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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

Resenha: "O Quebra Nozes" de Alexandre Dumas/E.T.A. Hoffman

A Editora Jorge Zahar trouxe para nós duas versões da famosa história do Quebra Nozes e da Noz Krakatuk. Neste natal, vamos viver a magia do amor e da coragem nesta linda história que nos encanta há gerações.


Sinopse:


É véspera de Natal. Marie se encanta, dentre todos os presentes, por um quebra-nozes em formato de boneco. Ela acomoda o novo amigo no armário de brinquedos – mas, à meia-noite, ouve estranhos ruídos. Aterrorizada, vê seu padrinho, o inventor Drosselmeier, sinistramente acocorado sobre o relógio de parede, e um exército de camundongos invadindo a sala, comandado por um rei de sete cabeças! Contra eles, os brinquedos saem do armário e põem-se em formação. Têm uma grande batalha pela frente, sob as ordens do Quebra-Nozes...

Entre o sonho e a realidade, Marie viverá histórias maravilhosas e estranhas, de reinos, feitiços e delícias. Histórias em que o inusitado padrinho tem um papel especial, e nas quais só pode embarcar quem tem os olhos e o coração preparados. Você tem?

Esta edição inclui as duas variantes da história: a versão original de E.T.A. Hoffmann e a clássica de Alexandre Dumas – que popularizou a história e inspirou o famoso balé de Tchaikovsky –, com tradução de André Telles (do francês) e Luís S. Krausz (do alemão). Traz ainda apresentação da pesquisadora e especialista em contos de fadas Priscila Mana Vaz e mais de 200 ilustrações de época. A versão impressa apresenta capa dura e o acabamento de luxo característico da coleção Clássicos Zahar.




A Magia e o Fantástico no Natal


Algumas histórias conseguem perdurar por gerações. Seu alcance se estende muito além da vida do autor. A história do Quebra Nozes já chegou até nós em muitos formatos. Aliás, julgo quase impossível algum de nós já não termos visto alguma de suas versões. Seja uma animação da Disney, um especial de natal de uma TV aberta, uma imagem de uma exibição de balé ou de teatro. Imaginar que ela foi concebida por um autor que geralmente escrevia narrativas sombrias ou de terror é algo chocante. A Jorge Zahar nos traz em um formato super luxuoso a versão original da história escrita por E.T.A. Hoffman e a versão que ficou mais famosa, um pouco mais leve, escrita por Alexandre Dumas. E logo de cara é impossível não comparar as duas versões.


Olhem essa versão da Disney, por exemplo: (deixo aqui enquanto o link estiver funcionando)



Passando rapidamente pela história, ela se passa em uma noite de Natal (e alguns dias depois) em que Marie e Fritz (e Lucie na versão de Hoffman) estão ansiosos para saber o que vão ganhar de Natal. Entre surpresas e desapontamentos, o senhor Drosselmeier chega até a casa deles, levando alguns brinquedos dos quais Fritz não se empolga muito. Mas, enquanto Fritz desdenha dos presentes do senhor Drosselmeier, Marie enxerga um pequeno boneco na estante de seus pais. Esse boneco desperta sua atenção. Quando chega a noite e todos se retiram para dormir, Marie vai se despedir do Quebra Nozes e aí a magia acontece: ele começa a se mover e perseguir alguns camundongos que infestam o quarto da família. O Quebra Nozes pede a ajuda de seus colegas brinquedos que o obedecem como a um general e aí a guerra tem início. Depois de uma louca e confusa noite, o senhor Drosselmeier conta a história da princesa Pirlipat, do Quebra-Nozes e da Noz Krakatuk. Mas, para isto vocês terão que mergulhar nessa fantástica aventura.


Começando a falar pelo original, Hoffman tem uma escrita bem mais sombria do conto. Isso aparece nas descrições e na maneira como ele conduz a narrativa. Marie parece ser uma menina mais solitária nessa narrativa com a família não lhe dando tanta atenção assim. Alguns momentos da guerra entre brinquedos e camundongos também é bem violenta. Por ser um escritor de narrativas mais voltadas para o suspense e o terror, Hoffman causa apreensão no leitor. Não é aquela história mais bonitinha e mágica, algo que vamos ver mais na versão de Dumas. Aqui ele ressalta a importância da coragem e da persistência diante das adversidades. A escrita de Hoffman tem um pouco mais de peso com algumas construções frasais sendo mais pesadas. Embora curta, a narrativa de Hoffman parece ser muito maior devido a essa maneira de conduzir a narrativa. Outra coisa curiosa é que os capítulos da história são mais curtos. Teoricamente isso se dava para dinamizar a narrativa. Mas, Hoffman não emprega os ganchos narrativos. Ele se foca mais em finalizar uma cena.




A versão de Dumas é muito mais amigável e reconhecível. Aliás, a Zahar optou por colocar esta versão mais moderna primeiro e no final a de Hoffman. Entendo que teoricamente seria o inverso a fim de comparação e ordem cronológica, mas a decisão foi acertada. Isso porque apesar de Dumas ser mais prolixo (sua versão tem quase duzentas páginas nesta edição de bolso enquanto que a de Hoffman tem pouco mais de 100), a narrativa nos faz conhecermos melhor os personagens e suas motivações. Nesse ponto Dumas é um mestre construtor de personagens, visto em Os Três Mosqueteiros, por exemplo. Ele trabalha mais a relação de briga fraternal entre os irmãos, que os tornam mais reais. Quem não tem um irmão chato ou uma irmã enjoada com a qual se identificar? Fritz é um menino louco por exército e bonecos enquanto Marie é o protótipo das protagonistas de contos de fadas: inocente, ingênua e virginal. Claro que isso cai no clichê do gênero, mas Dumas contorna isso com uma narrativa dinâmica e que não deixa tempo para respirarmos. Mesmo um capítulo longo como o da história do Quebra-Nozes parece passar voando por nós. O final tem aquele quê de mágico e fantástico ao mesmo tempo. Embora seja exatamente igual ao de Hoffman, é a condução de Dumas que se destaca.


Vale apontar alguns fatos históricos sobre o Natal que são bem curiosos (e muito bem comentados no texto de abertura do livro). O Natal alemão e o francês se diferem em alguns pequenos detalhes: na França os presentes só são distribuídos no dia 04 de janeiro enquanto que no alemão é na véspera de Natal (algo que acabamos adotando). Outro ponto curioso é a total ausência de Santa Klaus, o Papai Noel. Quem trazia os presentes para as crianças era o Menino Jesus que avaliava se as crianças tinham ou não se comportado ao longo do ano. É preciso lembrar que a ideia do Papai Noel é algo do século XX, criado para transformar o Natal em algo diferente da ideia original da reunião da família e confraternização. Hoje temos uma visão muito mais capitalista das festividades. Outro elemento bem curioso é o quanto os bonecos de infantaria e cavalaria faziam parte da infância dos meninos. É quase como se fosse incutido na criança o desejo de integrar o exército desde cedo. Percebemos isso em várias falas de Fritz.


Podemos dividir as versões de Dumas e Hoffman em três atos: a guerra, a história do Quebra-Nozes e a exploração de outro mundo. Num primeiro momento, os autores nos apresentam os personagens e o que se passa na noite de Natal. A família é apresentada (mais na versão de Dumas), depois segue a chegada do senhor Drosselmeier e por fim a batalha mágica. Hoffman é mais sucinto nesse primeiro momento já que a ideia principal de sua narrativa é mostrar como Marie vai conseguir quebrar a maldição do boneco. Já Dumas prefere se focar mais no próprio Quebra-Nozes ressaltando sua coragem e sua paciência diante de tudo aquilo que lhe aconteceu. Só a partir desse pequeno detalhe, a história toma rumos diferentes nas duas versões. Tanto é que vai ser a história do Quebra-Nozes o fiel da balança comparativa. Dumas gasta mais de 40 páginas só contando tudo o que aconteceu ao senhor Drosselmeier e ao astrólogo que partem em uma aventura para encontrar a noz Krakatuk. Cada momento de sua aventura é contado pelo narrador, enquanto Hoffman apenas passa direto por isso.



A última parte é semelhante, mas distinta em alguns pontos nas duas versões. Autores dos séculos XVIII e XIX gostavam de histórias que levavam os personagens a loucas utopias com situações maravilhosas ocorrendo por toda a parte. Vejam por exemplo A Utopia de Thomas More (apesar de ser anterior) ou O Mundo Resplandecente (de Margaret Cavendish). Então não é estranho ver um autor brincar com lugares com rios de suco de laranja em que as pessoas gritam Confeiteiro!! quando querem chamar alguém. A exploração serve para tirar Marie de seu lugar-comum e fazê-la se decidir o que fazer a seguir. Alguns podem até argumentar que passar por esse mundo mágico é uma espécie de ritual de amadurecimento para a personagem já que ela acaba tendo uma mudança em sua vida após isso.


Amo histórias de natal, e esta data representa muito para mim. Procuro sempre resgatar o verdadeiro sentido da festividade com a reunião de família, a fraternidade entre amigos e a magia das coisas que acontecem quando viramos a página. O Quebra-Nozes é mais uma destas histórias essenciais e, por mais velha e ultrapassada que ela seja, a narrativa é um clássico. E um clássico imortal que vai continuar a ser pensado e repensado ao longo de muitos séculos que ainda virão. Convido a todos para viverem a magia do natal lendo Dumas e Hoffman ou qualquer uma das duas versões.



Ficha Técnica:


Nome: O Quebra-Nozes

Autor: Alexandre Dumas (uma versão)/E.T.A. Hoffman (versão original)

Editora: Jorge Zahar

Gênero: Fantasia

Tradutora: Priscila Mana Vaz

Número de Páginas: 344

Ano de Publicação: 2018


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