• Paulo Vinicius

Resenha: "Southern Cross vol. 1" de Becky Cloonan, Andy Belanger e Lee Loughridge

Alex Braith está seguindo para Titã para pegar as coisas de sua irmã que morreu em um trabalho para a Zemi. E ela quer saber como sua irmã morreu porque a narrativa oficial de sua morte soa muito estranha. Para isso, ela sobe na embarcação Southern Cross. Essa será uma longa e estranha viagem...


Sinopse:


Preparem-se para o embarque: Southern Cross, nave tanque 73 rumo a Titã. Alex Braith está traçando os últimos passos de sua irmã rumo à lua-refinaria, esperando coletar os seus pertences e encontrar algumas respostas. As perguntas continuam surgindo e elas a levam a um caminho de intriga, traição e terror espacial.





Uau. É a minha exclamação inicial para esse terror no espaço da Becky Cloonan. Não me recordo de ter lido nada parecido com o que a autora nos apresenta nessa HQ. Uma mistura maluca de Alien, o Oitavo Passageiro com qualquer coisa do John Carpenter que você possa imaginar (mais possivelmente O Enigma de Outro Mundo). Ela consegue nos prender do começo ao fim neste primeiro volume. E eu que costumo ler duas ou três edições a cada vez que leio, não consegui parar antes de terminar as seis que formam esse encadernado. Somos fisgados por uma narrativa feroz que te coloca apenas imaginando o que está acontecendo de verdade. E pelo jeito Cloonan bebeu daquela velha máxima de autores de terror: você não precisa mostrar o monstro para causar medo de verdade naquele que acompanha sua história. Basta insinuar o movimentar dos arbustos, o balançar das cortinas à noite, um uivo à distância. Isso sem falar na arte do Andy Belanger que, pelo amor de Deus, arrasa neste quadrinho. Vou adiantar nesse primeiro parágrafo: este quadrinho está levando nota máxima e está concorrendo seriamente a uma das melhores leituras de quadrinhos do ano.


Alex Braith embarca na Southern Cross em busca de respostas. Ela quer saber o que aconteceu com sua irmã na lua de Titã, durante uma escavação para a corporação Zemi, uma das mais importantes no fornecimento de matéria-prima energética para o mundo. Ou seja, uma empresa milionária que pode fazer qualquer acidente em que ela tenha culpa ser varrido para debaixo do tapete. Mas, Alex fareja um ato traiçoeiro à distância, afinal ela ficou presa por vários anos. Ao entrar na embarcação, ela tem um rápido momento de arrependimento por causa das péssimas condições do cargueiro. Tudo é bagunçado, além de ter umas pessoas bem estranhas ao seu redor. É sério que ele aquele careca está secando a Alex? Ela dá um olhar brutal para ele e segue para a sua cabine, a 17. O capitão parece ser um homem decente, embora de meias palavras e a imediato não foi com a cara de Alex. E vejam que surpresa: ela tem uma companheira de quarto. Que maravilha! Só que não! E sua companheira de quarto, uma garota animada chamada Erin, cismou de fazer amizade com ela. Justo quando tudo o que ela deseja é ficar em paz. Quando Alex sai para tomar um café, ela tem uma estranha pontada na cabeça e jura que a nave deu uma sacolejada. Ao voltar para o quarto, sua companheira parece ter desaparecido misteriosamente. É... essa vai ser uma longa viagem.


O roteiro da Becky é preciso e não deixa a peteca cair em nenhum momento. Os cinco capítulos são tão interligados que parecem uma coisa só. Toda a ação se passa dentro da Southern Cross, o que me fez lembrar na hora de Alien, o Oitavo Passageiro. O enorme cargueiro o qual conhecemos no primeiro capítulo quando Alex conhece a nave se torna cada vez menor à medida em que a história se desenvolve. Nos sentimos presos e sufocados junto com a protagonista, sem saber em quem confiar. Todos parecem suspeitos. E o mais incrível: a própria protagonista também se torna suspeita depois de uma certa revelação. Todos ali escondem segredos. O mistério da morte da irmã de Alex começa como algo que parece ter sido provocado por alguma negligência da empresa, mas pouco a pouco a estranheza vai tomando conta e revelando facetas bizarras. O que vamos ver no final parece saído de algum livro de horror cósmico do Lovecraft como A Cor que Caiu do Espaço.



A autora não dá tanta profundidade aos demais personagens e vai construindo um background apenas para o necessário. Ou seja, apenas para a história se desdobrar. Por exemplo, temos o médico que vive mandando indiretas para Alex. Apesar de ela acabar precisando se consultar com ele por conta dos efeitos nocivos que uma falha no motor gravitacional da nave tem provocado e gerado dores constantes de cabeça e perda de equilíbrio. Ou o estranho camarada da cabine ao lado com tatuagens nos dedos que Alex parece se lembrar ser de algum lugar. Ou a imediata que não foi com a cara da Alex e parece estar traficando mercadorias usando a nave. Alex escuta isso sem querer em um determinado momento. Ou a garota tagarela que desaparece sem deixar explicações e parece estar de alguma forma envolvida na investigação da morte de sua irmã. Tudo se junta em um imenso quebra-cabeças, cujas peças nos são dadas aos pouquinhos e vão formar um todo bem maior do que imaginamos.


Por outro lado, Alex precisa lidar com os seus sentimentos em relação à sua irmã, Amber. O afastamento das duas se deu muito por causa do estilo intempestivo de Alex. É aquele velho problema da rivalidade entre irmãs. Enquanto Amber era a mais paciente, racional e compreensiva, Alex queria o mundo. E isso a levou a se meter em uma série de problemas que poderiam ter sido evitados caso ela tivesse ouvido sua irmã. Quando ela foi presa, Amber quis oferecer o seu ombro como apoio para ela. E Alex procurou afastá-la de sua vida. Sabe quando afastamos alguém quando na verdade queremos que essa pessoa esteja ali por nós? Foi mais ou menos isso o que aconteceu. Quando Alex soube da morte de Amber, o seu mundo caiu. Todos os seus arrependimentos vieram à tona e, de certa forma, ela se culpou por aquilo que aconteceu. E isso se reflete do começo ao fim da história. Ao mesmo tempo a ligação que ela tem com sua irmã é o que vai fornecer à Alex a capacidade de superar alguns momentos bem dramáticos da história.


Southern Cross finaliza o quinto capítulo com um belo gancho. Claro que ao que me parece teremos um elenco diferente a partir do volume 2, e agora é esperar para saber o que a autora pode aprontar a partir da próxima edição. A HQ foi extremamente divertida e me ofereceu um tipo de história que não estou muito acostumado a encontrar. Pensem: não é fácil criar uma narrativa de terror em quadrinhos. Eleve o nível disso para um scifi de terror. Bem bem complicado.


O Quadrinho em 1 Quadro:



Só olhem esse quadro. Olhem. Esse. Quadro. Só para dar uma dica: essa não é a splash page completa porque a imagem iria ficar muito diminuída e prejudicaria a compreensão dos detalhes. Andy Belanger arrasou nestas cinco edições. Claramente o autor se inspirou no traço de Jack Kirby. Tem umas cenas espalhadas pelos volumes em que ele cria um superquadro de página inteira e ele vai criando pequenos elementos artísticos que funcionam como microquadros onde os diálogos e a ação acontecem. É um recurso parecido com o que Kirby faz em Sky Masters da Força Espacial e ele cria uma cena inteira a partir de um foguete. Os quadros de diálogo são partes do foguete que funcionam como janelas para que o leitor possa compreender o que está acontecendo. No quadro acima temos uma splash page com vários recortes mostrando detalhes do que está acontecendo. Nosso olhar é guiado a partir de pequenos momentos que servem ao todo. Outra preocupação de Belanger que tem inspiração em Kirby são os detalhes dos cenários. Os equipamentos parecem sempre ter alguma utilidade. O cenário todo foi pensado pelo artista para que o leitor fosse transportado para dentro da nave. O futurismo da narrativa parece palpável porque os objetos são verossímeis dentro daquilo que foi proposto pelo artista.


A palheta de cores empregada por Lee Loughridge potencializou aquilo que Belanger havia pensado. No começo achei tudo muito escuro, mas era para dar aquela aura de terror e apreensão necessária para que o leitor se sentisse preso àquele espaço. A nave começa ampla e enorme como um imenso cargueiro, mas pouco a pouco isso muda para algo mais claustrofóbico. E aí chega o capítulo 3 quando começamos a ver algumas imagens realmente psicodélicas. O artista e o colorista se deleitam nesse momento. Tem uns quadros criados a partir dessa edição que são bizarros. Me peguei pensando como Belanger pensou a composição daquilo. Porque é doido e maravilhoso demais. Sem entregar muita coisa, o último capítulo deste primeiro volume é de uma lisergia alucinada. Imaginem o horror cósmico de Lovecraft elevado à última potência. Certamente esse quadrinho foi marcante por enquanto para mim.









Ficha Técnica:


Nome: Southern Cross vol. 1

Autora: Becky Cloonan

Artista: Andy Belanger

Colorista: Lee Loughridge

Editora: Image Comics

Número de Páginas: 160

Ano de Publicação: 2016


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