• Paulo Vinicius

Resenha: "O rio que passou em minha vida" de Renan Bernardo

Neia vive em um dente-de-leão no espaço após conseguir ser sorteada em uma loteria para sair de uma Terra devastada pelo aquecimento global. Mas, sua vida não tem dado muito certo e apenas o contato com sua ex-aluna Aline a mantém animada. Ao buscar um trabalho como guia para Rebeca, uma caçadora de relíquias, ela consegue voltar a um Rio de Janeiro muito diferente.


Sinopse:


O nível dos oceanos segue subindo e os mais ricos foram, literalmente, para o espaço — ou, mais precisamente, para estações espaciais ao redor da Terra. É em uma dessas estações que mora Néia, 63 anos, ex-professora de Matemática que atualmente vive de bicos para sobreviver. Mas é no Rio de Janeiro que ficou seu coração, e ela precisa de um emprego bom para visitar o planeta. É em Rebeca Soares que ela aposta suas fichas: a caçadora de relíquias, herdeira de sonhos e fortuna, traça planos em um Rio de Janeiro devastado pela ascensão do mar, e precisa de alguém que conheça o território. As duas não poderiam ser mais diferentes, mas vão precisar trabalhar juntas para percorrer os canais do Rio atrás de um artefato histórico e de reconciliações com o passado — isso se elas conseguirem evitar as armadilhas no trajeto...






Preservar a História é uma preocupação que vem há gerações após nos darmos conta do quanto perdemos sobre algumas culturas do passado. A necessidade de expor objetos antigos, múmias, relíquias em museus para que as pessoas possam conhecer tais culturas e se maravilhar com o que o homem foi capaz de criar em tempos idos. Mas, sempre me vem à mente a obsessão acumulativa de Napoleão Bonaparte e seus sucessores que roubaram inúmeros objetos do Egito ou até da obsessão nazista com uma origem divina que provocou o furto de obras raras de várias partes do mundo. O quanto a preservação do passado é um mero detalhe, um objetivo estético e o quanto é uma preocupação autêntica? Essa linha fina nem sempre é clara e passa por egos e vaidades. Nessa obra escrita por Renan Bernardo ficamos diante de uma pessoa cuja riqueza foi calcada justamente na busca por essas relíquias, mas que se esqueceu do principal: as pessoas.


Estamos diante de um futuro na Terra afetada pelo aquecimento global. O nível dos oceanos subiu e as cidades costeiras nunca mais foram as mesmas. O clima aumentou, deixando um calor bastante desagradável para os seres humanos que buscaram refúgio em estações espaciais como se fossem pequenas redomas onde eles podem sobreviver. Só que esses espaços possuem vagas limitadas e nem todos podem ser agraciados. Resta àqueles que ficaram para trás lidar com um planeta em ebulição, uma vida difícil e muitas necessidades. Neia é uma pessoas que trabalhou a vida toda como professora de matemática e mesmo com uma vida difícil teve a sorte de ter seu número sorteado em uma loteria que escolhia algumas pessoas irem para um dente-de-leão. Para ela, alguém nascida no calorento bairro de Bangu (e que se tornou ainda mais infernal com o tempo) foi a oportunidade de receber aquilo que merecia após tantos anos. Mas, isso significou abandonar seus alunos para trás, uma escolha que a persegue até hoje. Ela conseguiu manter contato com Aline, uma ex-aluna a qual ela adotou quase como parte da família, mas esta ainda mora na Terra, algo que dói em seu coração. Neia decide ir atrás de Rebeca, uma menininha rica dona de um canal online onde ela expõe seus achados e resgates do antigo Rio de Janeiro. Rebeca é filha de um grande caçador de relíquias do passado, responsável por levar o Cristo Redentor para o espaço. Uma volta à Terra significa muito para Neia, principalmente a possibilidade de rever Aline. Mas, ela vai encontrar um lar muito diferente daquele que ela deixou.


Renan escreve um bom romance cli-fi, pegando o tema do aquecimento global e o desenvolvendo de uma forma que traga algumas boas discussões. Para quem pensa que a narrativa fica apenas na questão climática, está bem enganado. O livro trata de família, de abandono, de escolhas. Como se trata de uma novella, não há espaço para se ater a detalhes do cenário, sendo que o autor fez a feliz escolha de concentrar seus esforços na história. Ele entrega algumas informações aqui ou ali, mas isso não é o essencial de sua narrativa. Esta se encontra nas figuras de Neia, Rebeca e Aline. A narrativa tem vários trechos descritivos, o que é normal em se tratando de um cli-fi, tendo uma narração em primeira pessoa onde a protagonista reflete bastante sobre sua vida e suas escolhas. Um truque divertido que vi o autor usar foi criar expressões matemáticas com sentidos metafóricos/figurativos a partir da segunda metade da trama. Achei que quando o autor optou por usar essas expressões, a história ganhou riqueza e personalidade. Mas, isso destoou um pouco da primeira metade onde ele usa menos. A gente pode argumentar que a segunda metade é quando Neia volta à sua persona professora de matemática, mas me incomodou um pouco a ausência. É como lembrar de colocar tempero na comida apenas depois de ter comido a metade; você deseja ter lembrado do tempero antes.


É interessante perceber como cada uma das personagens da narrativa espelha uma temática que Renan quis trazer para a história. No caso de Neia, é a questão da família e de suas escolhas. Neia optou por ir ao espaço e ter uma vida mais confortável. Mas, isso a colocou em conflito com seu amor por seus alunos. Ela tem total ciência de que se tratou de uma escolha egoísta, mas sabe que gostaria de levar pelo menos Aline junto com ela, alguém que é como se fosse uma filha. Ao retornar para a Terra, esses sentimentos de arrependimento são jogados em sua cara um a um e ela acaba assumindo sua postura como professora. É engraçado como uma simples mentira pode colocar abaixo toda a estrutura de suas certezas. Isso acontece quando ela se dá conta de que nem tudo estava bem. Mesmo fugindo de seus sentimentos o máximo que ela poderia, estes voltam a ela e cobram dela uma nova escolha. Neia precisa pesar na balança se vale a pena jogar a sua estabilidade fora para ajudar aqueles que ela deixou para trás.


Já Rebeca é a filha do grande caçador de relíquias. Ela não gosta de ser lembrada disso e nem gosta da alcunha de caçadora de relíquias. Sua missão é resgatar alguns objetos e levá-los ao espaço, assim como seu pai fez no passado. Levar a história para as pessoas, para que eles tenham um mínimo de normalidade. Mas o quanto disso é simples ego? Ela não estaria roubando os objetos de seu lugar original? Será que seu objetivo humanitário não passa de uma concentração da cultura nas mãos de poucos? Rebeca vai se dando conta pouco a pouco de o quanto o planeta é diferente do que lhe foi contado e em nada se parece com os livros. As pessoas lutam pelo seu pão diário enquanto outras pessoas apenas vivem bem. Rebeca assume a posição do opressor, daquele que veio apenas pilhar e saquear. Tem um momento da história em que elas entram em um prédio devastado e a porta de um apartamento está aberta. Ao chegar lá, a personagem se depara com uma série de livros deixados no local por aquele que ali mora. Seu primeiro pensamento é levar tais livros embora já que ela não concebe que o morador possa ser capaz de apreciar verdadeiramente o seu valor. Um pensamento elitista, para dizer o mínimo.


Sem falar na desigualdade social entre aqueles que vivem nos dentes-de-leão e os que ficaram para trás. A Terra agora é um planeta aquecido e as cidades costeiras submergiram em grande parte. Viver se tornou uma batalha diária. Os que vivem no espaço possuem uma vida um pouco melhor, embora tenham também seus dilemas. Só que o ato de deixar companheiros para trás e criar um ambiente apenas para os privilegiados demonstra o quanto nossa cultura visa limitar o acesso aos serviços de bem-estar social. Vamos descobrindo que as vagas para ir ao espaço também estão em disputa, repetindo situações que vemos nos dias de hoje. O rio que passou em minha vida é um livro que vai falar destes e de outros assuntos, nos apresentando uma história para pensarmos no que estamos fazendo com nosso mundo nos dias de hoje. O quanto a família e aqueles que amamos são importantes para nossos corações. E o quanto a História pode ser opressora, se viramos a moeda de sua função social.











Ficha Técnica:


Nome: O rio que passou em minha vida

Autor: Renan Bernardo

Editora: Dame Blanche

Número de Páginas: 78

Ano de Publicação: 2021


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*Material enviado em parceria com a editora Dame Blanche














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