• Paulo Vinicius

Resenha: "Symetrias Dyssonantes" de Luiz Bras

Uma série de histórias curtas buscando especular um futuro próximo a partir de uma realidade esmagadora de tecnologias, abusos e desigualdades. Histórias que se debruçam nas margens da narrativa para repensar o presente.


Sinopse:


A coletânea “Symetrias dyssonantes”, de Luiz Bras, reúne sua ficção curta publicada nos últimos dez anos, em revistas de papel e online, e em coletâneas temáticas com outros autores. São vinte e um contos de ficção científica ou ficção fantástica, que tratam dos mais diferentes assuntos − às vezes por meio da metalinguagem−, entre eles inteligência artificial, folclore brasileiro, Estado distópico, telepatia, futurologia, vidas virtuais, mistérios miúdos da vida cotidiana.






Assim como outros trabalhos de Luiz Bras, essa é uma coletânea de contos e micro contos que giram em torno de temas ligados ao folclore, a governos opressores, a tecnologias de ponta distorcendo o que conhecemos como sociedade contemporânea. Quase sempre encaro essas coletâneas como uma caixa de bombons: alguns vamos achar saborosos, outros terão um gosto curioso e divertido e alguns gostaremos menos. Mas, uma coisa na qual Luiz Bras é mestre é em subverter expectativas. Nunca vá com a impressão de que você sabe o que ele pretende com sua história. Ela pode assumir uma faceta inesperada ao final, ou até dar uma quebra de estilo na metade. Sua escrita é bastante desafiadora e enigmática, e quase sempre atravessa os limites da escrita criativa. São leituras que vão exigir do leitor um pouco de preparo e atenção nos detalhes. Qualquer deslize e você irá perder o fio da meada.


Nessa resenha vou comentar quatro contos que achei que merecem ser destacados. Fazer uma resenha de micro contos é complicado porque a gente sabe que vai entregar o ouro. Portanto, vou tentar falar de aspectos da narrativa ou o que mais me chamou a atenção, seja tematicamente ou literariamente.


Começando pelo aspecto literário, é sempre divertido perceber o quanto o autor brinca com a escrita. Nunca pense que algo está escrito errado ou de forma incorreta. Quase sempre se trata de algo proposital, planejado para mexer com o aspecto intrínseco ou estético em si. No caso do conto que dá origem ao título do livro, Symetrias Dyssonantes, temos um mapinguari em um futuro pós-apocalíptico após uma devastação feita pelo bicho homem. A narrativa é toda conduzida em um portunhol mesclado com inglês e com as letras meio centralizadas. Ao ler o conto, o leitor vai perceber rapidamente o quanto os parágrafos são musicados, fornecendo um ritmo para a leitura. É quase como se o autor bebesse da cultura indígena voltada para a dança e a festa, mas imaginem uma festividade em um lugar completamente devastado. Nesse bacanal futurista, o mapinguari tenta buscar esperança para poder seguir em frente e quem sabe resgatar a felicidade de outrora.


Já em A Revolução do Ziper, o autor volta a uma temática frequente em suas histórias que é o questionamento de regimes ditatoriais e governos opressores e a imobilidade da população. A opressão se torna tão enraizada que detestamos os políticos, mas estamos sempre buscando obter alguma vantagem individualista em meio a uma ópera do caos em que vivemos. O autor surpreende ao parecer finalizar a história e de repente inicia um outro pequeno trecho interligado com o nome Curto-Circuito Camicaze. Nele vemos a desesperança se transformando em uma idolatria e uma busca por falsos deuses que possam consertar o que está completamente perdido. Para tal se recorre ora ao tecnológico, ora ao mitológico. A narrativa é apresentada como se fosse uma contagem regressiva, o que me fez lembrar do romance Sobrevivente, de Chuck Palahniuk em que ele nos apresenta a história meio de trás para frente até a explosão do voo.


"Fechar as bocas, todas as bocas, o poder central e a felicidade geral da nação exigem bocas fechadas, interromper também os olhos e os ouvidos, que cidadão algum fale, veja e ouça o que não deve ser falado-visto-ouvido."

Em Pupilas Douradas, somos tragados pelos aplicativos que fazem tudo por nós. Estamos tão dependentes deles que eles se tornaram quase uma inteligência artificial e a pergunta que nos fazemos é: quem direciona quem? Nesse nosso mundo extremamente tecnológico é como se estivéssemos sendo assimilados pouco a pouco por esses aplicativos. O protagonista se questiona até onde ele é culpado por ter criado um aplicativo cujo objetivo inicial era apenas facilitar a sua vida e tomar decisões bobas por ele. Mas, pouco a pouco, esse aplicativo foi se tornando mais ousado e não mais consultando o seu criador por imaginar tomar melhores decisões. Todos ao seu redor também começavam a dar sinais de estarem perdendo o controle sobre seus facilitadores. E tomar decisões se tornou uma função passada para esse ser tecnológico que nos descartou ao final. É uma metáfora sobre a automação da vida e a necessidade de retomarmos suas rédeas.


"O objetivo era aumentar minha popularidade nas redes sociais. Eu já passava horas interagindo na web. Curtia, comentava e compartilhava o máximo possível. E realmente me tornei muito popular, muito querido. Mas ainda era um sapinho num brejão."

Se estamos falando em problemas sociais, como não mencionar o preconceito premente na nossa sociedade contemporânea? As pessoas que querem esconder quem são de verdade por trás de uma cortina de mentiras. E um simples clique pode transformar a vida da pessoa em um verdadeiro inferno. A necessidade de preencher expectativas cis hetero quando você se sente um intruso em seu próprio corpo. Ao mesmo tempo, Luiz Bras faz uma viagem ao excesso de exposição de nossas vidas na qual precisamos sempre mostrar o que estamos fazendo ou deixando de fazer. E qualquer passo em falso pode revelar mais do que desejamos. Como uma Polaroide, tipo de fotografia instantânea e cujo nome dá título ao micro conto, que a revelação não nos permite mais voltar atrás. E tentamos contornar com mais mentiras e enganações.


Symetrias Dyssonantes é um caleidoscópio de histórias fascinantes que viajam por todos os ângulos da ficção especulativa ao nos apresentar temas bastante comuns do gênero de maneiras surpreendentes. Manipular a arte do fazer ficcional é uma das maiores habilidades de Luiz Bras e ele nos mostra através dessas várias histórias. Se você nunca conheceu o autor, esta coletânea pode ser sua porta de entrada para mil maravilhas. Só tem um perigo: ao escolher a pílula vermelha, você ficará viciado e irá desejar ler outros de seus trabalhos.









Ficha Técnica:


Nome: Symetrias Dyssonantes

Autor: Luiz Bras

Editora: Líquido Editorial

Número de Páginas: 136

Ano de Publicação: 2021


Avaliação:


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*Material enviado em parceria com o autor












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