• Paulo Vinicius

Resenha: "Silvestre" de Wagner William

Em uma sequência de três histórias, vemos histórias envolvendo a relação da humanidade com a natureza, os mistérios dos deuses antigos e um caçador que vai provocar uma matança desenfreada em um requiem de sangue e vísceras.



Sinopse:


Em 1845 o escritor norte-americano Henry David Thoreau retirou-se para a floresta, onde ergueu, com as próprias mãos, sua nova casa e a mobília, com o intuito de viver com o mínimo necessário e em total contato com a natureza. O que o moveu foi a necessidade de procurar entender as mudanças pela qual a sociedade da época passava, bem como investigar as necessidades essenciais da vida. Não se isolou, porém, da sociedade. Recebia visitas enquanto passava dois anos em contato absoluto com a natureza e seus livros, refletindo sobre a liberdade e a existência, que começava a assumir um ritmo acelerado nas cidades com a industrialização e urbanização crescentes. O resultado desta experiência social e espiritual a partir da autossuficiência tornou-se público com Walden, ou A Vida nos Bosques, manifesto poético que o autor publicou em 1854. Em 2019, Wagner Willian, premiado autor de obras magistrais como Bulldogma, Martírio de Joana Dark Side e O Maestro, o Cuco e a Lenda deixou a casa de Thoreau com novas considerações. Entrando para o time de grandes autores da DarkSide® Books, o quadrinista brasileiro entrega aos leitores uma obra de arte imersiva e reflexiva, ao mesmo tempo orgânica e visceral. Em Silvestre, acompanhamos a jornada de um velho caçador que atravessa e dialoga com lendas sobre divindades extintas, mergulhando na relação entre o homem e a natureza, e o respeito sobre o que a terra pode nos dar e o que somos capazes de oferecer. No isolamento de sua cabana, ele assa uma torta. Seu aroma cruza a memória, as paredes, a floresta, atraindo animais silvestres e criaturas fantásticas em um grande resgate ao convívio humano, digno de uma celebração selvagem e ritualística.






O chamado selvagem


Silvestre é uma experiência bem diferente. Wagner William nos coloca em um cenário no meio de uma floresta repleto de criaturas sobrenaturais as mais diversas ao mesmo tempo em que nos faz pensar sobre quem somos. Qual é a engrenagem que nos faz funcionar? O que é a real natureza humana? Em uma HQ linda e poética, ele passa do belo e magnífico ao grotesco e monstruoso em um piscar de olhos. Sem dúvida alguma foi uma das melhores HQs que saíram em 2019 e só prova o talento do autor. Daqueles quadrinhos que servem como vitrine para você curtir alguém e se tornar fã eterno.


Vou tentar falar um pouco sobre a história, mas acreditem que isso não será uma tarefa simples. Temos três narrativas que são interligadas e tem alguma sequência específica. Mas, é possível lê-las de forma independente. Na primeira parte, nos familiarizamos com aquele que vai ser uma espécie de protagonista da história, o caçador. Vemos sua rotina diária em busca de alimento e o quanto ele precisa se preparar e superar as dificuldades que são impostas pela mãe natureza. Esta pode ser bondosa e bela, mas também cruel e demoníaca. Os desígnios da natureza não são compreendidos pelo homem. A segunda narrativa começa com o caçador preparando uma torta que lhe foi ensinada por sua mãe. Quando a torta fica pronta todo tipo de divindade que tem a ver com a natureza chega na casa do caçador e ele procura repartir a torta com o maior número possível deles. Na última vemos uma inversão no que é contado na segunda história, e é uma espécie de orgia desenfreada de violência e sangue.


A arte do Wagner é linda. É preciso destacar que o Wagner é um ilustrador, então a maneira como ele concebe suas páginas pode parecer diferente do que você está acostumado. Ele enxerga as páginas como um todo e mesmo o letreiramento faz parte do cenário. Até o tipo de fonte que foi empregado naquele momento pode causar um efeito no leitor: uma letra mais correta implica uma pesquisa, algo manual denota um relato pessoal, uma letra macabra pode indicar um personagem com medo. A arte é pintada o que produz alguns efeitos magníficos. Mesmo páginas simples são obras de arte nas mãos do Wagner. Tem algumas páginas inteiras que são algo de outro mundo. Tem uma em especial lá pela terceira parte que mostra uma página inteira com vísceras que é arrepiante. Daquele tipo que te faz ficar horrorizado e maravilhado ao mesmo tempo em como ele foi capaz de fazer aquilo.



Algo importante de se destacar antes de passarmos aos temas abordados é em como arte e roteiro conversam entre si. Nos últimos tempos eu aprendi a curtir silêncios mais do que enormes caixas de texto. Admito que isso se deu muito por causa do Chabouté (leiam a minha matéria sobre Um Pedaço de Madeira e Aço) e a gente acaba aprendendo a ler mais os quadros propriamente ditos. A terceira parte é aquela que possui menos texto (em contraste com a primeira) e teoricamente passaria mais rápido. Me peguei passando minutos contemplando os quadros e retirando interpretações do que eu estava vendo. Ou seja, Silvestre é também uma HQ repleta de símbolos e metáforas. O roteiro conversa com a arte e vice-versa.


O ser humano está ilustrado na figura do caçador. Como se trata de uma HQ que trabalha muito os símbolos e as metáforas por trás deles, algumas interpretações são possíveis. Por exemplo, podemos especular que os três capítulos representariam o desenvolvimento da humanidade dos dias antigos até hoje. No primeiro capítulo o homem estaria descobrindo como dominar a natureza. Isso seria representado pelo caçador indo atrás da sua rara caça e ao longo do caminho ele vai nos mostrando pequenas lendas que representariam o conhecimento acumulado pelo ser humano até aquele momento. O segundo capítulo seria a era dos deuses quando os homens buscavam o favor deles de forma a alcançar benefícios. O ato de oferecer uma torta a eles representaria algum tipo de sacrifício ritual em troca do favor divino. Já o terceiro capítulo poderia ser interpretado de duas formas: ou representaria a vitória do monoteísmo sobre as religiões antigas (e aí o caçador poderia ser interpretado como o filho do Deus cristão) ou o crepúsculo dos deuses, quando o homem perde a fé nas divindades sobrenaturais.


Wagner pesquisou bem uma variedade de culturas, representadas por diversos panteões presentes na narrativa. Temos deuses védicos, pagãos, norte-americanos e até alguns representando a cultura brasileira como o curupira e a mula-sem-cabeça. Apesar do clima inicial de harmonia e união, logo reparamos como os deuses antigos não são nem um pouco amistosos. Algumas cenas bem estranhas vão se sucedendo uma atrás da outra e vão construindo o clima para o que viria a seguir. Não confundir os deuses representados pelo autor com seres amistosos e justos. Nesse sentido, temos toda a selvageria por trás de suas ações, ou situações que nem sempre saem como o esperado inicialmente. Alguns são malignos e cruéis, outros são trapaceiros.



Silvestre é um trabalho sensacional que eu só consigo encontrar uma palavra para descrevê-lo: visceral. E é isso o que vamos ver nas páginas que mostram o talento como pintor de Wagner Willian em que algumas cenas brilham com vida saída da tinta a óleo usada na composição delas. A narrativa exige um pouco mais do leitor e vai revelando detalhes e camadas que em uma primeira leitura não são tão perceptíveis. Mas, à medida em que nos sentamos e remoemos aquilo que foi lido, conseguimos fazer os links. Eu adorei o trabalho do autor e quero ler mais coisas dele.









Ficha Técnica:


Nome: Silvestre

Autor: Wagner Willian

Editora: DarkSide Books

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2019


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