• Paulo Vinicius

Resenha: "Trail of Lightning" (The Sixth World vol. 1) de Rebecca Roanhorse

Em um mundo devastado pelas Grandes Águas, apenas um espaço que antes era uma reserva indígena restou. Deuses antigos reviveram e poderosos clãs se espalham pela reserva Diné. Maggie Hoskie é uma caçadora de monstros: dedicada a matar criaturas que surgiram após a catástrofe, ela treinou seus poderes de clã por anos com o poderoso guerreiro Neizgháni. Mas, um dia, ele a abandonou sem explicação. E ela agora tenta dar um sentido à sua vida.



Sinopse: Maggie Hoskie é uma caçadora de monstros Dinétah, uma assassina com dons sobrenaturais. Quando uma pequena cidade precisa de ajuda para encontrar uma garota desaparecida, Maggie é sua última e melhor alternativa. Mas, o que Maggie descobre sobre o monstro é algo muito mais aterrador do que qualquer coisa que ela poderia imaginar.


Relutantemente, Maggie pede a ajuda de Kai Arviso, um homem da medicina não convencional e juntos eles irão viajar pela reserva, descobrindo pistas a partir de lendas antigas, trocando favores com trapaceiros e lutando contra magia negra em um mundo de tecnologia deteriorada.


Quando Maggie descobrir a verdade sobre os assassinatos, ela terá que confrontar o seu passado se ela quiser sobreviver.


Sejam bem vindos ao Sexto Mundo.




O ato de sofrer uma traição é algo que fica marcado em nosso ser por muito, muito tempo. Algumas vezes ficamos traumatizados pelo resto da vida. É uma quebra de confiança, algo que dói no mais íntimo do nosso ser. Essa traição não precisa ser necessariamente um adultério: pode ser alguém que passa por cima do seu negócio, um segredo revelado, algo que a pessoa traída não gostaria que fosse conhecida. Inúmeras coisas podem servir como gatilhos para esse sentimento. Maggie Hoskie é alguém que teve sua confiança abalada por aquele a quem ela deu sua confiança e seu coração. E ela vai tentar buscar ao longo da história a capacidade de confiar nas pessoas.


Traições, traições, traições


Quando começamos nossa leitura podemos ver o quanto Maggie é uma mulher completamente bagunçada. Os seus sentimentos estão em conflito e o seu lado irascível é provocado por essa incapacidade de se relacionar com outros seres humanos. O tempo em que ela espera Neizghani retornar é o tempo em que sua ferida supura e infecciona. Com o coração em pedaços ela acaba aceitando uma missão após meses quieta em seu trailer, e acaba por encontrar uma criatura que se alimenta das cordas vocais das pessoas. Mesmo conseguindo concretizar sua missão muito bem, ela acaba precisando tomar uma decisão difícil que afeta ainda mais os seus sentimentos já abalados. Mas, a pergunta que fica é: de onde tal criatura saiu? Mesmo com todo o seu treinamento ao lado do guerreiro lendário, ela nunca viu nada semelhante. Ao buscar ajuda de Tah, um homem da medicina que vive em Tse Bonito. Talvez Tah seja a única pessoa a entender como funcionam os sentimentos conflituosos de Maggie. Ele aconselha nossa teimosa personagem a se unir a seu neto Kai Arviso, um homem que possui um vasto conhecimento sobre cura e magias antigas. Mas, como confiar novamente? E se ela for novamente vítima de uma traição?


A relação entre Maggie e Kai é explorada ao longo de toda a narrativa. Enquanto Kai é uma pessoa mais relaxada e vivendo o momento, Maggie é uma mulher endurecida pela vida. Ambos são estranhos um para o outro e o fato de os dois esconderem segredos acaba complicando seu relacionamento. Maggie possui poderes incríveis de seu clã, mas para utilizar sua habilidade, ela acaba entrando em um modo de fúria assassina que não entende a separação entre amigos e inimigos. Já Kai possui um jeito malandro de usar as palavras e convencê-los de que ele é um aliado. E seus poderes como aprendiz de homem da medicina ajuda Maggie com possíveis curas em momentos complicados. Mas, ainda assim, algo mais mantém os dois à distância. A presença de Ma'ii, o Coyote, torna as coisas ainda mais confusas. O avatar da trapaça possui algum tipo de plano para Maggie. E por ele ser uma criatura caótica nunca sabemos quando ele é um adversário ou quando ele é um aliado. Seus esquemas colocam vidas em risco. Fora que ele tem algum tipo de rixa com Neizghani que Maggie não sabe definir. No meio disso tudo estão as criaturas que Maggie encontrou durante uma de suas missões: quem as criou e quem as está comandando.



Direto e divertido


A escrita de Rebecca Roanhorse é direto ao ponto. Sem enrolações e com capítulos curtos intercalados. A narrativa é feita em primeira pessoa do ponto de vista de Maggie. Logo, ela é uma narradora completamente não confiável por conta de suas interpretações extremas sobre as coisas. Imaginem uma pessoa desconfiada de tudo e de todos te descrevendo o funcionamento de uma cidade? Certamente não será algo positivo. E Rebecca consegue transmitir muito bem a fúria de nossa protagonista. Posso montar duas comparações básica. A primeira é que sua escrita lembra muito a do Jim Butcher na série Dresden Files. Ela não faz um info dumping muito profundo, preferindo entregar informações pouco a pouco. Talvez isto seja até um calcanhar de aquiles na narrativa porque muita coisa fica sem ser dita. Entendo a necessidade de ganchos para futuros livros, mas certas coisas não precisam ser deixadas no ar. É possível entregar algo ao leitor sem prejudicar as surpresas da história. Mas, eu preciso dizer o quanto a leitura é fácil. São duzentas e oitenta páginas que o leitor consegue ler em dois ou três dias se se dedicar o bastante. E o leitor compreende o mundo de forma muito fácil e natural.


Minha segunda comparação é de Maggie com Furiosa, a icônica protagonista de Mad Max: Estrada da Fúria. Uma mulher forte e decidida, mas que carrega muita bagagem. Quem imagina uma personagem devastadora e que passa como um trator por seus inimigos, está enganado. Nossa personagem ainda está em forma de aprendizado sobre como lidar com os seus poderes. Apesar de ser uma guerreira muito eficiente, ela não tem vida fácil na história. Logo entendemos que outro objetivo da narrativa é mostrar a Maggie que ela não consegue nada fazendo as coisas por si só. Ela mesma vai percebendo a necessidade de formar um grupo de aliados. Mas, ao mesmo tempo, esse grupo de aliados vai lhe dar um ponto fraco a partir do momento em que ela precisa abrir o seu coração para deixá-los entrar.


O mundo é muito rico em detalhes e é possível perceber que Rebecca está apenas começando sua jornada nos levando a esse lugar selvagem e repleto de mistérios. Imaginar que a narrativa se passa em apenas três lugares e tem todo um grande mundo a ser explorado é uma imagem ilustrativa de o quanto a construção de mundo feita pela autora tem a nos entregar. Os personagens de apoio ainda podem servir para outras narrativas e é possível perceber que a autora deseja criar bases sólidas para o seu universo. A ideia dos poderes clânicos ainda precisa ser mais explorada, porque para mim não deu para entender seu funcionamento, como o personagem aciona, as limitações. Ou se simplesmente vai ser um elemento mágico funcionando vez ou outra. Tudo isso necessita de explicação.


Trail of Lightning é um excelente romance de estreia, mostra que a autora tem um tino muito bom para narrativas. O fato de ela empregar a cultura indígena americana como mote para sua história dá toda uma apimentada a tudo. Eu gostei da personagem, mas acho que algumas coisas precisavam ser mais explicadas para que a gente possa acompanhar tudo de perto. Quem busca uma ambientação diferente, repleto de ação, dê uma oportunidade a ele.




Ficha Técnica:


Nome: Trail of Lightning

Autora: Rebecca Roanhorse

Série: The Sixth World vol. 1

Editora: Saga Press

Gênero: Ficção Científica/Fantasia

Número de Páginas: 304

Ano de Publicação: 2018


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