• Paulo Vinicius

Resenha: "Os Cem Mil Reinos" (Legado vol. 1) de N.K. Jemisin

Yeine é chamada por seu avô para comparecer no Céu para assumir sua herança. Ela será colocada em um jogo mortal onde apenas um entre três irmãos (ela, Relad e Scimina) irão herdar o trono enquanto os outros podem perecer vítimas do jogo da corte. Sem falar nos deuses que habitam o Céu e são controlados pelos membros de sua família.


Sinopse:


A jovem Yeine é convocada para a majestosa cidade Céu, onde, para sua surpresa, é nomeada herdeira do rei Dekarta Arameri, o avô que jamais conheceu. Antes de seu nascimento, sua mãe abandonou a realeza para viver um grande amor. Deixando para trás também a família, o sobrenome, o legado e, principalmente, as intrigas envolvendo a família Arameri. Deserdada e distante, ela não preparou Yeine para a vida no palácio, que além de abrigar a família mais poderosa dos cem mil reinos, serve de prisão para deuses de verdade.


Yeine não esperava cruzar com os deuses nos corredores do palácio e muito menos que eles tivessem que satisfazer a vontades e caprichos de seus parentes (e rivais) mais poderosos. O trono dos cem mil reinos não é fácil de ser conquistado e Yeine precisa sobreviver em meio a segredos, traições, magia e o interesse dos deuses por ela. Em especial, o mais perigoso de todos, Nahadoth, também conhecido como Senhor da Noite, o primeiro ser vivente do universo.






Em um mundo formado por três deuses, o que acontece quando o excesso de amor acaba causando o desequilíbrio do mundo? Amamos profundamente uma pessoa, mas este sentimento pode rapidamente se transformar em ódio e causar a ruína daqueles que nos cercam. Amor e ódio são sentimentos fortes no espectro de emoções e não é à toa que somos governados por eles. Essa genial narrativa, livro de estreia da autora que viria a se tornar um fenômeno mundial, já mostra algumas fagulhas do talento dela, nos envolvendo em uma narrativa que nos coloca em uma corte onde apesar de todos os problemas envolvendo poder e ambição, se trata bastante de uma história de amor entre três pessoas. E até deuses podem falhar e sentir com intensidade.


Céu é um lugar magnífico governado pelos poderosos Arameri, uma família que é devota de Itempas, o deus-sol. Por conta de uma guerra de deuses no passado, Itempas deixou o controle de todos os deuses (maiores ou menores) sob o comando desta família que foi alçada ao governo absoluto dos reinos. Tendo sido criada entre os darre, Yeine se surpreende ao ser convocada por seu avô, Dekarta, que é o líder dos Arameri, para comparecer em Céu. Lá, ela fica sabendo de sua nomeação como herdeira do trono. Tradicionalmente os herdeiros devem disputar entre si para saber quem é o verdadeiro herdeiro. Tendo tido uma criação entre os selvagens darre, que precisam lutar por sua sobrevivência, Yeine vai precisar provar seu valor em um local onde tudo pode acontecer. Onde deuses caminham entre os homens e recebem ordens dos mesmos. Onde um comando errado a um deus pode significar a ruína de uma nação, a danação eterna ou apenas mais um dia na corte.


"Era uma vez três deuses. O Iluminado Itempas, Senhor do Dia, era aquele enviado pelo destino, pelo Turbilhão, ou por algum projeto indecifrável, para governar. Tudo estava bem até Enefa, a irmã pretensiosa, decidir que queria governar no lugar do Iluminado Itempas. Ela convenceu o irmão deles, Nahadoth, a ajudá-la, e tentaram dar um golpe junto com alguns de seus filhos. Itempas, mais poderoso que os dois irmãos juntos, derrotou-os com facilidade. Ele assassinou Enefa, puniu Nahadoth e os rebeldes, e estabeleceu uma paz ainda maior - pois sem o irmão sombrio e a irmã selvagem para domar, Ele estava livre para trazer a verdadeira luz e a ordem para toda a criação. Mas..."

Tendo conhecido os escritos mais recentes de Jemisin, é revigorante retornar às suas origens e perceber como ela foi evoluindo ao longo do tempo. Não esperem ver a maturidade que ela terá na trilogia Terra Partida aqui, porque ela está tateando o seu espaço. O leitor se dá conta de algumas incongruências, outras coincidências como se a autora tivesse mexendo os seus pauzinhos para que as coisas acontecessem para a sua personagem (o famoso deus ex machina). Ao mesmo tempo ela não se arroga de empregar alguns clichês como o da selvagem que vai conhecer a corte e tenta mudá-la, o amor por aquele sujeito indomável, a adversária temível que não escolhe meios para alcançar seus objetivos. São clichês óbvios, mas a autora constrói em cima deles e nos surpreende com determinadas escolhas inesperadas. Já disse em outras ocasiões que usar clichês não é nenhum pecado, mas sim como você vai empregá-lo. Aí está a diferença entre o autor comum e aquele fora da curva.

A construção de mundo é bem realizada e a autora vai entregando pequenas informações sobre política, economia, história. Aos poucos e dentro da narrativa, apesar de alguns momentos com diálogos expositivos que me incomodaram. Quando a gente percebe que o diálogo só está ali para te oferecer toda uma série de informações que serão debatidas por várias e várias páginas. Com o tempo a autora vai aperfeiçoando isso e em Lua de Sangue ela já não repete isso. Vale destacar que todas as informações sobre os deuses e suas desavenças são importantes para entendermos o contexto geral de suas relações uns com os outros e como foram cair nas mãos dos Arameri. Posso reclamar da forma como os diálogos são construídos, mas não de seu conteúdo já que conhecê-lo é importante para o desenvolvimento da trama. São como pequenas peças de um enorme quebra-cabeças que vão se juntando uma a uma até termos uma visão do todo.


A narrativa acontece em primeira pessoa, pelo ponto de vista da Yeine. Gostei da personagem e, apesar de por vezes ela aparentar ter um aspecto meio bidimensional com a famosa moça ingênua e lutadora que está se colocando contra o mundo, ela vai revelando mais e mais camadas a partir da segunda metade do livro. Quando ela se acostuma com os jogos de corte é que sua personalidade vai aparecendo. Algumas de suas decisões são bobas e sem fundamento, e fico me perguntando se isso foi intencional da parte da autora ou apenas a situação que foi mal equacionada. Digo isso porque isso se repete em várias ocasiões e senti quase como se a personagem acabasse sendo a mola propulsora de uma série de calamidades que ela mesma provocou. Essas situações acontecem pelo menos cinco vezes em toda a narrativa. A autora encontrou uma situação bem curiosa para ajudar na construção de mundo. Vez por outra parece que Yeine está conversando com o leitor, quebrando a quarta parede, tecendo comentários sobre as situações com as quais ela se envolveu ou apresentando algum ponto de uma lenda de sua cultura ou da história dos deuses ou dos Arameri. Isso não atrapalha a história e são subseções bem curtinhas.


"A noite maldormida me puniu no dia seguinte, enquanto tentava me manter bem acordada. O interior da minha cabeça parecia estar cheio de lama congelada. Sentei na beira da cama com os joelhos apertados contra o peiot, olhando pelas janelas para o céu brilhante e límpido do meio-dia pensando: "Eu vou morrer"."

Temos toda a rivalidade acontecendo entre Yeine, Relad e Scimina. Scimina é aquela que é mais proeminente e funciona como a adversária direta de nossa protagonista. Ela usa os deuses como seus servos e suas manipulações deixam a protagonista sem saída em mais de uma vez. Gosto da brutalidade da personagem, mas falta aprofundar mais sua personalidade. Até este momento ela parece bidimensional demais, diferentemente de Relad que mesmo pouco mencionado está sempre presente. É através de Scimina que Yeine tem contato com Nahadoth, um dos três grandes deuses e que fora derrotado por Itempas. Já o avô Dekarta permanece como alguém vingativo que perdeu sua filha Kinneth para um "bárbaro" do norte que a levou para longe. Dekarta representa o real poder desta família astuciosa e suas ordens são absolutas. As poucas situações em que ele agiu foram definitivas. A tensão entre neta e avô são palpáveis.


Não tem como não falarmos dos deuses e Sieh e Nahadoth são os principais. Nahadoth é apresentado como uma força da natureza. O Senhor da Noite é ligado à escuridão, mas esta pode possuir diversos significados. Pode significar a destruição, mas pode também ser a solidão daquele que observa a lua e as estrelas. Através das histórias míticas que temos acesso durante a narrativa começamos a desconfiar que determinados fatos podem não ser verdadeiros. É preciso prestar atenção nas entrelinhas já que a história da Guerra dos Deuses foi contada pelos vencedores, os Arameri. Isso espelha uma velha discussão que temos na atualidade a respeito da verossimilhança de determinados fatos que podem e devem ser ressignificados a partir de diferentes interpretações. Jemisin gosta de trazer estas problemáticas ligadas à cultura negra, e já aqui visualizamos isso. Como não pensar nos deuses deste livro e não se recordar da violência causada aos escravos durante a Idade Moderna? Em um momento em que Nahadoth é chicoteado por Scimina, como não pensar nas punições feitas no pelourinho, nas grandes fazendas de açúcar?


Fiquei um pouco decepcionado de como a Jemisin imaginou um trickster como Sieh, que seria o deus da brincadeira, da troça, da enganação. Infelizmente ele foi infantilizado e sua função no livro é servir como elemento de ligação entre Yeine e os demais deuses. Ele se afeiçoa rápido demais à personagem e isso me preocupou como aquela conveniência que citei lá no começo. Entretanto seu arco narrativo é interessante e fornece uma estranha possibilidade de triângulo amoroso entre ele, Yeine e Nahadoth. Não sei aonde isso vai levar, mas queria ver Sieh mais divino.


Este primeiro livro da autora nos apresenta muitas das qualidades que a tornarão conhecida em suas futuras séries. Não é o melhor livro dela, muito pelo contrário. Mas, uma Jemisin iniciante consegue produzir um texto melhor do que vários autores que vemos no mercado. Ela consegue usar bem os clichês narrativos a seu favor, e surpreende em determinadas decisões para a história. Algumas conveniências existem, mas o texto possui tamanha qualidade que podemos olhar para o lado e apenas nos divertir com a história. Não quero entrar em grandes detalhes, mas a segunda metade desse livro é explosiva e passa em uma velocidade frenética.











Ficha Técnica:


Nome: Os Cem Mil Reinos

Autora: N.K. Jemisin

Série: Legado vol. 1

Editora: Galera Record

Tradutora: Ana Cristina Rodrigues

Número de Páginas: 378

Ano de Publicação: 2021


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