• Paulo Vinicius

Resenha: "Tekkon Kinkreet" de Taiyo Matsumoto

Na violenta cidade de Takara-cho, Kuro e Shiro tentam sobreviver demonstrando seu talento para arrumar confusão. Mas, a chegada de Cobra na cidade pode mudar toda a dinâmica. 

Sinopse:


Numa cidade de "ferro" e "concreto" (significado em japonês de Tekkon Kinkreet), vivem personagens também implacáveis e indomáveis.

Kuro (o preto) e Shiro (o branco) são órfãos. Para sobreviver, eles têm de roubar, lutar e se esconder em um mundo sombrio, solitário e corrupto, onde a própria cidade os afaga ou os despreza, como se fosse um ser vivo. O soberbo desenho de Matsumoto, rico em pequenos detalhes, traduz fielmente o ambiente desta história que pode se tornar angustiante, mas que ao mesmo tempo nos emociona e nos liberta.




As grandes metrópoles são capazes de nos engolir diariamente. Com seus ruídos, suas paisagens, sua vida (por que não dizer?). A cidade é capaz tanto de criar lendas como de destruir nossas emoções. E é com essa proposta que Taiyo Matsumoto conta a história de dois meninos de rua que tentam sobreviver usando toda a sua astúcia e coragem. Mas, Takara-cho, a cidade onde vivem, está mudando fruto da especulação imobiliária trazida por yakuzas inescrupulosos que desejam expulsar todos os seus opositores. 

Tekkon Kinkreet é o terceiro volume do selo Tsuru, da Devir, que já começa a demonstrar sua uniformidade. Temos já uma coleção propriamente dita com autores muito bem selecionados pela editora. Alguns podem argumentar que esse foi apenas um título abandonado há tempos pela Conrad, mas poderia muito bem ter passado batido pelo radar da Devir. Apesar de ser um mangá mais underground, ele é importante por representar uma tendência. Além disso, Taiyo Matsumoto é um mangaka de muita personalidade e isso é transposto para o papel. A edição está com aquele acabamento do selo Tsuru com uma jacket, uma bela folha de guarda acinzentada, tamanho grande e papel lux cream. Alguns leitores reclamaram da revisão na tradução de Nonnonba que estava um pouco complicada com um número razoável de erros para uma edição mais cara e luxuosa. Tekkon Kinkreet tem alguns errinhos, mas eu contei três ao todo e não interferem na experiência de leitura como um todo. Ao final tem uma biografia do autor e a história da revista Ikki onde vários mangakas underground fizeram sucesso. 

Sem dúvida alguma a arte é o que mais vai chamar a atenção do leitor por ser bem diferenciada. Taiyo opta por cenários angulosos e distorcidos que criam um aspecto quase surrealista a tudo o que está acontecendo ao redor dos personagens. Prédios tortos, lugares exageradamente curvilíneos, mas são esses cenários angulosos que criam toda a personalidade existente no mangá. A cidade parece viva; se algum dos personagens não tomarem cuidado, é possível que algum prédio os engula. É uma sensação de estranhamento ao mesmo tempo em que mostra Takara-cho como um ser vivo e com emoções. Os protagonistas aparecem sempre muito estilosos e em muitos casos representa o sentimento deles naquele momento. Por ex: Shiro sempre aparece com uma vestimenta mais descontraída e com um chapéu de animal, o que mostra o apego dele à natureza e uma postura verdadeira consigo mesmo. Kuro vai mudando sua aparência ao longo do mangá: começa quase como um rapper e mais para o final adota uma vestimenta mais sombria chegando a ostentar um colar de crânios.

Os demais personagens também são bem representados: enquanto os policiais sempre aparecem com suas roupas de serviço, os yakuzas estão também com seus ternos. Gosto também da forma até caricata como personagens como Cobra e Rato possuem, mostrando um pouco de suas personalidades. As cenas de ação são bem trabalhadas e variam de uma simples perseguição até um combate de rua. A luta entre Kuro e os dois irmãos é cruel. Ou seja, o autor consegue passar de uma aparente calmaria para um take mais selvagem em um piscar de olhos. Outra coisa que vale destacar é o detalhismo do fundo das cenas. Apesar de os protagonistas sejam os personagens atuando naquela cena, a vida na cidade não pára: pessoas caminham, prédios exibem deus letreiros luminosos. Prestem atenção também ao fundo que vocês serão capazes de encontrar detalhes incríveis. 


A narrativa é de fato sobre Kuro e Shiro. Como meninos vivendo na rua eles sobrevivem diariamente à dura vida imposta por Takara-cho. Desafiando outros meninos de rua, fugindo da polícia, encarando yakuzas. Nada é simples para eles. A chegada de um novo empreendimento desejando modernizar a cidade vai colocá-los na linha de frente de uma guerra entre duas visões opostos: a do Rato e a da Cobra. O Rato deseja a permanência da cidade como ela está, mantendo suas raízes e trabalhando em cima delas simplesmente tendo a manha das ruas; o Cobra quer derrubar tudo e ter o máximo de lucro possível, não importando que meios ele terá de fazer isso. Shiro é um menino que tem alguns problemas de desenvolvimento intelectual, sendo praticamente uma criança incapaz de formular pensamentos coerentes. Ele entende o mundo, mas a partir de um prisma muito diferente do resto dos personagens. Isso torna a vida dos dois mais difícil, porque a responsabilidade da maioria das tarefas mais comuns cabe a Kuro. Entretanto, é legal estabelecer que os dois são muito complementares. Kuro consegue descer a uma solução mais violenta quando necessário. Já Shiro prefere apreciar as coisas. De certa forma um é o freio do outro. 

"A peça do jogo de Othelo não tem frente nem verso. Tem preto e branco, mas não é frente nem verso. Equilíbrio, Shiro, o importante é manter o equilíbrio e não deixar desequilibrar."

Se podemos citar outro núcleo de personagens é o do Rato e Kimura. No começo, Kimura aparece mais como um capanga do Rato que não entende o funcionamento de Takara-cho. Mas, aos poucos vamos sendo apresentados às motivações do personagem. A ponto de passarmos a nos importar com ele mais para o final da narrativa. O Rato é sagaz, conhece o seu lugar na cidade. Muitas vezes ele não precisa empregar a violência para obter o que deseja. Respeita a força esmagadora representada pela cidade em si. Entende que Kuro e Shiro representam a própria alma de Takara-cho e não deseja o enfrentamento com eles. Mas, ele acaba sendo vítima das mudanças. Curioso é que o desejo de sair da cidade por entender que ela não mais o aceita é o mesmo de Shiro. Ao perceber o que estava se passando ao seu redor, o Rato notou o poder represado pelas forças que desejam mudar a cidade. Uma das partes mais filosóficas do mangá é quando o Rato e Kuro conversam em um telhado. Apesar de Kuro ter uma certa hostilidade com o Rato, eles nunca foram inimigos declarados ao longo da narrativa. 

Mais para o final da narrativa, Taiyo vai explorar a conexão profunda que existe entre Kuro e Shiro. Assim como o yin/yang eles existem um para o outro. Se eles se separarem os lados começam a regredir mais rapidamente. Se Kuro representa a violência, ela se torna mais selvagem; se Shiro representa uma paz inocente; ele regride a um estado mais introvertido. Talvez a maior representação do que a narrativa como um todo representa seja a semente de maçã deixada por Shiro na cidade. Uma semente de uma fruta que dificilmente nasceria em uma selva de pedra como Takara-cho. Se ela nascer, ela poderia representar algo diferente. Taiyo coloca isso de uma forma tão abstrata que mesmo se a fruta não nascer, o seu surgimento metafórico poderia representar uma luz de esperança diante de tudo o que acontece. Alguns momentos mais para o final da história são tocantes. A capacidade que o autor tem de nos fazer importar com os personagens é incrível. Quanto mais vamos imergindo na história, mais os personagens passam a fazer sentido e serem familiares para nós. Mesmo os coadjuvantes representam algo. Eles precisam estar ali para a história funcionar. E quando não estão, o equilíbrio é perdido. 

Tekkon Kinkreet é uma obra de arte underground. Taiyo Matsumoto conseguiu impor personalidade a um estilo de desenho que tem como foco o exagero ou o realismo. Usando de um traço anguloso e surrealista, ele cria uma peça única. Só não dou uma nota máxima (e eu tenho certeza que vocês vão discordar de mim) por conta do final que foi anticlimático para mim. Eu entendi que era ali que as coisas iriam acabar, mas senti que faltou um algo mais. As coisas se resolveram de uma forma muito mecânica e eu senti que o autor caminhava para uma revolta da cidade contra as forças externas. Algo que não aconteceu exatamente dessa forma. Por essa razão, para mim não foi perfeito. Mesmo assim é uma obra de peso que merece a sua atenção. 


Ficha Técnica:

Nome: Tekkon Kinkreet Autor: Taiyo Matsumoto Editora: Devir Gênero: Drama/Fantasia

Tradutor: Arnaldo Oka Número de Páginas: 620 Ano de Publicação: 2018


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