• Paulo Vinicius

Resenha: "O Proscrito e a Rainha" (O Proscrito e a Rainha vol. 1) de Sarah Ibrahim

Na aurora dos tempos, Dumuzi é um deus taciturno e deixado de lado pelos outros do panteão. Após muito tempo buscando o amor, ele encontra em Inanna o motivo para sua existência. Mas, muito acontecerá entre os deuses antigos: amor, inveja, raiva, alegria. Nos acompanhe até a aurora dos tempos.

Sinopse:


Apresentando uma das histórias de amor mais antigas do mundo, "O Proscrito e a Rainha" conta o amor de Inanna e Dumuzi, dois deuses da antiga mitologia babilônica, bem como as histórias dos demais deuses que faziam parte do mesmo panteão.

Num mundo ainda recente, por construir, ambos têm suas paixões e desejos, seus defeitos e qualidades, testados de várias formas. Neste primeiro volume, Dumuzi é um rebelde, o qual tem a chance de se redimir de seus antigos erros ao viver uma vida tranquila ao lado da esposa que escolheu. Será ele capaz?




Histórias mitológicas são sempre confusas e repleta de detalhes que nem sempre somos capazes de captar. Escrever um romance baseado em elementos da mitologia já criou inúmeros sucessos comerciais como Percy Jackson ou Thor. Mas, estas histórias são baseadas em mitos nórdicos ou greco-romanos que chegaram até nós em maior quantidade. Quando comecei a ler O Proscrito e A Rainha me assustei com a opção da autora em trabalhar com mitos da Mesopotâmia. Porque não são mitos muito conhecidos então dependendo da forma como ela apresentasse o enredo poderia não agradar a todos. Mesmo assim, acho que o resultado foi positivo embora eu tenha algumas ressalvas.

A escrita da autora é em terceira pessoa e ela buscou emular a apresentação mítica das histórias. Aquela narrativa mais afastada e pausada, apresentando o mundo como uma espécie de brinquedo dos deuses. Alguns podem dizer que se trata de um estilo mais afastado do leitor, mas basta vocês pegarem uma coletânea de mitos gregos ou uma edda nórdica para perceber como a Sarah conseguiu passar a mesma sensação. É algo bem complexo de fazer. Ao mesmo tempo achei a opção bem arriscada também. Porque estamos em uma época em que os leitores preferem uma história mais dinâmica e compassada. E como a autora preferiu manter a fidelidade a um estilo, isso acabou não sendo possível. O que começou como algo inovador e interessante, se tornou mais cansativo para o final. Acho até que a história poderia ser apresentada no formato de novellas. Digo isso porque dessa maneira a autora poderia separar melhor as tramas. Por exemplo: o amor de Inanna e Dumuzi, Marduk e a capa, etc. Os personagens se manteriam, mas a escrita seria mais dinamizada e evitaria os problemas narrativos que eu vou apontar mais abaixo.

Entretanto, vale ressaltar a ousadia da autora em se arriscar. E eu acho que mais autores deveriam procurar essas temáticas mais diferenciadas. Escrever uma alta fantasia no estilo tolkieniano se tornou algo chato, por enquanto. Dezenas de títulos chegam mensalmente com essa mesma proposta. A menos que o autor apresente algo realmente inovador, compro a ideia da Sarah a qualquer hora.

Os dois protagonistas são personagens realmente bem trabalhados. A autora humanizou bastante os deuses, mostrando seus problemas e dilemas. Inanna é uma personagem feminina muito forte e decidida e em determinado momento ela chega a governar os domínios de Dumuzi. Em nenhum momento vemos aquele tipo de personagem feminina submissa e subserviente, aguardando o príncipe encantado. Para algumas situações da trama ela chega a ser astuta e mordaz como quando precisou lidar com os outros deuses se apresentando como esposa de Dumuzi. Já o protagonista masculina é apresentado em sua força e suas falhas. Ele cresce conforme a história vai se desenrolando e vemos que ele mudou completamente as suas características psicológicas e emocionais no final da história. Isso por conta de seu contato com Inanna que o fez perceber o mundo através de outros olhos.

Eu só não entendi a mudança de protagonista no terço final da história. O súbito protagonismo do Marduk no final me deixou um pouco confuso porque a autora não me preparou para essa transição. E isso em um momento em que a relação entre Inanna e Dumuzi tinha alcançado uma estabilidade e eu pensei: "uhmmm, agora ela vai aprontar alguma para o casal". E, no entanto, temos os dois atuando como antagonistas para a história de Marduk. Pensei até que havíamos chegado a um outro livro ou a um outro corte na narrativa, mas tal não aconteceu. O que pode ser feito para realizar essa transição é a autora criar um ou dois capítulos extras apresentando o Marduk para os leitores. Dessa forma ele assumiria o protagonismo daquele ponto em diante.

O tema principal do romance é o amor. E como o amor nos faz mudar a nossa perspectiva sobre o mundo. Embora eu ache que Dumuzi colheu o que semeou. Somente Inanna foi capaz de fazer Dumuzi perceber o erro de suas ações. Amar é aproximar e não afastar; não é jogar uma mensagem em uma garrafa e esperar com uma carranca e braços cruzados. É preciso estar aberto a novas emoções. E o mais curioso é que Dumuzi demorou a perceber o quanto Inanna gostava dele. Ele manteve o seu coração fechado e por isso não se sentia digno do amor de Inanna.

Aliás, aviso aos navegantes: tem várias cenas picantes ao longo da trama. Aqueles que não gostarem, recomendo ou não ler as cenas ou passar adiante. Isso acontece por uma opção da autora e ela se manteve bastante fiel aos mitos mesopotâmicos. Eles são repletos de sensualidade e de elementos ligados à fertilidade. Mais um ponto a favor da autora.

Entretanto, como coloquei acima, achei a narrativa muito arrastada da metade para a frente. Por conta do estilo mitológico, algumas cenas demoram a acontecer e a resolução de certos subplots na trama acaba se dando de uma maneira não satisfatória para o leitor. Algumas das tramas que eu mais gostei foram quando Dumuzi é preso e posteriormente o roubo do cinturão. O leitor começa empolgado lendo a história, mas esta emoção acaba fenecendo aos poucos. Acho que faria bem à história mesclar um pouco do estilo Young Adult no encadeamento das palavras ou na composição dos capítulos. Capítulos menores ou até ganchos interessantes para que o leitor possa continuar a leitura. O que eu senti também foi que a autora optou por uma narrativa episódica fazendo com que cada capítulo. Ou seja, acontecem fatos em cada capítulo que podem ou não se fechar no mesmo capítulo. Acho que tirando alguns acontecimentos principais, a maioria se encerra dessa forma.

Para quem busca uma narrativa mitológica que se passa em um contexto diferente, O Proscrito e a Rainha vai te surpreender. Trabalhando os mitos da Mesopotâmia, a autora surpreende com uma escrita estilosa emulando as narrativas antigas. Os personagens são muito cativantes e o leitor acaba se apaixonando e torcendo por eles. Vale destacar também a coragem e a ousadia da autora em sair do lugar comum dos livros de fantasia. Entretanto, existem alguns pontos mais problemáticos como a súbita mudança de protagonista e uma narrativa que termina mais cansativa. Mas, nada que estrague a diversão e a curiosidade do leitor. Muito recomendado! Aqueles que não gostam de cenas hot, eu sugiro que tenham cuidado porque existem algumas espalhadas pela trama. Nada vulgar ou estranho, tendo as cenas um toque de sensualidade e sentimento muito bacanas.


Ficha Técnica:

Nome: O Proscrito e a Rainha Autora: Sarah Ibrahim Série: O Proscrito e a Rainha vol. 1 Editora: Clube de Autores Gênero: Fantasia/Mitologia Número de Páginas: 191 Ano de Lançamento: 2016


*Material enviado em parceria com a autora


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