• Paulo Vinicius

Resenha: "Surface Tension" de James Blish

Em um planeta distante, a raça humana busca realizar a colonização do lugar. Mas, para se adaptar os homens passam por uma transformação em micro-organismos. Vamos acompanhar o épico de sobrevivência e evolução dessa nova raça de homens.

Estou sem palavras para descrever esse conto que, pelo tamanho, pode entrar facilmente no gênero novella. James Blish é um dos ícones da era de ouro da ficção científica norte-americana tendo publicado uma série de romances na década de 1950, mas sendo mais conhecido por ter escrito roteiros para Star Trek. Eu adoro romances de ficção científica pesada (não à toa Kim Stanley Robinson figura entre os meus favoritos). Essa novella pode não agradar a todos, mas está repleta de altas ideias e reflexões.

A narrativa dele é em terceira pessoa, mas seguindo a visão de um dos micro-organismos chamado Lavon, que é uma espécie de líder da colônia. Então só vemos o que ele está enxergando ao seu redor. O autor trabalha muito com estereótipos na trama porque cada organismo tem uma função específica na sociedade: os Lavon são os líderes, os Shar são os detentores de conhecimento, os Protos são outras espécies de criaturas nativas do planeta e que acabam servindo como mão-de-obra. Mas, por incrível que pareça mesmo estabelecendo que ele vai trabalhar com estereótipos cujas funções são claras, Blish consegue aprofundar sua escrita o suficiente para construir personagens não tão simples assim.

Aviso logo de cara que essa é uma novella que não vai agradar a todos. Surface Tension entra em uma categoria de romances que tratam da temática da terraformação e da colonização do espaço. Então, Blish vai empregar muita ciência e filosofia ao longo da sua história. Vai demonstrar como cada avanço tecnológico ou de consciência vai alterar a maneira como essas criaturas percebem o mundo em que vivem e o universo ao redor delas mesmas. Eu resenhei há uns dois anos um conto cuja proposta era semelhante chamado Crystal Nights de um autor chamado Greg Egan. São romances que não tem uma grande carga de ação, sendo mais romances de ideias. Nesse sentido, o autor consegue entregar uma história riquíssima em temas para reflexão.

Me surpreendi positivamente com a construção de personagens. Sinceramente, não esperava que o autor aprofundasse uma proposta simples como a que ele apresentou. No entanto, ele trata os personagens como indivíduos saindo de sua programação normal. Lavon que seria o protótipo do cético tem algumas experiências que fazem com que ele questione determinadas concepções que ele tinha. Shar é um coletor de tradições, uma espécie de estudioso em história, que é obcecado em decifrar uma tábua deixada pelos antigos. Só que os Shar que vieram antes dele liam os escritos antigos com um ar de veneração enquanto ele tem uma visão mais prática. Ele entende que é preciso decifrar o código para que a civilização dos "homens" avance. Ou seja, Blish avança um pouco mais na evolução de personagens. Ele não faz isso só com esses dois personagens, mas com diversos outros. É a subversão da ideia de estereótipo.

A nova raça humana vive em um mundo microscópico, mas que apresenta uma série de perigos para eles. No começo, vemos que os homens precisam lidar com os Eaters, micro-organismos com baixa inteligência cujo único objetivo é devorar todos. Aqui o autor apresenta a temática da coletividade e da cooperação como um tema. E o quanto foi importante para eles se organizarem para poderem lidar com os problemas apresentados por um ambiente que, inicialmente, era inóspito. Isso é uma crítica a um momento de nossa história em que estávamos diante de uma Guerra Fria entre EUA e URSS. Por conta de um confronto entre duas superpotências, outras nações no mundo passavam por uma série de problemas que poderiam ser resolvidos caso houvesse um envolvimento coletivo em prol do bem da humanidade.

Outro tema trabalhado em Surface Tension é a eterna vontade humana de descobrir o desconhecido. De saber o que tem além de alguma coisa. A curiosidade é inerente ao homem, por isso a vontade de singrar o espaço e descobrir novos lugares. O ser humano não se contenta em permanecer no mesmo lugar por muito tempo; ele deseja sempre o novo, o proibido. Isso tem o seu lado positivo e negativo. Mas, para estes seres descobrir o desconhecido, abandonar o status quo serviu como gatilho para que eles pudessem alcançar novos horizontes. Só achei o final um pouco confuso. Entendi o que ele quis dizer com o que acontece depois do clímax, mas achei que ficou um pouco truncado para o leitor. Os parágrafos finais são absolutamente lindos, retomando uma situação que acontece logo no prólogo. Que também é um momento que poderia ter sido melhor construído, mas tudo bem. Em vista do que a história conseguiu entregar para o leitor são dois momentos que eu até deixo de lado devido à genialidade do autor em apresentar uma história memorável. Entrou para o hall de coisas incríveis e surpreendentes que eu li esse ano. E, se você quer uma boa história sci fi, daquelas que vão fritar o seu cérebro, aqui está uma. E aproveitem para conhecer outras obras do autor. Vale demais a pena.

Ficha Técnica:

Nome: Surface Tension Autor: James Blish Gênero: Ficção Científica Publicado originalmente em 1952 Conto que faz parte da coletânea The Big Book of Science Fiction Organizado por Jeff Vandermeer e Ann Vandermeer Editora: Vintage Ano de Publicação: 2016


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