns momentos bem tensos como tortura e cenas de violência. O tom é outro, apesar de a autora ter mantido um pézinho no YA. Aliás, se posso dizer algo é que a autora é uma das responsáveis por estarmos ampliando o escopo deste gênero para algo menos fixo.

A escrita de Schwab é incrível. Nunca li nada com tanta velocidade na minha vida. Foram pouco mais de 2 ou 3 dias e eu sinto que poderia ter diminuído ainda mais esse tempo. A narrativa é em terceira pessoa, porém focada no protagonista, Kell. Em alguns momentos lá na metade da narrativa, ela coloca o foco em Lila. E ela consegue impor um ritmo entre os capítulos que o leitor não consegue parar. Todos são muito bem encadeados, deixando ganchos narrativos que nos mantém presos nas linhas. O livro parece ser grande, mas não é. Pelo estilo de escrita posso dizer tranquilamente que é como se o livro tivesse a metade do tamanho.

Uma outra questão muito boa é a maneira como a autora fez o info dumping. Achei uma aula de como empurrar uma série de informações goela abaixo do leitor. Isso porque a construção do mundo não é nem um pouco simples. São muitas informações para serem absorvidas pelo leitor desde as características de cada Londres, o sistema de magia de cada Londres, os poderes políticos que governam, como Kell se relaciona com cada uma e quais os problemas inerentes. E a autora consegue colocar isso tudo de uma forma magistral. A gente nem sente que está recebendo tamanho volume.

"Desenharam-na ainda mais alta e mais magra do que realmente era; esticaram-na em um espectro, vestido de preto e assustador. Algo saído de contos de fadas. E de lendas."

Os personagens são excepcionalmente bem construídos. Os principais são explorados de modo a definir como cada um se caracteriza seja explorando seus objetivos e motivações, seja explorando o seu passado e suas falhas de caráter. Não temos nenhum mocinho virtuoso aqui; mesmo Kell tem seus defeitos como o seu hábito de contrabandear coisas entre as diferentes dimensões. Os antagonistas são realmente antagonistas; representam aspectos da maldade em um mundo que exigiu deles esse comportamento. Lila também é um personagem bem interessante e acredito que junto com Kell tem uma evolução incrível na história. É muito legal ver como a autora trabalhou a personagem de forma a colocá-la como alguém ativa na história, mas sem tirar alguma fragilidade em sua personalidade. Por essa razão eu digo que a personagem é redondinha.

“Se toda magia tinha um preço, o que isso havia custado a Kell?”

Muitos são os temas trabalhados na história. Um deles é o quanto Kell se sente deslocado em um lugar que o abrigou. É compreensível que ele se sinta como uma arma na Londres Vermelha, mas ao compará-lo com a vida levada por Lila, a gente fica pensando por que ele pensa isso. Pelo menos a autora não dá pistas de que o personagem seja mal tratado pela família real. O que existe é que ele tem uma responsabilidade como um dos últimos Antari a ser cumprida. Ele se mete em encrencas ligadas à sua compulsão, muito por conta disso. Aos poucos ele vai percebendo um pouco de como a sua atitude é irresponsável. Mas, mesmo assim, a compulsão é mais forte do que ele. Acho que no fim tudo o que Kell deseja é sair da sombra de Rhy.

Já Lila é um espírito livre presa em uma Londres decadente. A personagem grita por mais espaço o tempo todo em que aparece na história. Ficamos rapidamente conquistados por esse estilo intempestivo dela. Ao mesmo tempo em que ela é impulsiva, é extremamente habilidosa e cautelosa. É a típica gata de rua que conhece todas as manhas possíveis para sobreviver. A maneira como o destino dela e de Kell se cruzam é completamente explosivo. Os dois se completam muito: Kell dá à Lila um passaporte de liberdade e um porto seguro enquanto Lila sacode um pouco o personagem, colocando perspectiva em sua mente. São dois personagens necessários um para o outro para que a autora possa mover a história. Acredito até que ambos sejam instrumentos para balançar a tranquilidade e estabilidade que rege as diferentes Londres.

Um último tema presente no fundo é o da redenção. Por um lado, Kell precisa se redimir pelos erros que ele comete logo no início da trama. Sua inexperiência com relação a si próprio e seu papel no mundo o leva a ser irresponsável. Quando tudo explode, ele faz um voto para si mesmo que ele precisa consertar as bobagens que ele fez. E ele leva esse voto às últimas consequências. Mas, por outro lado temos Holland que quer se redimir de uma outra forma. O Antari da Londres branca é um ser torturado cuja vontade foi tomada por outra maior que ele.

O sistema de magias é altamente complexo. Isso porque a autora construiu condições distintas para que elas funcionem nas diferentes dimensões. Logo, o que temos é a magia normal manipulada por alguns e que tem a ver com os elementos e palavras mágica. E também temos a magia de sangue dos Antari cujo funcionamento difere um pouco e permite uma manipulação maior. Gostei da maneira como a magia é colocada pela autora e tem muito a ver com a influência que ela tem de Neil Gaiman. Para ela, a magia é como algo que existe ao nosso redor como o ar. Só que a autora leva a discussão mais além: Kell enxerga a magia como um poder que precisa ser equilibrado enquanto Holland entende que a magia precisa ser domada como um animal selvagem. E isso é só a ponta do iceberg porque a autora dá dicas de que existe muito mais a ser explorado nos futuros volumes da série.

"Somente os poucos capazes de transitar por entre as diversas Londres precisavam de um modo de diferenciá-las. Então, Kell, inspirado pela cidade perdida conhecida por todos como Londres Preta, designara uma cor para cada capital remanescente. Cinza para a cidade sem magia. Vermelho para o império vigoroso. Branco para o mundo faminto."

Mas, por que eu dei menos corujas em narrativa? Bem, eu senti que faltou explorar um pouco melhor determinadas situações. Como a narrativa é muito veloz e segue o protagonista, algumas cenas foram mal exploradas. Na primeira metade da narrativa a autora consegue construir bem frente e fundo. Mas, à medida em que a narrativa vai se tornando mais complexa, ela acaba tendo pouco tempo para trabalhar algumas situações. Por exemplo, durante a festa de aniversário de Rhy ou até mesmo no começo na Londres cinza. Era possível dar um tom bem mais dramático a essas cenas. Mas, não é algo que vá estragar uma belíssima história.

Com uma escrita espetacular, Schwab cria uma história memorável e o começo de uma trilogia que tem tudo para me surpreender. Já sabia de todo o hype que havia no trabalho dela, mas poder acompanhar de perto é revelador. Os personagens são bem construídos, com uma complexidade que permite ao leitor estabelecer relações com eles. Os temas trabalhados são a sensação de estranhamento, a liberdade para viver sua própria vida e a redenção. O sistema de magias também é incrível, pois cada uma das dimensões criadas para a narrativa revela condições para que as magias funcionem.


Ficha Técnica:

Nome: Um Tom Mais Escuro de Magia Autora: V.E. Schwab Série: Um Tom Mais Escuro de Magia vol. 1 Editora: Record (no Brasil) Gênero: Fantasia Tradutora: Ana Carolina Delmo Número de Páginas: 420 Ano de Lançamento: 2016


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