• Paulo Vinicius

Resenha: "Opus" de Satoshi Kon

Uma obra magistral de um mestre da narrativa mostrando um mangaka tentando finalizar o seu trabalho. Frente às dificuldades impostas por editores e público, o protagonista acaba sugado para dentro de seu próprio trabalho. Ali, ele é praticamente deus. Mas, será que deus poderá resolver todos os problemas dos personagens de sua história?

Sinopse:


Um autor de mangá vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando um de seus personagens se rebela e o faz entrar na ficção recheada de perigos que ele mesmo criou! (Sinopse do vol. 1)


Ao entrar no mundo de “Resonance”, o autor descobre que a sua criação está em risco! O “máscara” continua à espreita em busca de mais poder, e todos entrarão em uma espiral de lembranças e viagens no tempo para tentar salvar o mangá! (Sinopse do vol. 2)




Mais uma resenha de um mangá escrito por uma lenda dos mangás japoneses. Para quem não conhece o nome Satoshi Kon, certamente já deve ter ouvido falar de obras como Perfect Blue e Millenium Actress. Obras que lidam com metalinguagem, que rompem a quarta parede, se comunicando de alguma forma com o espectador/leitor. Opus é justamente isso: uma obra tratando da narrativa do mangá, das pressões por trás de uma publicação. Uma pena que o autor tenha falecido antes de finalizar essa obra brilhante. 

Antes de falar da criatividade de Satoshi Kon, não posso deixar de comentar sobre a edição. Depois de ter lido obras tão bem tratadas como O Homem que Passeia, Nonnonba, Metropolis e Guardiões do Louvre (que está chegando em minhas mãos), é lamentável que uma lenda dos mangás seja publicado no Brasil dessa forma. Entendo o que a Panini tentou fazer ao produzir uma edição barata e acessível; só discordo veementemente. Aquele que vai comprar Opus tem um conhecimento mínimo sobre a importância do autor. Ou seja, o mangá dificilmente será absorvido pelo grande público. Colocar em produção uma obra com papel jornal, capa cartonada de gramatura fina e sem sequer um extra sobre o autor ou sua importância para o Japão é lamentável. Por essa razão é que eu tirei um pouco da avaliação de Opus. Não posso concordar jamais com isso. Sinceramente? Torço para a Panini reavaliar a maneira como publica mangás mais cults ou que não publique mais Satoshi Kon e deixe a uma editora mais cuidadosa como a Mino, a Devir ou o Pipoca e Nanquim. 

Quando você se depara com o que Satoshi Kon faz nas páginas de Opus, é impossível não ficar estupefato com a criatividade dele. A escrita é completamente metalinguistica, com o autor mesclando realidade e ficção. O autor do mangá funciona como uma espécie de deus da narrativa e ele interage diretamente com o que acontece na sua obra. Ele cria rachaduras, refaz objetos e até pessoas. A escrita segue esse padrão de leitura dentro da leitura e o curioso é que o autor faz críticas ao próprio mercado editorial japonês. O primeiro volume tem um aspecto de história de super-heróis com poderes psíquicos. Muita ação, perseguições e explosões por toda a parte. Já o segundo volume adota uma postura mais dark, com serial killer, assassinatos. Cada volume é distinto um do outro ao mesmo tempo em que são complementares. Só é triste que o autor não tenha conseguido terminar. Ele dá indicações de que teria uma série de ideias sensacionais para a continuidade do mangá. Mas, como a revista em que ele foi publicado decidiu pelo cancelamento do mesmo, o final é feito um pouco às pressas. 

"Foi para isso que pessoas morreram? Ver o meu sofrimento e a infelicidade das pessoas é tão divertido assim? Acha que eu sou um pierrô?"

O traço do Kon é bastante variável e isso atende às necessidades da sua trama. Ora, ele é mais rebuscado com uma preocupação com o aspecto dos personagens e o fundo, ora ele é mais simples, quase rascunhado. Há uma preocupação forte de Kon em conferir emoção aos personagens: o espanto no rosto de Satoko, a confusão nos olhos esbugalhados de Nagai ou o estilo vilanesco do Máscara. Todos eles são muito expressivos o que ajuda ao leitor se importar com o que está acontecendo. Já os cenários também são bem trabalhados. Kon tem uma excelente noção de perspectiva e usa bons truques de cinza e preto para preencher. Agora, sem dúvida nenhuma o que mais surpreende são os truques de metalinguagem que ele usa espalhados pelos dois volumes: cenas que se racham como vidro, cenários não acabados que são bidimensionais e podem ser derrubados como dominós ou até os personagens entrando e saindo dos quadrinhos. É sensacional isso. Tem uma cena no final do volume 1 em que Nagai se vê diante de todas páginas voando em leque e ele tentando escalar as páginas para tentar fugir de algo (não vou contar ou é spoiler rsrsrsrs). 

Existem várias temáticas trabalhadas no mangá, mas vou comentar apenas duas e deixar o resto com os leitores. Afinal, esta é a graça de um mangá do Satoshi Kon. Ao longo da narrativa somos colocados diante da vontade dos editores ao publicar um mangá. Este mundo que parece mágico para nós, mas é um inferno aos mangakas que precisam cumprir prazos, atender às expectativas dos leitores e fazer o mangá vender. Em Opus, vemos como Nagai precisa alterar os rumos da narrativa para agradar os fãs e manter o mangá nos pontos de venda. Para isso, ele faz escolhas bizarras que nem sempre condizem com os personagens. Prova disso são os buracos existentes na sua narrativa. É muito interessante a fala que eu citei acima feita por Satoko para Nagai. Ela entende seu criador como um deus louco, não se importando com os personagens. E, de fato, isso só acontece por conta das mudanças editoriais feitas pelos editores e pelo próprio mangaka. Algo extremamente divertido de ler acontece no início em que Nagai repreende os seus assistentes por estarem se preocupando demais com os cenários de fundo. Nagai diz que no começo todos se preocupam com os detalhes, mas à medida em que os prazos vão apertando isso acaba sendo deixado de lado. O pior é que isso é verdade!!

Outro tema muito curioso é o da predestinação. Estamos predestinados a fazer algo ou podemos mudar nosso destino? Ver a luta dos personagens do mangá para mudar aquilo que estava acontecendo a eles nos dá uma agonia tremenda. De alguma forma, o destino sempre acaba oferecendo alguma saída para "consertar" a situação. Seriam os personagens da narrativa, pierrôs de fato? Ou eles podem realmente se comunicar com o seu criador e dizerem o que querem fazer? No começo Nagai é caprichoso e só se importa em arrumar alguma forma de sair daquele mundo louco. Mas, com a convivência com Lin, Satoko, Mei e os outros ele começa a perceber que aqueles personagens são vivos e tem vontade própria. Curiosamente (e sem ser no final alternativo que aparece no último capítulo do mangá), Satoshi Kon aparece rapidamente em uma cena. O que o autor do mangá quer passar é que existe um deus que controla o deus. Uma metalinguagem em duas camadas. Ou seja, tudo o que Nagai estava realizando fazia parte de uma narrativa maior colocada por alguém além dele. Gostei bastante dessa abordagem sobre controlar o destino, ou mudá-lo através da pura força de vontade. Isso dá margem a várias interpretações. 

Opus é um mangá de extrema criatividade repleto de camadas que se escondem nas entrelinhas. Satoshi Kon nos apresenta algo que critica a estrutura editorial vigente nos dias de hoje ao mesmo tempo em que nos coloca a refletir sobre o que fazemos de nossas próprias vidas. Estamos reféns de um deus louco que nos manipula ou podemos alterar nossos destinos? Espero poder ver mais obras deste autor sensacional chegando no Brasil. 



OBS: Coloco a culpa desta nota mais baixa para um clássico de um autor como o Satoshi Kon inteiramente no tratamento dado pela Panini ao mangá.


Ficha Técnica:

Nome: Opus (volumes 1 e 2) Autor: Satoshi Kon Editora: Panini Gênero: Fantasia/Metanarrativa Tradutora: Dirce Miyamura Número de Páginas: 196 (no primeiro volume) e 178 (no segundo volume) Ano de Publicação: 2017 (os dois volumes)


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