• Paulo Vinicius

Resenha: "Scoogled" de Cory Doctorow

Atualizado: 6 de Mar de 2019


Um funcionário do Google descobre uma verdade aterradora e acaba se envolvendo em uma trama que vai colocá-lo em uma espiral de acontecimentos terríveis.



Ficha Técnica:


Nome: Scroogled

Autor: Cory Doctorow

Editora: Radar

Gênero: Thriller, Ficção Científica

Número de Páginas: 31

Ano de Publicação: 2007


Uma sociedade vigiada


Cory Doctorow é um blogueiro que se tornou autor de vários livros cuja temática era o mau uso da tecnologia. Eu tenho uma impressão ruim dele: seu livro Pequeno Irmão foi uma das minhas piores leituras realizadas no ano de 2013. Tudo o que eu falei a respeito de Neuromancer elevado ao quadrado. Praticamente as mesmas críticas acerca de envelhecimento precoce da escrita do autor e referências pop culture (no caso referências de informática e uso da internet e de programação) que, se o leitor não compreender, prejudicam a leitura. Mas, Scroogled , me impressionou positivamente.


Greg Lupinski é um funcionário do Google que saiu de férias após anos incessantes de trabalho sem fim. Pegou um bronzeado, perdeu alguns quilos e teve algumas experiências sexuais exóticas. Quando retorna de suas férias é parado por alguns seguranças no aeroporto que investigaram a sua vida online e descobriram coisas assustadoras. O Departamento de Defesa o prende por algumas horas alegando que Greg teria visitado alguns sites com inclinações terroristas e ele seria considerado um elemento de interesse.


Após sair dessa confusão, Greg tenta retomar sua vida normal. Mas, percebe que agora ele está sendo vigiado. Todo e qualquer site que ele freqüenta é vigiado pelo Departamento de Defesa. Greg busca então a ajuda de sua colega Maya. Só então ele percebe o quanto sua vida mudou.



Scroogled

A história remete muito à George Orwell e sua obra 1984. O autor utiliza esta temática a partir de vários ângulos diferentes. Scroogled foi capaz de me aterrorizar mais do que Pequeno Irmão. Mesmo sendo um conto, o autor conseguiu causar aquela sensação de iminência, de não ter opções, de estar contra a parede. Pequeno Irmão possuía uma péssima concepção e personagens rasos e bobos, além de desprovido de impacto. Mesmo o tema sendo interessante, o autor não foi capaz de, naquele momento, prender seu leitor na história.


Os personagens são adequadamente construídos. Doctorow foi inteligente ao empregar apenas três personagens para conduzir a história. Aliás, podemos considerar apenas dois, já que a namorada de Maya pouco participa da história. Ao empregar uma abordagem mais minimalista, o autor pôde se ocupar mais na construção da ambientação e do enredo.


A ambientação é assustadora. Se pensarmos que o autor está usando o nosso mundo para construir a história é algo ainda mais assustador. Não existem aqui elementos fantásticos ou dispositivos de alta tecnologia para compor um cenário de ficção científica. Trata-se de uma história de suspense que acontece nos dias de hoje. Qualquer pessoa poderia estar no lugar de Greg. Aliás, podemos estar sendo vigiados neste exato momento por algum órgão governamental que pode acessar nossos e-mails, dados, histórico de navegação e preferências. Sabe-se quantos de nós somos investigados diariamente ou se todos nós somos investigados. Deixamos informações pessoais que poderiam compor um dossiê todos os dias. É possível rastrear hábitos, manias e características pessoais apenas observando rastros de navegação pela internet. Se somarmos isso às pesquisas feitas no Google temos até a informação de que assuntos a pessoa está procurando saber mais neste momento.


O final da história é chocante. É a demonstração de Doctorow de que no nosso mundo atual somos alvo de investigações a todo o momento. E que um Departamento de Defesa com posturas totalitárias pode tomar medidas drásticas na afamada guerra contra o terror. Fui capaz de perceber um discurso panfletário da parte do autor. Ele certamente está fazendo uma defesa da liberdade de sigilo da informação. Doctorow sente que podemos caminhar para um mundo parecido com o que Orwell imaginou em 1984. E estamos em uma realidade tecnológica que torna isso possível neste momento, se já não for real em certos países de tendência mais conservadora.



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