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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

Resenha: "Primavera em Tchernobil" de Emmanuel Lepage

Acompanhamos Emmanuel Lepage e outros artistas a uma ida a Tchernobil, uma cidade destruída pelo mais famoso acidente nuclear de nossa era. Esperando encontrar morte e devastação, Lepage encontra a vida e uma nova motivação para enxergar a beleza mesmo nos lugares mais inesperados.


Sinopse:


O mundo seguiu seu curso, mas muitas pessoas ficaram para trás. Descubra o que aconteceu com elas neste documentário em quadrinhos sobre tragédia e morte, pessoas e terra. E sobre o que resta depois de um desastre. 26 de abril de 1986.

O núcleo do reator da usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia, começa a derreter, desencadeando o maior desastre nuclear da História. Enquanto o mundo dormia, uma nuvem carregada de radiação viajou por milhares de quilômetros em todas as direções, contaminando cinco milhões de inocentes. À época, Emmanuel Lepage tinha apenas 19 anos.

Mais de 20 anos depois, em abril de 2008, um grupo de ativistas e artistas visita Tchernóbil a fim de documentar a vida dos sobreviventes da tragédia, que vivem nas terras contaminadas. Enviado para representar paisagens brutais de desastre e a loucura do homem, Emmanuel Lepage se surpreende com a inesperada beleza que encontra naquele inóspito lugar. “Primavera em Tchernóbil” é o resultado do que ele testemunhou.








O acidente da usina nuclear em Chernobyl (vou usar essa escrita porque estou mais acostumado com ela... sei que a HQ usa outra) foi um dos acontecimentos mais marcantes do século XX. Foi um dos vários motivos que levaram ao fim da URSS. A usina construída para ser a mais segura do mundo, produzir uma energia limpa e capaz de mostrar o poder dos soviéticos para o resto do mundo. A mesma usina onde aconteceu um acidente que ceifou vidas no ato do acidente e mais não sei quantas outras depois por exposição à radiação. O local mais próximo à usina se tornou perigoso e as pessoas precisam usar aparelhos de medição diariamente e viver com medo de tudo. Essa é a visão que nós temos do local. Emmanuel Lepage segue até lá com o objetivo de mostrar essa dura realidade, do homem que destruiu o meio ambiente em um cenário pós-apocalíptico. Mas o que ele encontra lá é vida, é natureza, são sorrisos e pessoas vivendo cada dia de uma vez. Em um registro incrível, repleto de cores e formas, Lepage traz para o leitor uma visão única sobre um local que sofreu um dos mais trágicos acidentes causados pelo homem da história.


Se você gosta de quadrinhos ou de arte, compre Primavera em Tchernóbil para ontem. A arte do Lepage é algo de outro mundo. E aqui vale um aviso: Lepage estava passando por um momento difícil na época da produção da HQ porque ele estava com problemas graves nas mãos, o que impedia que ele trabalhasse por muito tempo. Sem mencionar as restrições impostas em Chernobyl aos objetos que eles poderiam portar, o que o limitou a usar carvão, lápis e giz de cera colorida. A gente consegue falar sobre dois ângulos diferentes da arte do Lepage: a que é mais voltada para o preto e branco e as artes coloridas. A que predomina é o preto e branco e ele usa para registrar uma espécie de diário de viagem com os acontecimentos. A maneira como ele emprega perspectiva nas cenas é incrível. Os quadros parecem ganhar vida e movimento para o leitor. Não raros são as splash pages que ele produz com cenas como as das rodovias que eles percorrem ou do cenário circundante. Algumas das cenas reproduzem um ambiente intimidador, parecendo que a morte se revela por toda a parte. Tem um quadro que mostra o esqueleto da usina de Chernobyl com a estrutura que tampa o vazamento que me deixou arrepiado. Ali estava a usina cuja radiação matou milhares de pessoas, e Lepage a representou bem como uma espécie de espectro assustador de uma era passada.


Lepage surpreende também em alguns momentos ao inverter o preto e branco na cena. Como se fosse uma chapa de raios X em que o preto predomina sobre o branco. Os espaços vazios que normalmente são representados pelo branco tem uma inversão com o preto. Também preciso destacar o emprego do cinza que fornece uma terceira cor, mesmo sendo um matiz entre o branco e o preto. Através do cinza, Lepage consegue variar mais nos tons e retículas que ele pode apresentar. Pensem que a HQ é enorme, o que dá um belo destaque para os quadros. Por mais que a quadrinização seja até comum, seguindo quase um modelo franco-belga de apresentação, são as cenas e as cores que chamam a atenção. Nosso foco vai ficar preso em o que Lepage vai trazer para nós na próxima página. Mesmo cenas comuns como um simples jantar, ganham outra perspectiva quando Lepage entrega um sombreamento ou um close no rosto de um personagem. Antes de passar para falar do colorido, preciso mencionar o excelente uso do carvão. Ele fornece um tom melancólico a algumas das páginas. Contudo, a maneira como o carvão preenche a página, sem uma forma definida, funcionando quase como uma névoa para os nossos sentidos, é arrebatadora para o leitor. É como se essas cenas, em específico, nos puxassem de volta para a página.


Só que tem também as cores. E que cores! Elas só começam a aparecer mais pela metade da HQ e elas são a relação de Lepage com o ambiente que o cerca. Ele só começa a usar cores porque sua arte o puxa para representar isso. E até dá para conectar com a história já que ele foi contratado para representar essa Chernobyl devastada, com as pessoas vivendo em situações difíceis. Lepage coloca ironicamente que esperava encontrar um animal de três cabeças e o que ele encontra é vida que encontrou outras formas de existir. Portanto, para Lepage não era mais possível fazer um livro de ilustrações com cenas saídas de um filme de horror. As árvores, os animais, os locais abandonados e retomados pela natureza, as pessoas tocando suas vidas... tudo isso precisava ser representado em cores mais vivas. E elas saltam dos quadros. Se o leitor espera representações cinzentas de um lugar como Chernobyl, ver um verde ou um laranja ou um amarelo claros como o sol é algo até irônico. Tem uma cena de uma região alagada próxima à zona de controle que parece saída de algum filme de ficção científica, mas mesmo assim esbanja aquela sensação de calma e paz.


Não tenho muito o que falar do roteiro porque isso é um diário de viagem. Mas, posso falar de alguns dos temas que mais me tocaram. E um deles é a vontade e o coração de um artista. Lepage foi contratado para ajudar uma ONG a expor ao mundo os problemas do abuso da energia nuclear, principalmente para um país como a França que emprega esse tipo de energia. Só que Lepage não consegue produzir o tipo de material que ele foi contratado para produzir. Se torna um dilema principalmente porque ele teve sua carreira prejudicada por causa dos problemas que atacaram as suas mãos. O dinheiro desse trabalho, que ele precisou esperar algum tempo até conseguir ir até lá, pode fazer falta. É por isso que essa HQ é tão especial: Lepage preferiu sacrificar um ganho certo para desenhar artes que dissessem algo a ele, que dessem luz a uma verdade escondida naquele mundo tão estranho, mas repleto de vida. O que encanta na arte dele é como elas são honestas e verdadeiras. Ok, pode ser que não era isso o que um leitor esperaria ver sobre uma obra a respeito de Chernobyl. Mas, Primavera em Tchernóbil consegue trazer outra faceta desse lugar.


Lepage nos traz também boas informações sociológicas sobre Chernobyl. Como as pessoas precisaram mudar o seu estilo de vida e o quanto elas se tornaram dependentes de um governo que não olha lá com muita atenção para lá. Para quem assistiu a série da HBO sobre os acontecimentos que levaram ao acidente, vai se lembrar das cenas que se passaram em Pripiat, a cidade-modelo construída para ser a glória do socialismo. E ver como a cidade agora são só escombros é impactante. E aí entramos em aspectos mais específicos, como o grupo em que Lepage estava precisava ser aceito pela comunidade onde ele estava, então eles foram obrigados a deixar um pouco da cautela de lado. A ida sem máscara a uma zona de exclusão que é quase como um ritual de aceitação ou de crescimento entre eles. Ou o receio do que se pode comer ou não dentro daquele espaço. Eles estavam em um lugar que se algo caísse no chão em uma área de exclusão, esse objeto estava perdido para sempre. Pegar o objeto seria se expor à radioatividade. O momento quando eles finalmente conseguem se encaixar dentro daquele lugar é incrível. As cenas de conversas, piqueniques, brincadeiras, são de uma beleza singela que toca qualquer leitor.


Essa é uma HQ que vai fazer você refletir sobre motivos bem diferentes do que você imagina em um primeiro momento sobre uma pessoas que visita um local como Chernobyl. Vamos nos pegar pensando sobre qual é o papel social da arte e como um artista precisa seguir os seus instintos. E que nem sempre a criatividade artística vai te entregar aquilo que você espera. E não há o menor problema nisso. Arte é para ser surpreendente, explosiva, conflitante. Tenho certeza que se Lepage tivesse produzido o material que a ONG lhe pediu não estaríamos aqui hoje falando sobre o quanto essa HQ é bela, fascinante e disruptiva. Seria apenas mais um trabalho feito a toque de caixa atendendo a uma demanda. No entanto, o resultado final saiu como uma viagem a um lugar complicado de se entender, mas que em seus cantos escondidos nos revela como a natureza consegue sobreviver e transcender, mesmo quando o homem realiza atos de agressão contra ela. Pensamos também em o quanto a vida precisa ser celebrada mesmo no mais inóspito dos lugares. Primavera em Tchernobil é daquelas HQs que vou guardar no coração.





Ficha Técnica:


Nome: Primavera em Tchernóbil

Autor: Emmanuel Lepage

Editora: Geektopia

Gênero: Não-ficção

Tradutor: Fernando Paz

Número de Páginas: 169

Ano de Publicação: 2020


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