• Paulo Vinicius

Resenha: "Terror depois da ceia" de Jerome K. Jerome

Em uma narrativa que mistura o mórbido com o divertido, temos um grupo de indivíduos que se reúnem na véspera de Natal para contar histórias de fantasmas.


Sinopse:


Publicado na época em que histórias de fantasmas tinham lugar garantido à mesa nas festas de fim de ano, Terror Depois da Ceia nos transporta para o Natal da Era Vitoriana. As famílias se reuniam para contar histórias de fantasmas diante da lareira e estreitavam os laços entre o real e o imaginário. Embora tenham elementos sobrenaturais, os contos cômicos foram idealizados por um dos maiores humoristas do século XIX e fizeram de Terror Depois da Ceia um sucesso.


Inclui biografias de Jerome K. Jerome e Kenneth M. Skeaping e diversas ilustrações antigas.






Estamos em uma época natalina. Alegria, árvores de Natal, presépios, famílias se unindo para estarem juntas. Que época perfeita para contar histórias de fantasmas depois da ceia, não acham? Por incrível que pareça essa era uma diversão bastante comum na Era Vitoriana e as histórias brincavam com os medos mais primitivos da burguesia inglesa como não ser capaz de encontrar uma herança, ser acusado de alguma infâmia ou quem sabe ter um segredo revelado. Sejam bem-vindos às histórias de fantasmas escritas por Jerome K. Jerome, um autor cuja fama se deu ao escrever histórias satíricas e bem humoradas. Então não se preocupem porque vocês não se depararão com os fantasmas de dias atuais, mas os de outrora. Mesmo assim fica o alerta porque dependendo do fantasma, sua vida pode realmente estar em risco.


"O fantasma aparece de novo e, desta vez, o corajoso sai da cama, se veste, penteia os cabelos e o segue; e descobre uma passagem secreta que leva do quarto até a adega de cerveja - uma passagem que, sem dúvida, não foi pouco usada nos tempos de outrora."

Preciso elogiar e muito a edição da Wish, feita no formato de mini-tesouro, uma iniciativa voltada para publicar histórias curtas ou coletâneas de lendas em um formato menor, de bolso, mantendo a qualidade e o cuidado das obras maiores. A edição é bastante luxuosa, com capa dura e papel pólen. As letras estão em um bom espaçamento, então mesmo que você abra bem o livro, não vai precisar se esforçar para realizar a leitura. Uma das maiores preocupações da editora é manter a sensação original, então é possível perceber todos os elementos vintage de uma edição de época com a preocupação gráfica contemporânea. Foram incorporadas todas as ilustrações de Kenneth M. Speaking, responsável por todas as imagens originais. É preciso lembrar que era bastante comum os livros vitorianos terem várias ilustrações. Esse é um daqueles materiais deliciosos para o leitor se entreter em poucas sentadas.

A escrita de Jerome é aquela típica do século XIX, então ela pode parecer meio pomposa para os dias de hoje. Mas, é um fenômeno típico de quando lemos uma obra muito afastada do período em que vivemos. As expressões parecem fora de lugar ou sem sentido. Porém, a tradução da Karine Ribeiro ficou excelente e ajudou muito a superar essa barreira temporal. Ela conseguiu manter o estilo do autor e ao mesmo tempo deixar uma leitura simples e saborosa para o leitor contemporâneo. Não senti nenhuma dificuldade nos capítulos, que fluíam relativamente bem. Ajuda também o fato de Jerome ser um autor que manteve os pés no chão no que diz respeito à sua apresentação. Como se tratava de uma obra de cunho popular, não adiantava muito ele ficar escrevendo algo que não seria compreendido pelos camponeses. Isso o deixaria sem público. Ao final do livro temos duas biografias, sendo uma do autor e outra do ilustrador falando sobre suas trajetórias.


Essa é uma história típica de fantasmas, mas que o autor subverteu para transformar em algo mais satírico e divertido. Há até algumas boas críticas sociais presentes, mas nada muito agressivo. Nos deparamos com um grupo de burgueses que está passando a véspera de Natal na casa do tio do protagonista. Lá eles começam a contar histórias de casas assombradas ou de espíritos zombeteiros que pregam peças neles. Vale destacar o quanto os fantasmas da obra são diferentes do que estamos acostumados nos dias de hoje. Eles são mais como personagens malandros e que gostam de pregar peças nos vivos. Claro que isso não impede de que alguns casos sejam fatais, mas depende bastante daquilo que o fantasma deixou por realizar em vida. Temos desde os fantasmas que tiram uma com aqueles que lhe fizeram mal em vida, a espíritos que sussurram segredos ou até outros que apenas estão ali para pregar peças infantis. Ao todo Jerome, conta quatro histórias, e mais uma que nunca é dita por completa do vigário.


A etiqueta social é muito verificada entre os quatro cavalheiros. Desde a própria noção da hospitalidade até alguns hábitos mais corriqueiros e típicos da Inglaterra como a do convidado ir passar a noite no quarto mais assombrado da casa. Mesmo as pequenas transgressões cometidas por eles possuem um elevado grau de observação das normas de conduta, então há sempre uma malandragem em dobrar tais normas. Aquele que não as obedece, perde o seu status social dentro daquele grupo específico. Claro que Jerome não perde a oportunidade para fazer a sua pequena crítica, na figura do vigário. Ele é o único que não sabemos a história porque o vigário não consegue contar a história de uma forma adequada a seu público. Conta narrativas irrelevantes, usando palavras que ninguém consegue compreender e frequentemente se perde em suas descrições, além de inserir dezenas de personagens sem grande utilidade para a história. Podemos interpretar essa descrição do vigário de duas formas: ou o vigário fala com tamanha erudição que as classes populares a quem o público do livro se destina não entenderiam ou o vigário se trata de um mero tolo e fanfarrão, ao qual os personagens apenas dirigem uma simples deferência por conta de seu cargo.


Terror depois da Ceia é um livro muito agradável de se ler, embora a história não seja sensacional. É uma daquelas leituras descompromissadas que eu recomendo mesmo ser lida nesse período natalino, até porque combina mais com ela. O trabalho editorial da Wish está sensacional e só melhora a cada ano que passa. Recomendo aos leitores terem em sua estante ou darem de presente a uma pessoa querida.


"Jovens rapazes e moças que recitavam poemas longos e enfadonhos em festas noturnas, e jovens imaturos que vagavam pelas ruas tarde da noite, tocando concertinas, ele costumava juntar e envenenar em grupos de dez, para economizar; e oradores de parques e palestrantes austeros ele costumava trancar seis em uma sala pequena com um copo de água e uma caixa de coleta para cada um, deixando-os conversarem uns com os outros até a morte."










Ficha Técnica:


Nome: Terror depois da ceia

Autor: Jerome K. Jerome

Editora: Wish

Tradutora: Karine Ribeiro

Número de Páginas: 144

Ano de Publicação: 2021


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