• Paulo Vinicius

Resenha: "Passagem para o Ocidente" de Mohsin Hamid

Atualizado: 20 de Mai de 2019

Nadia e Saeed vivem em um ambiente conturbado pela guerra no Oriente. Apesar de seu romance florescer a cada novo dia, tudo ao seu redor parece estar indo pelos ares. Até que eles ouvem falar de portais capazes de levar a qualquer parte do mundo. E eles vão em busca de uma vida melhor.

Sinopse:


Uma história de amor e de esperança em meio à guerra. Eleito um dos dez melhores livros do ano de 2017 pelo jornal The New York Times e pela revista Time, entre outras publicações. Numa cidade não nomeada, os jovens Saeed e Nadia iniciam um romance constrangido pelas pressões religiosas e sacudido pela crescente violência de uma guerra civil. Quando ouvem rumores da existência de portais clandestinos que levam a outros países, eles resolvem se arriscar numa aventura sem volta. Ao lado dos protagonistas, o leitor é levado aos mais diversos cenários geográficos e humanos, numa jornada vertiginosa e cheia de surpresas. “Uma visão mágica da crise dos refugiados” é como o jornal britânico The Guardian definiu Passagem para o Ocidente. Por sua mistura singular de realismo e fantasia, bem como por sua prosa precisa e contundente, o livro foi um dos finalistas do Man Booker Prize e considerado um dos melhores de 2017 por publicações como o jornal The New York Times e a revista Time.




O que caracteriza a sua terra natal? O lugar onde você nasceu ou o lugar onde você sente em casa? É a partir dessa pergunta que Mohsin Hamid cria uma história de amor em meio à guerra. Um conflito que se estende por vários anos e dos quais muitos dos que vivem às margens do conflito sequer sabem por que ele acontece. Ao mesmo tempo é uma história de amor entre duas pessoas que possuem suas vidas completamente alteradas e sua relação é testada em meio a esse caos. O que aconteceria se não existissem mais fronteiras no mundo? 

Passagem para o Ocidente é um livro curtinho e com uma escrita bem direta. O autor sabe encaixar perfeitamente as palavras uma após a outra criando uma harmonia entre os parágrafos. Sua construção frasal é linda, mesmo quando ele usa períodos extremamente longos. Alguns de seus parágrafos percorrem mais de uma página e só possuem uma única frase. Ao mesmo tempo ele emprega fluxos de pensamento que criam imagens na mente do leitor, construindo pouco a pouco a dinâmica dos sentimentos dos personagens. A história é contada em terceira pessoa, mas partindo do ponto de vista do casal. Ora estamos com Nadia, ora com Saeed. Não se trata de exprimir suas opiniões, mas de ver o mundo através de seus olhos. 

Muitos de vocês vão reclamar alegando que Passagem para o Ocidente não é ficção científica, não representa esse gênero e tantos outros argumentos nesse sentido. E, de fato, a história cai muito mais para o fantástico do que para o futurista, lembrando a tradição latino-americana do realismo mágico. Mas... algumas das histórias do Philip K. Dick também caem nessa ambiguidade. Aquelas que melhor trabalham questões humanas são aquelas que mais fogem dos clichês do gênero. Para mim, as melhores histórias de ficção científica são aquelas que explora a relação do homem com a realidade em que ele vive. E isso Hamid faz brincando. 

A ambientação pode ser dividida em duas metades. Na primeira vemos como é o mundo em que eles vivem. Muito sabiamente, Hamid não dá nome ao lugar onde eles vivem. Você pode usar qualquer país muçulmano do Oriente Médio e construir ali o seu cenário. Neste lugar vemos como a sociedade é bem estrita. Como em vários momentos, Nadia é rebaixada. Logo no começo, Nadia explica que usa o manto negro apenas para mostrar aos homens que ela não está disponível. Já Saeed é um rapaz devoto e de família; observador de sua religião, respeita as tradições, mas possui os seus sonhos de liberdade. Algo que a escrita de Hamid faz muito bem é construir uma falsa sensação de normalidade para em seguida te chocar com uma cena absurda. Em muitos momentos da narrativa eu precisei voltar e ler novamente pensando: "caramba... ele fez isso mesmo". A banalidade como ele aborda a violência das guerras no Oriente Médio é brutal. E é como é. Alguém de quem você gostava na semana seguinte pode ter morrido vítima de um bombardeiro. Quando a violência recrudesce, as pessoas acabam por se tornar animais selvagens. Sem chances de obter uma solução pacífica, tudo se volta para um caos absoluto. Pessoas passam a morrer por motivos bobos. 


Já na segunda metade temos a quebra de paradigmas. Com o surgimento dos portais, as fronteiras desaparecem. E é aí que a história ganha toda uma complexidade. Como ser nacionalista, se um país pode ser habitado por toda uma miscelânea de pessoas. Se uma pessoa pode habitar a casa de outra pessoa do outro lado do mundo apenas abrindo uma porta. As noções acabam ficando borradas. Talvez essa seja a maior dificuldade que Saeed vai sentir mais para o final do livro. Por mais que ele não admita, ele era muito ligado ao seu lugar de origem. Essa confusão sobre qual o seu lugar vai tornar sua convivência com alguém de seu passado algo muito difícil simplesmente porque a pessoa vai lhe recordar de seu lar.

Nadia é um espírito livre. Mesmo precisando se adaptar ao meio em que vive, ela busca a todo custo criar suas pequenas revoluções. Seja fumando seu baseado, seja buscando o alívio de seus problemas em relações instáveis. Ela não está disponível porque ela não quer ser disponível, e esse é o seu direito. Uma mulher que conquistou sua independência em um lugar que não aceita mulheres independentes. O contato que ela tem com Saeed é algo belo. Hamid descreve algumas situações com palavras que se parecem com belos arabescos, como: 

"Nadia ficou observando as feições de Saeed. Naquele momento elas estavam tingidas de vermelho, e ele, apesar da barba, parecia um garoto. Ele lhe pareceu uma estranha espécie de homem. Uma estranhe e atraente espécie de homem."

A relação entre os dois se desenvolve dentro daquele espaço estranho e caótico. Mesmo com toda a loucura ao seu redor, eles se amam e se completam. Mas, quando a dinâmica muda e eles precisam se adaptar a novas formas de vida, tudo muda. Uma das profundas tristezas que senti ao ler esse livro é ver a ascensão e a queda do amor entre os dois. A gente sabe lá na metade do livro o que vai acontecer no final. Não queremos aceitar, mas sabemos que vai acontecer. E a gente torce para que não aconteça. Talvez seja isso o que nos prende à narrativa.

Já Saeed é um rapaz sonhador oriundo de uma linda família. Seus pais são de uma doçura incrível. Por essa razão, o personagem se tornou um bom filho. Com bons valores. Religioso. Não sei como definir o apego dele à religião mesmo quando tudo não faz mais sentido. Posso deduzir que o personagem encara nas suas orações diárias uma forma de ponte que o liga ao seu mundo. Uma passagem de volta ao oriente. Essa vai ser a maior tônica na segunda metade do livro: a falta de sintonia entre o que os dois personagens desejam para si. É o confronto entre duas formas de pensar distintas. 

Para mim, é totalmente compreensível porque esse trabalho foi indicado a várias premiações. Uma escrita poética e crua apresentando um cenário atual demais. Um cenário que vemos todos os dias na televisão. Mas, acima de tudo, uma história de amor entre duas pessoas que descobrem o amor um no outro e precisam batalhar para manter esse amor vivo apesar das adversidades. 


Ficha Técnica:

Nome: Passagem para o Ocidente Autor: Mohsin Hamid Editora: Companhia das Letras Gênero: Ficção Especulativa Tradutor: José Geraldo Couto Número de Páginas: 176 Ano de Publicação: 2018


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*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras


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