• Paulo Vinicius

Resenha: "Tropas Estelares" de Robert A. Heinlein

Juan Rico acaba seguindo o seu amigo no registro ao exército. Uma atitude impensada que vai se tornar a carreira de toda uma vida. Vamos acompanhar ao seu lado os pontos altos e os pontos baixos enquanto ele passa pelo treinamento no Acampamento Currie e se vê envolvido em uma guerra espacial contra insetos alienígenas.



Sinopse:


Tropas Estelares apresenta a Terra em um futuro não muito distante, vivendo sob uma federação na qual apenas soldados têm direitos civis. Em meio ao treinamento militar do jovem idealista Johhny Rico, tem início uma guerra contra aracnídeos alienígenas, e ele e seus companheiros soldados são levados à maior batalha de suas vidas, salvando a humanidade e expandindo a exploração do espaço.





"Um período de serviço não é um acampamento infantil; ou é serviço militar de verdade, duro e perigoso, mesmo em tempos de paz... ou uma imitação bem pouco razoável. Não são férias. Não é uma aventura romântica."

Sem dúvida alguma Robert Anson Heinlein é um autor que divide opiniões. E Tropas Estelares é aquela que se situa no topo desta divisão. Uma obra que glorifica o serviço militar e nos coloca em uma espécie de acampamento de treinamento que lembra demais o filme Nascido para Matar. Serviu de defesa para vários movimentos de direita que desejavam mostrar o valor do serviço militar. Se vocês querem traçar um comparativo com a sátira feita por Paul Verhoeven em sua adaptação do título, esqueçam. Livro e filme são diametralmente opostos como o dia e a noite. Ao entrarem nesta resenha coloquem uma coisa na cabeça de vocês: Tropas Estelares é sobre como seria um serviço militar no espaço, com o tipo de abordagem feita nos dias de hoje.


No futuro somente aqueles que prestaram o serviço militar são verdadeiros cidadãos. Somente eles podem escolher seus líderes. E é pensando nisso que dois amigos decidem que a vida civil não serve mais a eles. Desejam poder votar mesmo que precisem ficar um tempo nas forças armadas, mas acima de tudo viver uma vida de honra e glória. Retornar após alguns anos nas forças armadas como heróis e poderem desfrutar de uma vida confortável. Pelo menos é assim que Juan Rico pensa que é o serviço militar. Mas, a realidade é bem diferente. Ao chegar no Acampamento Currie, seus instrutores o transformarão em um homem de armas, inculcando sua filosofia em um "macaco preguiçoso". Rico conhecerá companheiros de armas, verá seus instintos sendo levados ao limite. Só que ele se tornará um membro orgulhoso da Infantaria Móvel. Ou morrerá tentando.


Tendo terminado de ler Tropas Estelares há pouco tempo posso dizer com segurança que não foi um livro que me agradou. A escrita do Heinlein é admirável e é possível entender por que ele é uma lenda dentro da ficção científica da metade do século XX. Com uma narrativa em primeira pessoa, ele nos conta a história de Juan Rico. Conhecemos esse mundo do futuro através da visão de Rico. E até em certos momentos, Heinlein quebra a quarta parede como se Rico estivesse falando diretamente com o leitor. Mesmo que o narrador não seja confiável em alguns momentos, afinal a visão é dele sobre os fatos que se sucedem em sua vida, a narrativa é bem precisa. Durante mais da metade do livro, o elemento de ficção científica é mantido de forma bem sutil, com o leitor percebendo que ela está lá apenas em menções ao tipo de armamento e onde eles estão treinando. A guerra com os insetos que nos acostumamos a ver no filme de Verhoeven só aparece bem depois. Mencionei que esse não é um livro que me agradou justamente por essa abordagem de acampamento militar que ele possui. Diferentemente de Guerra do Velho em que John Scalzi quebra um pouco o clima militar da narrativa com suas tiradas sarcásticas, Tropas Estelares parece aquele senhor de meia idade querendo dar lição de moral e se lembrar dos tempos áureos. E esse pregar o que o Exército significa e como o soldado é importante aparece em pelo menos três ou quatro momentos na história. E não é uma experiência positiva.

"Todo recruta tinha a convicção de que aquilo era pura maldade, sadismo calculado, a alegria perversa de idiotas inconsequentes que gostavam de fazer os outros sofrerem."


Se posso dizer alguma coisa que me agradou foi a maneira como Rico, o protagonista se torna um personagem interessante. No começo ele é um moleque que se alista por causa de um rabo de saia. O serviço militar o transforma em todos os sentidos. Ele vai se dando conta das dificuldades vividas por um soldado e precisa aprender o espírito de corpo na pele. Em vários momentos vemos a sua confiança sendo testada como os primeiros meses, o momento em que um dos seus desacata um oficial ou mesmo as primeiras quedas contra os insetos. São momentos-chave na formação de um soldado que vai ter um futuro dentro das forças armadas. Uma das cenas que demonstram melhor sua evolução é o seu reencontro com o pai tempos após ele ter se envolvido com a Infantaria Móvel. É interessante que este reencontro acontece durante um período transformador de sua carreira.


"Guerra não é violência e matança, pura e simples; a guerra é violência controlada, com um objetivo. O objetivo da guerra é apoiar as decisões do seu governo pela força. Nunca é matar o inimigo apenas por matar... mas sim forçá-lo a fazer o que você quer que ele faça. Não é matança... mas violência controlada e com um objetivo."

Mas, preciso dizer o quanto me incomoda essa glorificação do exército. Ou seja, eu já sei que histórias que se focam mais no aspecto militar, nos movimentos e nas guerras não é algo para mim. Não é algo que segure a minha atenção por muito tempo. Isso porque todo o treinamento militar, as surras, a mudança de perspectiva, tudo isso é romantizado. Parece que tudo faz parte de um momento de passagem, como se fosse uma narrativa de amadurecimento. Quando não há questionamentos; o soldado aceita ou volta à sua vida civil. Os personagens questionadores acabam ficando para trás, seja em baixas desonrosas ou ficando apenas em segundo plano. O valor do homem está em o quanto ele consegue aguentar o treinamento, respeitar seu superior e seguir as ordens à risca. Entendo toda a questão da hierarquia militar, mas esse paradigma é utópico demais. Sabemos que não é assim que os seres humanos funcionam. Por melhor que seja a hierarquia militar, sempre existem os bons, os maus e os feios, fazendo um trocadilho com o filme de faroeste.


Pior, somos colocados diante de uma sociedade de extrema direita. A população não vota, somente ex-militares. E um dos personagens fala por que isso se dá. No fundo é a valorização do trabalho e do esforço acima de todas as coisas. E esse mérito só está presente naqueles que fazem o serviço militar. É uma visão tão conservadora que o autor não se exime de fazer críticas ao assistencialismo social. Um dos instrutores de Rico coloca a culpa de uma juventude desviada na falta de punições físicas severas. Segundo ele, crianças devem ser punidas para entenderem a importância dos valores da sociedade. Mais do que ter direitos, a sociedade de Tropas Estelares tem deveres. E são eles que importam de verdade.



Okay, mas e a guerra contra os insetos? Bem, ela acontece no terço final do livro. Analisando depois com calma, me pareceu que Heinlein coloca em confronto dois mundos opostos: a extrema organização e hierarquia das forças armadas contra uma sociedade baseada na comunhão de corpos e mentes. A sociedade dos insetos pode ser entendida como uma metáfora para o comunismo. Temos os operários, os guerreiros, os cérebros e a rainha. Dentro desse arranjo social não existe uma preocupação com o espírito de corpo. Os milhares de insetos que ocupam buracos no subterrâneo não são páreo para as armas flamejantes da I.M. Pode parecer uma forçação de barra, mas os elementos estão ali presentes em pequenos detalhes.


"O Homem não tem instinto moral. Ele não nasce com um senso de moral. Você não nasceu com um, nem eu nasci... e um cachorrinho não tem nenhum. Nós adquirimos um senso moral, quando o fazemos, por meio de treinamento, experiência e trabalho duro da mente."

O momento de mais ação que temos no livro acontece no penúltimo capítulo. Achei interessante as movimentações das tropas e os momentos tensos vividos pelos personagens. Mas, sabe quando se trata de um momento para um livro inteiro que não me agradou completamente. Essa foi a impressão que ficou. Passamos por trezentas páginas de uma filosofia que não é a minha e que eu não concordo para alguns momentos de tiroteio. Que até são legais, mas eu já tinha tido o meu interesse perdido lá atrás no Acampamento Currie. Pensar que o Heinlein de Tropas Estelares é o mesmo Heinlein de Um Estranho em uma Terra Estranha chega a ser bizarro. Mas, é isso mesmo. Se eu recomendo a leitura? Claro. Heinlein precisa ser lido. Acho que ele precisa ser lido para ser discutido. Principalmente em uma sociedade que anseia ser como a sociedade do livro.











Ficha Técnica:


Nome: Tropas Estelares

Autor: Robert A. Heinlein

Editora: Aleph

Tradutor: Carlos Ângelo

Número de Páginas: 368

Ano de Publicação: 2015


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