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Resenha: "Quarto" de Emma Donoghue

Acompanhe a história do pequeno Jack que vive desde que nasceu em um pequeno quarto junto de sua mãe. Aquele é todo o mundo que ele conhece e aos poucos ele vai percebendo que vive em um cativeiro e que o Lá Fora pode ter muitas surpresas.

Sinopse:


A história que deu origem ao filme O quarto de Jack, com 4 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme Para Jack, um esperto menino de 5 anos, o quarto é o único mundo que conhece. É onde ele nasceu e cresceu, e onde vive com sua mãe, enquanto eles aprendem, leem, comem, dormem e brincam. À noite, sua mãe o fecha em segurança no guarda-roupa, onde ele deve estar dormindo quando o velho Nick vem visitá-la. O quarto é a casa de Jack, mas, para sua mãe, é a prisão onde o velho Nick a mantém há sete anos. Com determinação, criatividade e um imenso amor maternal, a mãe criou ali uma vida para Jack. Mas ela sabe que isso não é suficiente, para nenhum dos dois. Então, ela elabora um ousado plano de fuga, que conta com a bravura de seu filho e com uma boa dose de sorte. O que ela não percebe, porém, é como está despreparada para fazer o plano funcionar.




O Mundo de Jack


Essa é uma história pesada. Disso eu não tenho dúvidas. Não porque ela seja gráfica, ou específica nos detalhes da violência, mas ao nos apresentar o ponto de vista de uma pessoa inocente. De alguém que não entende aquilo que está acontecendo. A autora nos coloca diante de uma situação difícil e mostra ainda a difícil adaptação do pequeno Jack depois que eles retornam ao mundo.


Jack é um pequeno menino que acaba de fazer cinco anos. Ele vive junto de sua mãe em um pequeno quarto onde desde que nasceu representa o seu universo. Ali dentro eles cantam, dançam, brincam, assistem televisão. Eventualmente um homem chamado Velho Nick traz a comida e um presente aos domingos. À noite Jack dorme dentro de um armário e não entende o que o Velho Nick faz com sua mãe. Ouve apenas os rangidos da cama e o abrir e fechar da porta. Com o tempo vamos percebendo que Jack e sua mãe são vítimas de uma prisão domiciliar e que a mãe foi sequestrada há sete anos pelo homem da casa que a estupra regularmente. Ela aceita sua prisão de forma a poder cuidar de seu pequeno filho enquanto tem a esperança de que um dia ela possa sair de seu cativeiro.

"A Dora é um desenho na TV, mas é minha amiga real, isso é confuso. O Jipe é real de verdade, posso sentir com os dedos. O Super-Homem é só televisão. As árvores são da TV, mas a Planta é real, ih, esqueci de regar. Peguei ela na Cômoda e carreguei até a Pia e fiz isso na mesma hora. Gostaria de saber se ela comeu o pedaço de peixe da Mãe."

A narrativa em primeira pessoa é fantástica. Porque ela consegue refletir com precisão como um menino dá significado ao lugar que ele tem como seu universo. Mesmo coisas simples como uma bola de papel ou uma teira de aranha ganham importância para ele. Hábitos absurdos como as frequentes violências cometidas pelo Velho Nick se tornam o cotidiano. Com o menino crescendo, o quarto vai se tornando pequeno à medida em que sua mãe vai precisando explicar o inexplicável. A mãe tenta dar uma noção de normalidade à vida do jovem Jack, mas o "tecida da realidade" vai se desfazendo. Jack consegue enxergar os furos no raciocínio de sua mãe até porque percebemos de cara o quanto ele é inteligente.

O que o leitor vai se deparando é com os silêncios e as ausências. Como Jack é muito pequeno para ligar os pontos, é o leitor que vai tendo esse trabalho. O narrador não é confiável porque ele é ingênuo e inocente. O não dito é cruel e violento. Nesse ponto o narrador não confiável é preciso. Essa é até uma ferramenta curiosa já que no sistema da não confiabilidade, as informações podem ser falsas. Quarto me fez lembrar muito de Nossos Dias Infintos, da autora Claire Fuller. Onde vemos uma situação semelhante em que um pai leva sua filha para um lugar remoto longe de sua mãe. Ao chegar lá, ele cria um engodo para a jovem menina e passa a ter uma vida completamente estranha e alheia ao resto do mundo. Nesse sentido, ambos são narradores não confiáveis porque não possuem dados suficientes para decodificar o mundo. E a Emma Donoghue foi muito feliz ao transportar isso mesmo para a forma como Jack escreve.


Saindo da Caverna


Eventualmente Jack e sua mãe saem do cativeiro. É um pouco de spoiler, mas considero importante tocar nesse tema porque a narrativa tem um antes e um depois. Depois que ambos saem do quarto (que lembra demais o mito da caverna de Platão) eles encontram um mundo maior à espera. Para Jack o mundo é tao grande que se torna difícil para entender como as coisas funcionam e se relacionam. Depois que ele conseguiu organizar e decodificar toda a sua realidade no quarto, ele se vê precisando refazer tudo. Caminhas se torna difícil porque existem mil obstáculos fora do quarto. Jack descobre que existem muito mais pessoas além dele, de sua mãe e do Velho Nick. Ele imaginava que os canais da televisão eram planetas onde seres estranhos viviam. Agora, todas as pessoas são estranhas. A maneira como ele interpretava as coisas era muito literal... subitamente ele se vê precisando entender o que as pessoas querem dizer a ele. Em alguns momentos Jack está tao sobrepujado por tudo o que o cerca que ele deseja a segurança do cativeiro novamente. No fundo, o menino sabe que não é certo, mas aquele é todo o mundo que ele conheceu.


Superar o trauma do cativeiro vai ser muito mais difícil do que parece. Jack tem dificuldades no sentido da linguagem e da comunicação. Sua mãe tem dificuldades por conta de todo o trauma que ela sofreu. Não se trata de uma síndrome de Estocolmo, mas de toda a raiva e a tristeza represada ao longo de anos. É como se ela tivesse ligado o botão da sobrevivência enquanto esteve no quarto e, agora, todos esses sentimentos tivessem voltado à tona. Pior ainda é ter que lidar com cuidar do Jack mesmo estando desequilibrada emocionalmente. Não é spoiler algum imaginar que ele é filho de seu agressor. A mãe conseguiu desvincular a imagem do menino da pessoa que a estuprava. Vamos vendo outros segredos sendo levados à tona à medida em que a narrativa vai se passando.

" - Eu ando estragando tudo. Sei que você precisa que eu seja sua mãe, mas também estou tendo que me lembrar de como é ser eu, ao mesmo tempo, e é..."

Os personagens criados por Emma Donoghue são marcantes. Ela consegue criar empatia do leitor diante de uma situação extrema. A doçura de Jack é de fazer derramar lágrimas dos nossos olhos. Ele é esperto e curioso demais e essa maneira de encarar o mundo nos conquista a cada parágrafo. A relação entre ele e sua mãe é linda e cruel ao mesmo tempo. Ambos dependem um do outro para sobreviver em um mundo difícil. Nenhum dos dois conseguiria sobreviver sozinho. Quando o mundo se abre, surge a necessidade de que agora ambos precisam buscar seu lugar no mundo. É preciso se separar para depois nascer uma nova união, uma nova aliança surgida não mais da violência, mas do amor um pelo outro.

"Quando o Velho Nick fez a Cama ranger, escutei e contei de cinco em cinco nos dedos, hoje foram duzentos e dezessete rangidos. Sempre tento de contar até ele fazer aquele som engasgado e parar. Não sei o que podia acontecer se eu não contasse, porque sempre conto."

Quarto é uma leitura difícil pela leveza como Jack entende as coisas. O leitor é arrebatado pelas impressões da criança e conduzido por um quarto onde toda uma vida aconteceu. A mente criativa de uma criança acaba por nos mostrar toda a crueldade de uma pessoa adulta. Se podemos dizer que existe mais um tema no final da narrativa é a superação dos problemas. Tanto mãe como filho precisam aprender a superar seus próprios obstáculos.


Ficha Técnica:


Nome: Quarto

Autora: Emma Donoghue

Editora: Verus

Gênero: Thriller/Drama

Tradutora: Vera Ribeiro

Número de Páginas: 350

Ano de Publicação: 2011


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