• Amanda Barreiro

Resenha: "O Timbre" (Scythe vol. 3), de Neal Shusterman

A aguardada conclusão da trilogia e das narrativas da Ceifa precisa lidar com o emaranhado de situações criadas até então, mas se prova muito mais grandiosa do que o leitor poderia esperar.

Sinopse:


A humanidade alcançou um mundo ideal, em que não há fome, doenças, guerras, miséria… nem mesmo a morte. Mas, mesmo com todo o esforço da inteligência artificial da Nimbo-Cúmulo, parece que alguns problemas humanos, como a corrupção e a sede de poder, são igualmente imortais. Desde que o ceifador Goddard começou a ganhar seguidores da nova ordem, entusiastas do prazer de matar, a Nimbo-Cúmulo decidiu se silenciar, deixando o mundo cada vez mais de volta às mãos dos humanos.


Depois de três anos desde que Citra e Rowan desapareceram e Perdura afundou, parece que não existe mais nada no caminho de Goddard rumo à dominação absoluta da Ceifa — e do mundo. Mas reverberações da Grande Ressonância ainda estremecem o planeta, e uma pergunta permanece: será que sobrou alguém capaz de detê-lo?


A resposta talvez esteja na nova e misteriosa tríade de tonistas: o Tom, o Timbre e a Trovoada.


O Timbre


Aviso: Contém spoilers dos livros anteriores.


A trajetória da trilogia até aqui, quando paramos para refletir, foi uma verdadeira loucura: diferentes plots foram explorados, vários personagens acrescentados aqui e ali, alguns ganhando muita importância, enquanto outros só eram mencionados por alguma ocasião em específico. Lá pelo segundo volume, Nuvem, esses "desvios" no caminho começaram a parecer um pouco confusos, toda a ênfase dada à Nimbo-Cúmulo e os plot twists envolvendo a Ceifa acabaram afastando muito o foco dos dois protagonistas originais, a ceifadora Anastasia (Citra) e Rowan.


O final de Nuvem, no entanto, foi extremamente impactante e deixou uma expectativa enorme a ser atendida pelo último livro: afinal, o que aconteceu com Rowan e Anastasia? É nesse ponto que Neal Shusterman mostra seu talento como escritor, costurando a história por capítulos a fio, pacientemente, e, quando o leitor menos espera, lá está a bomba prestes a explodir, sorrateira e decididamente. O melhor de tudo: sem deixar uma ponta solta sequer.


A imagem mostra um rapaz com sangue escorrendo do rosto, coberto por um manto negro e segurando uma foice. Ele representa o personagem Rowan.
Rowan Damisch, arte de NanFe.

Mas, falando agora do Timbre, havia uma grande tensão a ser resolvida logo de cara, além de outras tantas adjacentes criadas ao longo da trilogia. Tudo isso para ser resolvido em um único livro, como aquele último capítulo da novela que precisa dar conta de meses de conflitos. E foi exatamente o que o autor fez. Já frisei esse aspecto nas resenhas dos dois volumes anteriores, mas é impossível começar a falar do Timbre sem ressaltar novamente a escrita impressionante do Neal Shusterman.


Poucos autores conseguiriam fazer o malabarismo feito por Shusterman com tantos personagens, situações e plots sem se embaraçar na própria narrativa. É realmente incrível como o autor relacionou pequenos detalhes de cada trecho da trilogia em seu master plan criativo. Até mesmo a parte que parecia mais irrelevante ganhou alguma função, de forma que resta ao leitor assistir esse descortinar apreciando como os cliques e insights provocados por Shusterman afetaram o resultado final. Em suma, a escrita é impecável e absolutamente viciante.


"Uma boa mentira não depende do mentiroso, depende da disposição do ouvinte em acreditar".

E já que puxei os personagens para a conversa, é importante dizer que, mesmo com uma grande quantidade de personagens na trilogia, todos são muito bem construídos. Até mesmo o insano Goddard, inicialmente apenas mais um vilão caricato, ganha maior background, se assemelhando muito a um certo presidente lunático do cenário norte-americano. O livro não é politizado, mas o autor deixa claras suas críticas à selvageria da humanidade e à insustentabilidade do modelo econômico mundial, e, naturalmente, às lideranças mundiais que assumem posturas predatórias.


"A grandiosidade é superestimada".

Anastasia e Rowan, apesar de serem as estrelas da história e de seus papéis fundamentais no desenrolar dos eventos, aparecem sem o destaque absoluto que costuma ser reservado aos protagonistas - uma surpresa, mas que se revelou uma boa estratégia. A partir de certo momento, passamos a ansiar por capítulos dedicados à Nimbo-Cúmulo ou ao Ceifador Faraday com a mesma intensidade que queremos saber de Anastasia e Rowan. Tudo, afinal, está conectado. Aliás, penso que a Nimbo-Cúmulo foi, provavelmente, a melhor personagem de Shusterman, com uma evolução impressionante, além de suscitar algumas reflexões sobre IAs e os limites da humanidade.


Para amarrar a minha análise, destaco ainda o poder do Timbre enquanto história. Neal Shusterman ousa com críticas precisas à humanidade, sim, mas sem jamais perder a leveza e um certo tom irônico. Lembrando que a trilogia tem como público-alvo os jovens e é importante pensar em como a história contribui para a formação de leitores mais críticos e atentos a uma realidade doentia, e também a pensar em soluções para que não acabemos como seres imortais e entediados que praticam o suicídio por esporte e que, de tão dessensibilizados pelas centenas de anos vividos, não passam de máquinas de consumo e destruição.


Shusterman faz esse alerta desde O Ceifador, desenvolvendo uma narrativa que pode ser pensada como mais do que um entretenimento, um livro muito bom de ser lido. A trilogia é, em verdade, uma ótima e necessária reflexão em tempos de humanidades tão desumanas e tão dependentes das máquinas e das facilidades trazidas pela constante exploração de recursos humanos e materiais. De quebra, o leitor ganha uma trilogia digna de ser lida e relida com a garantia de várias horas de imersão em uma história sobretudo engenhosa, divertida e sagaz.


O Timbre prova que uma história pode ser enxuta, dispensando grandes sagas e calhamaços, mantendo-se firme a um final bem amarrado e calculado. Cada desvio de Shusterman, na verdade, mostrou-se uma nova passagem entre as narrativas; ao final, todas as passagens convergiam para o mesmo ponto. Se essa não é uma das melhores conclusões que já li, então nem sei o que é!










Ficha técnica:


Título: O Timbre

Autor: Neal Shusterman

Série: Scythe vol. 3

Editora: Seguinte

Páginas: 560

Ano de lançamento (no Brasil): 2020


Livro cedido em parceria com a editora Cia. das Letras.