• Paulo Vinicius

Resenha: "The Winds of Khalakovo" (The Lays of Anuskaya vol. 1) de Bradley P. Beaulieu

Em uma ambientação exótica repleta de navios que velejam no ar e espíritos elementais que habitam um outro plano, Bradley Beaulieu escreve uma história sobre vidas passadas e presentes.



Sinopse: Entre mares inóspitos e revoltos está Khalakovo, um arquipélago montanhoso de sete ilhas, com sua torre proeminente se esticando por milhares de metros em direção ao céu. Recebendo bens, produtos e dignitários de navios aéreos, a torre de Khalakovo está no entrocamento do comércio mundial. Mas, nada está bem em Khalakovo. Conflitos surgiram entre os Terrestres governantes, os nativos Aramahn e os fanáticos Maharraht, e uma doença degenerativa se tornou epidêmica na última década. Agora, Khalakovo será anfitriã para a reunião dos Nove Ducados, um encontro que pode pesar sobre o futuro de Khalakovo.


Quando um espírito elemental ataca a nave aérea que estava chegando ao evento, matando o Grão Duque e sua corte, o Príncipe Nikandr, herdeiro do cetro de Khalakovo, é encarregada de encontrar a criança prodígio que acredita-se estar por trás da invocação. Entretanto, Nikandr descobre que o garoto é um gênio autista que pode estar de posse da chave para acabar com a praga que se abateu sobre as ilhas. Podem os Duques, sedentos de vingança, serem mantidos longe? Pode Khalakovo ser salva? A resposta recai sobre os Ventos de Khalakovo...



Antes de começar só queria fazer um disclaimer e um mea culpa. E serve até como dica para aqueles que como eu, fazem resenhas de livros. Não interrompa a leitura de um livro para ler outro. Ou se for fazer, programe a interrupção de modo a não afetar sua leitura. A minha leitura desse livro foi extremamente prejudicada pelas várias paradas que eu tive que fazer para cumprir outras tarefas do blog. Acabei não conseguindo ser absorvido pelo fascinante universo literário construído pelo autor. Isso é algo que me frustrou demais e pode afetar um pouco a minha resenha.

O livro se passa em Anuskaya, mais precisamente em um arquipélago de ilhas que formam os reinos que controlam a população. Várias famílias formam os ducados que governam essas ilhas, como os Bolgravya (do qual o Arquiduque, o chefe máximo faz parte), os Khalakovo (nossos protagonistas) e os Vostroma. A aliança entre essas várias famílias é bem tênue e quando acontece uma tragédia essa aliança vai chegar ao fim provocando uma guerra entre as várias famílias que colocarão amigos e aliados em choque uns com os outros. No meio disso tudo se encontram Nikandr e Nasim. Nikandr é o herdeiro da casa dos Khalakovo e foi prometido à primogênita dos Vostroma, Atiana Radieva. Mas, Nikandr sofre de uma doença mortal que não se sabe ao certo de onde veio e como pode ser curada. Essa doença vai degenerando o corpo e o espírito aos poucos. Nosso personagem tenta a todo custo encontrar a cura, não apenas para si, mas para sua irmã Victania. Ao mesmo tempo ele precisa agradar ao pai e aceitar o casamento com uma mulher difícil como Atiana. Pior ainda: Nikandr é apaixonado por uma prostituta da etnia aramahn chamada Rehada. Ela lhe fez companhia por vários anos e conseguiu um lugar em seu coração. Os aramahn são uma etnia formada por nômades do deserto que se tornaram essenciais para as famílias porque aprenderam a controlar o poder de espíritos elementais. Graças a esses espíritos a comunicação entre as ilhas é facilitada: navios voam, homens podem controlar o fogo e a água. Entre os aramahn existe uma facção chamada de Maharraht formada por fanáticos que desejam destruir tudo e reconstruir as ilhas de acordo com os desejos dos aramahn. Segundo essa facção, o uso dos espíritos está abrindo uma fenda entre o mundo espiritual (Adhiya) e o mundo material (Erahm). E Rehada parece ter uma ligação com o líder dos Maharraht, Soroush. Já Nasim é um menino com estranhos poderes e premonições que se ligará intrinsecamente à vida de Nikandr. Quem é Nasim? Qual a sua relação com sua doença?

Bradley Beaulieu foi extremamente criativo ao construir a ambientação onde se passa a história. Parece até que alguém pegou coisas absurdas, jogou em um saquinho e mandou ele escolher. Daí saiu: ambientação russa, povos árabes, arquipélago. O leitor pode sentir aquele estilo russo ao entrar na corte dos Khalakovo. As caçadas, a dureza da vida, o jeito rude dos homens e a sensualidade sutil das mulheres. Logo a seguir somos levados para uma vila onde vivem pessoas com um estilo semelhante ao árabe: muito religiosos, cooperativos e mortais quando necessário. Aliado a um código de honra extremamente rigoroso. As ilhas são bem separadas umas das outras e as viagens entre elas podem levar vários capítulos. O que eu posso afirmar com certeza é que eu gostei muito desse mundo exótico criado pelo autor. Quando li Twelve Kings of Sharakhai já percebi que ele tem um dedo bom para construir universos fora do padrão. Estou um pouco cansado com aquela mesmice dos mundos a la Tolkien. Eu logo pego um livro como esse aqui e me divirto com as desconstruções que o autor faz. Minha crítica vai ao fato de que o autor não precisava ter deixado o leitor perceber suas influências. Ele poderia ter pego uma ambientação russa e alterado uma série de elementos que deixaria a identificação praticamente impossível. Até porque os leitores de fantasia não estão acostumados com algo assim.


A narrativa é construída em terceira pessoa a partir de Pontos de Vista (POVs). Nikandr representa o guião principal da história. É a partir de suas decisões que o conflito com os Vostroma e os Bolgravya vão acontecer e é quando ele irá tentar fechar a fenda. É a parte mais interessante da história e que revela bastante coisa sobre a mitologia do mundo. Também é aquela que possui um foco maior com um número maior de páginas. Atiana vai nos conduzir pela corte de Vostroma e nos mostrar as intrigas políticas e as alianças a serem formadas. Tinha tudo para ser uma parte interessante da história, mas acabou não sendo. Achei que o autor deixou um pouco a desejar nos trechos da Atiana. Já Rehada vai nos levar em direção ao mundo dos aramahn. Através dela poderemos ver como os espíritos interferem no mundo material. E principalmente: que segredos eles escondem. De certa forma, os trechos da Rehada eram para dar suporte à história contada por Nikandr. Mas, a personagem ganhou protagonismo, na minha opinião. Com um caráter forte e uma vida sofrida, a personagem caminha uma jornada em busca de redenção. Somente quando ela é capaz de perdoar é que sua vida vai mudar para a melhor e ela poderá se livrar de seus grilhões. Achei que o autor tratou os três POVs de maneira muito desigual. Isso é inevitável nessa mecânica, mas quanto menos o autor for capaz de reduzir essa impressão, melhor para o conteúdo geral da história.

Falei que Rehada busca a redenção. E esse é um dos temas mais explorados na história. Nikandr também busca a redenção, mas de uma maneira diferente. Ele quer ser capaz de curar a doença de sua irmã. No início da história ele parece um pouco ingênuo e tolo, mas o seu desenvolvimento é claro ao longo da história. Ele vai percebendo juntamente com Nasim que sua missão é muito mais do que buscar uma cura, mas consertar um erro cometido há gerações passadas. E aí eu toco em um segundo tema da história: a reencarnação. No universo criado por Beaulieu, quando as pessoas morrem, elas retornam em outros corpos, apesar de não manterem as memórias passadas. Isso vai ser fundamental para a história, porque a doença que se espalha por Anuskaya somado ao aparecimento de espíritos elementais cada vez mais ferozes se relaciona com acontecimentos que remontam há muito tempo atrás. Somente quando tudo for acertado é que o mundo poderá seguir adiante. Mas, a questão é: o que significa seguir adiante? Acho que o autor poderia ter aprofundado um pouco mais a mitologia por trás da reencarnação, mas, sendo o livro uma trilogia, acho que isso ainda não acabou de todo.

A história por trás da relação entre Nikandr e Nasim ainda deixou muitas lacunas e acredito que o autor deva retornar ao tema nos próximos volumes. Mas, achei fascinante como Beaulieu fez com que o leitor mantivesse o interesse na história ao não revelar tudo de uma vez só. Na minha opinião esse foi o núcleo mais trabalhado na história. Senti que o autor queria que Ashan funcionasse como uma espécie de mentor espiritual para Nikandr. Em algumas partes ele até funcionou dessa maneira, mas em vários momentos senti que o autor não sabia o que fazer com o personagem. Os momentos-chave na ilha de Ghayavand foram extremamente importantes para a maturidade de Nikandr. Percebi que o personagem realizou que ele tinha responsabilidades maiores com o seu reino do que com ele mesmo.

Ficamos com um gosto amargo na boca ao final da história, mas creio que o objetivo principal foi concluído: nos apresentar um mundo bem exótico com personagens interessantes envolvidos em uma aventura mística com ramificações apavorantes. O sistema de magias é bem interessante, mas acho que o autor ficou a dever ainda no trecho da exploração das rivalidades de corte. Ali tinha pano para muitas histórias interessantes.




Ficha Técnica:


Nome: The Winds of Khalakovo

Autor: Bradley P. Beaulieu

Série: The Lays of Anuskaya vol. 1

Editora: Night Shade Books

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 354

Ano de Publicação: 2011


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