• Paulo Vinicius

Resenha: "Sem Palavras" de Douglas Franchin

Um menino que imaginava estar em uma família feliz se vê às voltas da violência doméstica. Como isso mudará o seu ser? E como isso afetará a dinâmica de sua família? 

Este, sem dúvida, não é um daqueles quadrinhos que vai mudar a forma de se enxergar uma HQ. Ou vai te apresentar um super herói em feitos surpreendentes. Essa é uma HQ que vai te fazer refletir, que vai te dar um soco no estômago e um chute no saco. Douglas Franchin foi corajoso ao abordar esta difícil temática de uma maneira tão pungente quanto em Sem Palavras. Todo o simbolismo presente aqui é ainda mais impactante para o leitor. 

A decisão de não usar diálogos nesta HQ foi acertada. Ela consegue ser ainda mais impactante justamente por causa disso. O leitor é quem vai construindo na sua mente os diálogos que compõem a narrativa. Ele é que vai juntando as peças do quebra-cabeças daquela família aparentemente feliz. E em como esta felicidade vai se esfacelando progressivamente a partir de atos de violência perpetrados por aquele que era considerado pelo protagonista como alguém a ser amado. O roteiro de Douglas está incrível e a maneira como ele nos mostra como a dinâmica das relações familiares muda por conta da quebra de confiança é impressionante. As páginas iam me agredindo pouco a pouco para que eu pudesse refletir acerca do poder que a violência doméstica tem naqueles ao redor daquele que está sofrendo a violência. Tudo o que se sucede após o fato é apenas um reforço dessa quebra que vai quebrando o ser do jovem menino. Mais impactante ainda é que a única fala do quadrinho está no final e essa, sim, vai partir o seu coração. 

O desenho é feito digitalmente a partir dos sketches do autor, mas admito que é um tipo de arte que não me agrada tanto. Em outros trabalhos, quando o aspecto do todo adota um formato mais psicodélico e estranho, talvez até não me incomodasse tanto, mas aqui, por se tratar de uma narrativa mais pé no chão, me deixa menos contente. Por outro lado, algumas escolhas de cenas e quadrinização são muito acertadas. O detalhe do corpo do menino estar se rachando a cada novo ato de agressão é uma sacada de gênio. Isso porque simbolicamente é o que acontece a uma criança que vivencia estes atos. 

É fundamental discutirmos o assunto da violência doméstica nos dias de hoje e como ela muda, sim, uma família. Nesse momento de recrudescimento social onde as pessoas parecem agredir umas às outras por razões banais, os casos de agressão e de feminicídio tem crescido nas grandes cidades. Todos os dias ouvimos casos desse tipo sendo denunciados na televisão. Dentro da minha comunidade escolar, o que acontece ao protagonista da história é muito comum. E o final da criança afetada por isso é muito menos feliz do que com o protagonista. Normalmente as crianças que vivenciam a violência diariamente acabam se tornando revoltadas ou se envolvendo com drogas ou com o mundo do crime. Alertar para casos desse tipo às autoridades competentes é essencial sim para que possamos evitar que tais tragédias possam acontecer. 

Tive o privilégio de conhecer o Douglas durante a CCXP 2018 e trocar algumas palavras rapidamente com ele. Adquiri uma edição para mim e outra para a escola, pois sei o quanto este trabalho é importante para a conscientização da comunidade e das famílias sobre o perigo disso. Sem Palavras é uma obra essencial e que eu acho que deveria fazer parte do acervo das bibliotecas escolares espalhadas por todo o país. 

Ficha Técnica:

Nome: Sem Palavras Autor: Douglas Franchin Editora: Auto-Publicado Gênero: Drama Número de Páginas: 24 ​Ano de Publicação: 2018


Avaliação:


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