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Resenha: "Quando o Mal Tem um Nome" de Glau Kemp

Atualizado: 6 de jun. de 2019

Donavan. Um nome que representa o mal. Vamos acompanhar como uma criança pode trazer a maldade em seu rastro, destruindo a vida de todos aqueles envolvidos com ele. Uma história intensa onde a maldade pode se encontrar em um olhar inocente. 

Sinopse:


“Sinto medo. O tipo de medo que persegue até a presença de outras pessoas. Segue até a luz e entra nas cobertas. Não está debaixo da cama ou dentro armário. Está em minha pele e tem um nome. Não pergunte. Não descubra. Nunca saiba o nome do seu medo, ou irá chamá-lo... Seus lábios podem estar selados, mas sua mente repetirá: Donavan... Donavan... Donavan.”

Na Aparecida dos anos 70, uma cidade erguida no centro de um milagre, conhecemos a história de Marta e sua filha Clara. De sua terra cultivada por fé a malignidade cresce no coração de uma mãe devota. As orações que a padroeira não atende são feitas agora para eles: anjos caídos. Ela não deveria saber o nome do demônio que atendeu sua prece, e a abominação despertada é tão grande que todos vão pagar pelo seu pecado. O mal só precisava que alguém o chamasse pelo nome e agora está entre nós.

"Faça uma oração antes de dormir e deixe a luz acesa. Se vir a fé em seus olhos, talvez vá embora. Mas ele virá” 

— Por que um demônio iria querer vir até à casa de Deus, minha jovem? — Por que o senhor iria até a casa do demônio, padre? — Para levar a luz até ele. — O demônio também tem seus planos.




Ah, os filmes de terror dos anos 70 e 80. Tantas coisas boas foram criadas neste período. O Iluminado, O Bebê de Rosemary, O Exorcista. Coisas boas que acabaram esquecidas em prol de um terror mais "contemporâneo" e modernoso. Por sorte, nem todos os autores do gênero se deixaram levar por essa tendência. Glau Kemp bebe dessas fontes e nos traz aquele tipo de história que te prende pelo clima de tensão e medo no ar. Ela não precisa construir nenhuma ameaça mundial, apenas ameaçar a sua alma com a danação eterna. Isso quando o mal tem um nome. 

Começo comentando a escrita da Glau que me remeteu demais a O Bebê de Rosemary. Os elementos de terror estão presentes ali na forma de uma mulher desejando mais do que o seu quinhão e recebendo em troca um pacto demoníaco. É uma escrita que vai crescendo à medida em que a trama vai avançando. O terror mais físico e imagético vai estar presente mais para o final das duas partes quando as coisas começam a se acelerar e não há mais volta. A narrativa é em terceira pessoa, mas partindo de dois pontos de vista em cada trecho: no primeiro estamos com Marta, uma mãe que tenta a todo custo ter uma filha depois de ter tido dois filhos. Na segunda parte, ficamos ao lado de Maria Clara que precisa lidar com um lar assombrado por fantasmas do passado e do presente. Uma virtude da escrita da Glau é que ela consegue criar o cenário e te fazer ultrapassar a suspensão de descrença. Ou seja, as coisas que ela escreve são possíveis dentro do universo que ela criou. Quando acontecem situações macabras, a gente compra a ideia porque a autora nos guiou até este ponto. 

Porém, eu preciso concordar com várias críticas feitas tanto à escrita como à narrativa (a segunda eu comento mais abaixo). Na escrita, o livro precisa de um carinho editorial. Precisa de uma boa revisão porque em alguns momentos ele é realmente confuso e as frases são truncadas. Às vezes alguns parágrafos ficam bem difíceis de serem compreendidos o que acaba prejudicando o entendimento do que está acontecendo ali. Muitos erros bobos de português (alguns são simples typos) e que não teriam passado se tivesse havido uma revisão. Não dá para tirar os méritos da escrita da autora e provavelmente ela deva ter escrito em um momento inicial de sua carreira como escritora. A gente percebe pela diferença entre as duas partes, pelas construções frasais distintas. Eu torço demais para que a Glau consiga enviar o seu trabalho para passar pelo olhar malvado de um editor para que o material ganhe um banho de loja. É um livro com uma inspiração clássica e que merece ser lido por todos. 

Eu gostei das duas protagonistas da narrativa. Podemos perceber o quanto Marta é uma mulher de seu tempo pelas suas crenças e hábitos. A história é centrada em décadas anteriores da história do Brasil e em Aparecida, em SP. Glau cria bem o clima de cidade do interior ao nos mostrar como é o cotidiano de uma mulher recatada e do lar. O marido também é um homem de seu tempo, com traços abusivos e violentos. Estamos diante de uma família comum que, por conta de um acontecimento transformador, se torna uma família caótica. O lar acaba vindo abaixo a partir de uma sequência de situações que destroem o equilíbrio tênue existente. A partir do nascimento de Maria Clara, Marta se torna uma mulher amargurada por um erro cometido. Ela vai recebendo de volta o que ela fez e acaba pagando por tudo no final. Na minha opinião, essa primeira parte é a melhor do livro e é onde vemos a habilidade da autora de construir um personagem intrigante em um cenário insólito. A gente desenvolve sentimentos mistos por Marta afinal ela não é uma protagonista do qual o leitor vai gostar. Mas, a gente vai querer saber aonde a estrada que ela traça para si vai levar. Desconfiamos a respeito do final que a Glau dá à personagem simplesmente porque ela constrói aquilo. 

Já Maria Clara é uma situação um pouco diferente. Eu achei que houve uma discrepância severa entre a personagem na primeira e na segunda parte. Imaginei que a autora fosse construir uma personagem semelhante ao Damian de A Profecia. E a primeira parte dava essas pistas de que esse seria o caminho. Mas, então ela coloca a nova protagonista dentro de dois ambientes claustrofóbicos: a própria casa e o abrigo feminino. A personagem nos é apresentada como alguém triste e torturado que tenta sobreviver dentro de um ambiente exclusivamente masculino. Os dois homens da casa a exploram e ela tenta buscar a liberdade para si. Mas, a liberdade acaba levando à danação. E a personagem sai de um ambiente masculino para um feminino que é tão horrível quanto. No fundo a segunda parte começa como um drama familiar de uma personagem que luta pela sua identidade e termina em uma espécie de abrigo demoníaco onde o mal toma forma. Achei Maria Clara menos consistente do que sua mãe como protagonista. Enquanto Marta é mais ativa dentro do seu conjunto de "regras", Maria Clara é mais reativa. Provavelmente por conta de sua criação dentro de casa. 

O que podemos ver acima é como se estivéssemos diante de três narrativas distintas. Em uma delas acompanhamos Marta e sua busca por uma filha e as consequências de seu pacto; no segundo momento ficamos diante de Maria Clara, sua relação com sua família e o amor proibido por Henri; e por fim, acompanhamos o calvário de Maria Clara dentro do abrigo e o mal representado por Donavan. Seria possível criar praticamente três livros independentes. Novamente, isso não teria passado pelas mãos de um editor. Faltou coerência e conexão entre as três narrativas. Personagens mudam até de direcionamento durante elas. A gente tem situações de longos saltos temporais em que algumas informações não são ditas, nos deixando confusos. Por exemplo, quando Marta busca a arca de Salomão, temos um corte temporal longo em que não sabemos o que houve com o objeto e se ele solucionou os problemas dela em casa. Podemos apenas deduzir o que aconteceu. A última parte no abrigo é a que mais puxa elementos de terror, mas ao mesmo tempo é a que mais destoa das outras duas partes. Até mesmo a forma de apresentar as cenas e os acontecimentos é diferente, confundindo nossas cabeças. 

De toda forma, Quando o Mal tem um Nome é um bom livro que retira muitas inferências de filmes clássicos de terror. Acabou recebendo muitas críticas negativas de leitores por conta de uma ausência de uma boa revisão. Não é nada para desmerecer o trabalho até porque se formos atentos vamos perceber a qualidade da escrita da autora. Ela pertence a um gênero de escrita de terror que anda em falta. Já adquiri outros trabalhos dela (como em Helloween onde ela tem um conto e Creepypastas) onde ela precisou passar por uma edição mais apurada. Além do que, eu adoro acompanhar o crescimento dos autores à medida em que eles vão aprendendo novos truques e revelando o seu verdadeiro potencial. E essa menina tem muito potencial como escritora. Acompanhem o trabalho dela!


Ficha Técnica:

Nome: Quando o Mal tem um Nome Autora: Glau Kemp Editora: Auto-publicado Gênero: Terror Número de Páginas: 174 Ano de Publicação: 2017

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