• Diego Araujo

Resenha: "Tolos e Mortais" de Bernard Cornwell

Em Tolos e Mortais vemos outra ficção histórica elaborada por Bernard Cornwell, só que em vez de focar numa batalha épica, é a vez de explorar a ascensão da peça teatral na Inglaterra.


Sinopse:


No coração da Inglaterra elisabetana, o jovem e atraente Richard Shakespeare sonha em fazer carreira na cena teatral de Londres, um universo dominado por seu irmão mais velho, o ilustre dramaturgo William Shakespeare. Mas Richard não tem um tostão nem apoio de seu irmão, que, em vez de o acolher, entrega-o aos cuidados de Sir. Godfrey, um clérigo cruel e pervertido que treina meninos para furtar e encenar. Com um rostinho bonito, carisma e talento, Richard ingressa na companhia de teatro de Shakespeare, representando, muito a contragosto, papéis femininos. A relação dos irmãos, no entanto, é marcada por constante tensão, e, cada vez mais distantes, à medida que William alcança a fama, Richard se vê tentado a romper em definitivo a lealdade fraternal. Então, quando um precioso manuscrito desaparece misteriosamente, as suspeitas recaem, evidentemente, sobre o caçula. Preso em um perigoso esquema de traição e desonestidade, Richard, sem saída, com sua carreira e até mesmo a vida de seus colegas em jogo, embarca em uma aventura épica na excitante ― porém traiçoeira ― Londres elisabetana para resgatar os valiosos escritos e reconquistar a confiança da trupe.






Era o fim do século XVI e o início da era de ouro das encenações. Os primeiros teatros já estavam construídos, e alguns sobreviveram às dificuldades econômicas desde a sua instalação, apesar dos puritanos predominantes na Inglaterra fazerem de tudo para prejudicar esta arte considerada obscena por eles. Entre os inúmeros motivos, era porque na época só homens atuavam, mesmo quando faziam papéis de personagens femininas. Apesar disso os teatros conquistaram o público e os membros da realeza. Isso se deu graças às peças escritas por dramaturgos como William Shakespeare. Mas esta história trata do irmão dele. Tolos e Mortais conta a trama do fictício Richard Shakespeare tentando superar a sombra do irmão. Escrito por Bernard Cornwell em 2017, a editora Record publica em 2018 sob a tradução de José Roberto O’Shea.


“Somos meros atores e estamos abaixo do público palaciano assim como os demônios do inferno estão abaixo dos anjos do céu.”

Richard Shakespeare quer atuar no teatro e ser famoso assim como o irmão, que nunca lhe deu o apoio esperado. Nas peças de sua companhia, Richard pegava apenas papéis de personagens femininos, por causa da idade jovem e por consequência possuir pele macia e voz fina. Porém ele já está na idade de ter pelos nos rostos e a voz engrossava aos poucos, por isso sente ser a hora de atuar em um personagem masculino, algo que William Shakespeare discorda pelo bem da qualidade de suas peças. Esta não é a única crise de Richard, pois lhe falta dinheiro para pagar pela pensão onde mora, e os xelins ganhos pelas atuações nesses papéis são insuficientes. Em pouco tempo ele não receberia mais nada por não haver peças durante o inverno. Nisso surge a “oportunidade”, entre aspas porque Richard recebe um ultimato: ou ele escolhe desapontar o irmão, ou arrisca a própria vida.


“— Promessas em teatros são como beijos no festival da primavera.”

Bernard Cornwell leva os leitores a outro passado histórico, desta vez num contexto diferente. Nada de guerras eminentes ou batalhas épicas entre exércitos decidindo o futuro da Inglaterra. O foco desta história está na ascensão do teatro na Inglaterra, e nem por isso deixa de ter as conhecidas cenas de batalhas do autor. Bernard seleciona o conflito dos puritanos e arranja elementos históricos para incentivar duelos em que os personagens atores participam. O autor justifica através do enredo sobre como o público gostava de uma boa cena de ação, e os atores buscavam convencer o público usando técnicas reais de esgrima, por isso aprendiam a se defender também. Outras capacidades dos atores também são aproveitadas ao resolver ou causar os conflitos no enredo da maneira que os leitores reconhecem nas tramas de Cornwell.


Centrado no personagem, o enredo demora a avançar e demonstrar o conflito de Richard ao dar sua escolha, podendo desanimar a quem não se cativar pela ambientação tão bem explorada pelo autor, e também dificultando em esclarecer qual seria o objetivo desta história. O fim — caso considere qualquer menção sobre esta parte como SPOILER, pule o resto deste parágrafo — ainda trata do teatro, e aqui Bernard consegue transformar seu romance numa peça teatral de perspectiva peculiar, de o protagonista atuar e ao mesmo tempo vislumbrar a apresentação, destacando o valor do teatro a ponto do que todo o ocorrido nos capítulos anteriores parecer ser apenas questões de bastidores, mas cruciais, pois só foi possível dar este efeito no teatro depois de saber todo o ocorrido para que aquele momento acontecesse.


Tolos e Mortais é uma escolha ousada do autor em escrever uma história em uma ambientação diferente e adaptá-la ao seu estilo narrativo. Em vez de trazer as batalhas diante do leitor com o protagonista no meio do campo, usa a mesma estratégia e leva o leitor teatro adentro. Quem não se incomodar com o enfoque teatral e a vida particular do protagonista, conseguirá mergulhar ainda mais nas aventuras de Richard e sentir parte do prazer e da importância das peças.


“Sei cantar, dançar, falar, lutar, furtar mentir e fingir. Sou um ator.”










Ficha Técnica:


Nome: Tolos e Mortais

Autor: Bernard Cornwell

Editora: Record

Tradutor: José Roberto O'Shea

Número de Páginas: 364

Ano de Publicação: 2018


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