• Paulo Vinicius

Resenha: "The Wicked + The Divine vol. 3 - Suicídio Comercial" de Kieron Gillen e outros

Atualizado: 3 de Jul de 2019

Um volume de vanguarda em que diversos desenhistas se debruçam para criar uma obra única no universo imaginado por Kieron Gillen. Uma verdadeira ode à pós-modernidade.

ATENÇÃO: TEM SPOILERS DE VOLUMES ANTERIORES!

Sinopse:


O TERCEIRO VOLUME da SÉRIE INDICADA AO EISNER e BEST-SELLER DO THE NEW YORK TIMES Ser imortal não significa viver para sempre a cada 90 anos, aproximadamente, doze deuses reencarnam no corpo de jovens adultos. Eles são carismáticos, perspicazes e atraem grandes multidões. São capazes de levar qualquer um ao êxtase. Há rumores de que podem realizar milagres. Eles salvam vidas, seja metafórica ou concretamente. Eles são amados. Eles são odiados. Eles são incríveis. E em menos de dois anos estarão todos mortos. Isso já aconteceu uma vez. E vai acontecer de novo Assim se constrói “The Wicked + The Divine”, uma fascinante alegoria para os jovens de hoje sobre a glória efêmera erigida como valor supremo na sociedade moderna.




ATENÇÃO: TEM SPOILERS DE VOLUMES ANTERIORES

Nos últimos tempos, vários roteiristas de quadrinhos vem tentado inovar suas obras. Seja com um estilo de traço diferente, uma forma inovadora de contar histórias ou qualquer outro artifício que faça com que a história saia do lugar comum. Esse é o mote desse terceiro volume de The Wicked + The Divine. São cinco edições contidas neste volume cada uma desenhada por um artista diferente e tendo como foco um personagem específico. O roteiro ficou genial, mas como estamos falando de cinco artistas diferentes, logicamente que nem todos ficaram à altura do volume.

Neste volume estamos lidando com as mortes de Inanna e Persephone. O primeiro era uma pessoa muito querida dentro do Panteão devido à sua postura sempre carinhosa com os outros deuses. Alguns deuses como Baal querem encontrar os culpados rapidamente; outros como Woden escondem as suas cartas e percebemos como existe muito a ser contado a respeito até mesmo da morte de Lúcifer no primeiro volume; e alguns outros continuam com a sua vida, como Sakhmet. A verdade é que nada será igual como antes. E a caçada por Baphomet vai acabar fazendo da Morrigan a maior vítima. Também teremos mais uma morte que ninguém estava esperando. E as manipulações de Ananke estão chegando em um ponto sem volta.

Aqui temos cinco artistas diferentes neste volume. Cada um com seu estilo, seu traço e sua forma de encarar a história de maneira diferente. Kate Brown é responsável pela edição de número doze. Sua história vai se focar em Baal e em como ele vai encarar a morte do amigo. É o capítulo mais pesado do volume, mas ao mesmo tempo eu achei o mais fraco no quesito desenho. Pode até ser diferenciado e ter agradado a outros leitores, mas a mim pareceu claro e cartunesco demais. Eu entendo que a artista quis dar uma expressividade maior aos personagens, mas ficou exagerado. Não gostei nem um pouco da escolha de cores.

Já o roteiro é excepcional. Gillen escolheu chocar um pouco os leitores nesse volume. Baal persegue a Morrigan em busca do paradeiro de Baphomet. A cena da luta entre ambos é extremamente violenta. Eu fiquei até desconcertado com a situação quando Baal soca repetidamente o rosto da Morrigan. Muito forte a cena e o personagem sofre com muita censura da parte dos demais deuses. Não sei se foi proposital ou apenas um acidente de roteiro, mas caraca... Não tem como não pensar na dor da traição e da violência sentida pela personagem. Nesse volume a Morrigan, sem dúvida nenhuma, é levada a vários momentos de dor. O abandono de Baphomet, a violência física de Baal, a compaixão e pena de Minerva e a indiferença de outros deuses. Eu torço para que haja algum objetivo por trás disso porque violência pela violência, os quadros foram revoltantes.

Tula Lotay pegou o capítulo centrado na figura de Tara. É uma das deusas que ainda não haviam aparecido na história. Mais um capítulo muito forte, dessa vez emocionalmente falando. A escolha de cores da desenhista foi ótima. Mas, entendo que o trabalho da Tula precisa ser bem específico, não podendo compor um volume inteiro. Digo isso porque me pareceu que o desenho dela é completamente pintado. Gillen dá algumas pistas disso na parte de Extras dessa edição onde ele explica como foi o processo de composição das cenas e a escolha de cores da artistas. Ela desenhou e coloriu esta edição. Ao mesmo tempo em que as cenas são bonitas, elas são melancólicas ao mesmo tempo. O momento em que Tara está conversando com Ananke é lindo em um sentido triste da palavra. Uma cena quase solitária com a luz de fora entrando através das janelas e batendo na silhueta de Tara. E o leitor espera mais ou menos o que vai acontecer a seguir.

Outro capítulo muito forte. Não entendi exatamente o poder de Tara. Pelo que eu percebi, assim como Amaterasu ela possui algum poder de influenciar as mentes. Mas, Tara é objetificada como um símbolo sexual. Um tema muito interessante tratado pelo autor: a objetificação da mulher. Em nenhum momento, ninguém se preocupa em saber o que a personagem pensa; o tempo todo as cenas tem cunho sexual e os comentários sempre agressivos. A splash page com os comentários no Twitter mostra um pouco do que é o assédio via redes sociais. A personagem é julgada pela forma como se veste ou como se apresenta. É possível transportar isso para a realidade aqui no Brasil onde uma mulher é "estuprável" apenas porque se veste de uma maneira como a dita "sociedade" deseja ou se porta da maneira como se quer. Tara é julgada dessa forma e não entende o motivo pelo qual isso se dá. Até acho que o autor deveria ter explorado mais a personagem. Daria excelentes debates.

Jamie McKelvie ficou com o capítulo dedicado a Woden. McKelvie é o desenhista da série então estamos acostumados com a sua maneira de representar os personagens. Porém, o desenhista decidiu ousar um pouco não apenas na coloração, como no posicionamento dos quadros e até na forma como observamos o mundo através dos olhos de Woden. As cenas com a fantasia sexual de Woden com Lúcifer e Amaterasu são nojentas; e ficaram ótimas porque é a maneira que eu imagino que o desenhista gostaria que entendêssemos. Ele se arriscou um pouco e produziu algo de excelente qualidade.


Mais um capítulo que é de dar o que falar. Woden é um personagem abjeto. Aqui Gillen escolheu apresentar os eventos anteriores sob a ótica desse personagem. Pudemos descobrir um pouco do que se passa nos bastidores, como o fato de Woden ter montado a sala de reuniões do panteão e o de ele estar envolvido direta ou indiretamente em alguns eventos. Odin é um pervertido inconsequente e egoísta. Se foi essa a característica que Gillen queria apresentar ao personagem, ele conseguiu com louvor. Apesar de que vale a pena ver o diálogo entre ele e Cassandra antes de sua transformação. Dessa forma entendemos um pouco a maneira como ele entende o mundo. E isso me faz pensar: quem é realmente Woden? Seria ele homem ou mulher? Não ficaria surpreso se o autor decidisse surpreender a todos.

Stephanie Hans ajuda a construir uma narrativa linda com os seus visuais estonteantes de Amaterasu. Ela dá brilho à personagem. A escolha por uma palheta de cores amarela e laranja é incrível. A melhor cena que eu vi nesse capítulo foi a explosão de luz de Amaterasu acima da cidade de Hiroshima. Uma ironia fenomenal apontada por Cassandra. Eu adorei os painéis que se passam dentro de um templo xintoísta e achei o capítulo todo respirando vivacidade.

O autor procurou desconstruir um pouco nossa imagem sobre a personagem. Amaterasu sempre parecia meio avulsa e jogada dentro daquele grupo de seres com problemas de ego. Aqui ele deu personalidade à personagem. Vemos que assim como Minerva, Hazel é apenas uma menina bondosa e assustada com sua súbita transformação em uma deusa solar. Ela manteve um pouco de sua ingenuidade infantil o que a tornou essa personalidade tão peculiar em relação a pessoas como Woden, que são explícitos em sua forma de agir. Gostei de Gillen ter pareado Hazel com Cassandra porque, de um lado temos uma menina doce e gentil e do outro temos uma mulher cética e analítica. São personalidades que se complementam. Ainda acho que a personagem tem muito ainda a crescer.

Leila del Luca deu um tom sombrio ao capítulo centrado no romance entre Baphomet e a Morrigan. O escuro é central neste capítulo. A cena que mais me chamou a atenção foi a do encontro de Marian com Ananke e de seu despertar como a Morrigan. A artista consegue nos passar bem a imagem de uma mulher que ama e não é correspondida. Os olhos e os gestos são muito bem aproveitados ao longo do capítulo. Acredito até que mesmo o desenho não sendo tão bom quanto a da Tula Lotay ou a do Jamie McKelvie, Leila dá personalidade aos personagens. A interpretação da fisionomia ficou excelente, mas eu não gostei muito da composição dos personagens.


Já Brandon Graham usou o seu estilo cartunesco para compor o capítulo. Por ser um artista de uma natureza diferente dos demais, isso poderia não ter dado muito certo. Mas, ter sido colocado para representar Sakhmet foi muito bom. O seu traço combinou com a personalidade da personagem. Tanto os visuais à luz do luar como as ações impulsivas da personagem ficaram muito bem representados nos quadros. E aquele final com Sakhmet deitada ficou excelente. Lembrou realmente uma tirinha de jornal. Adorei.

Nesse último capítulo, Gillen explora a violência indiscriminada de Sakhmet. Suas origens ainda são meio obscuras, mas podemos entender que a natureza da personagem é não se importar com nada além de si mesma. Todas as suas emoções são extremas. Por ser a deusa da morte e da guerra, Sakhmet acaba não se importando com o que os outros pensam dela e está satisfeita com isso. Uma irresponsabilidade racional contida apenas pela bebida que a mantém sob controle.

Enfim, esse é um capítulo recheado de informações e ideias. Acho até que não explorei todas elas com o devido cuidado, mas é que se eu continuasse a postagem ficaria longa demais. Só não é o melhor volume por conta desse experimento com múltiplos artistas que em alguns momentos deu certo enquanto em outros não.


Ficha Técnica:

Nome: The Wicked + The Divine vol. 3: Suicídio Comercial Autor: Kieron Gillen Desenhistas: Jamie McKelvie, Matthew Wilson, Clayton Cowles, Kate Brown, Tula Lotay, Stephanie Hans, Leila Del Luca, Mat Lopes, Brandon Graham Editora: Geektopia Gênero: Fantasia Número de Páginas: 192 Ano de Publicação: 2016


Outros Volumes:

Volume 1

Volume 2

Volume 4

Volume 5

Volume 6

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