• Paulo Vinicius

Resenha: "Super Bass" de Kai Ashante Wilson

Gianni voltou da guerra e quer encontrar sua paz em seu vilarejo natal e nos braços de seu amado Cianno. Mas, algumas feridas permanecem e é preciso enfrentá-las.



Sinopse:


Gian retorna a Sea-john após as guerras do reino certo de que tem habilidades além de matar e destruir. Ele precisa provar a si mesmo que o amor pode ser tão forte, se não mais forte do que seu ódio. O Rei do Verão irá lhe dar esta oportunidade.





Nas resenhas que eu faço aqui no Ficções Humanas, um ponto que eu sempre procuro destacar é a qualidade da escrita. Para qualquer obra se torna necessário o autor escrever bem para conseguir fazer o leitor se encantar pelas palavras, adentrar em um mundo imaginário criado pelo autor ou compreender o que está acontecendo. De nada adianta uma boa narrativa se ela não for bem escrita. Mas, existe o vice-versa. Em Super Bass, Kai Ashante Wilson emprega uma linda escrita, que me remete imediatamente aos contos de fadas dada a sua beleza e criatividade. Só que isso acaba prejudicando a compreensão do texto. O texto acabou me deixando confuso e somente em uma segunda leitura que fluiu um pouco melhor. Muitas vezes eu me perdia nas alegorias postas nas linhas de uma maneira magistral pelo autor. Isso acabou me decepcionando um pouco porque ao analisar em retrospectiva a criação de mundo, os personagens e os temas debatidos foi uma oportunidade perdida.


Gian está em sua casa discutindo com suas mamas-e-papas sobre trazer seu amado Cianno para vir visitá-los. Só que o protagonista reluta um pouco em levá-lo até lá, aparentemente sem um motivo explícito (pelo menos no início). Ele está indo se encontrar com Cianno para irem a algum lugar que ele não conta a seus parentes. Ao se encontrar com seu amado, Gian dá algumas desculpas furadas e juntos eles seguem para um ritual onde o Rei do Verão atende aos desejos de seus súditos. E Cianno é a pessoa que irá incorporar o Rei do Verão. Alguns traumas do passado voltarão para assombrar Gian que imaginava que as guerras do reino haviam se encerrado e ele poderia tentar descobrir no amor a força poderosa que todos dizem que é. Mas, certas coisas tem o hábito de reaparecer quando menos imaginamos.


Que construção de mundo sensacional! Essa é mais uma daquelas oportunidades em que comento a vocês, leitores, que uma história ser ou não curta não influi na capacidade de entregar uma complexa construção de mundo. Em um curto espaço de páginas, Kai Ashante Wilson cria uma série de tradições bem originais como o fato de nesse mundo as pessoas se casarem sempre em grupos de três pessoas (não 2, nem 5 ou 6... sempre 3). Isso cria uma dinâmica social intrigante onde o gênero acaba não sendo tão importante na formação familiar. O importante é a formação de um triângulo amoroso que atenda aos anseios de cada um. Claro que, aparentemente, uma mulher precisa estar no trio mais pelo que parece ser a procriação propriamente dita. Pelo menos neste conto não vi trios inteiramente homossexuais (apesar de que o conto se insere em um mundo explorado em outros romances pelo autor). O próprio ritual do Rei do Verão remete imediatamente às praticas dos reis taumaturgos na França medieval. Nessa tradição os reis impunham as mãos sobre determinadas doenças (principalmente as escrófulas) e dizia-se que o poder de Deus havia passado pelas mãos do rei que, se o doente fosse um cristão verdadeiro, iria ser curado. Neste mundo do autor, os reis procuram atender aos verdadeiros desejos do coração de cada um. Nem sempre tomar a decisão sobre o que fazer com cada súdito é simples, mas no fim o Rei do Verão tem essa preponderância.


Mas, a narrativa gira mesmo na inquietação de Gian. Ele viu muita coisa na guerra em que participou que tirou dele um pouco da crença no amor. Sim, ele ama Cianno, mas enxerga também a maldade existente no coração das pessoas. É como se um pedaço dele mesmo tivesse ficado para trás. E um dos súditos atendidos pelo Rei do Verão o vai fazer voltar a este momento. Para buscar resolver essa questão, temos a leveza e doçura de Cianno que representa o lado da esperança. Ao contrabalançar essa desesperança de Gian, Cianno se apresenta como alguém sábio em sua juventude. No fundo, este romance é um bom exemplo de slice of life, apresentando uma situação específica e como os personagens vão alcançar um novo ponto a partir da resolução de algum problema ou trauma. Gostei da trama e das ideias propostas pelo autor e pretendo buscar os outros romances que se passam nesse mundo.










Ficha Técnica:


Nome: Super Bass

Autor: Kai Ashante Wilson

Editora: Tor.com

Número de Páginas: 32

Ano de Publicação: 2013


Avaliação:

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