• Paulo Vinicius

Resenha: "O Mundo Resplandecente" de Margaret Cavendish

Uma mulher é raptada e seus captores a levam em direção ao ponto mais frio do planeta. Lá ela descobre a passagem para um outro mundo onde animais com forma humana realizam descobertas científicas impressionantes. O Mundo Resplandecente é o resgate de uma obra de ficção científica do século XVII escrito por uma mulher.

Sinopse:


A Plutão Livros volta à proposta de publicar obras desconhecidas pelo público com a primeira edição brasileira de um clássico fundacional da ficção científica.


Nessa história de 1666, a autora explora um mundo alegórico e satírico acessado por um portal mágico no Polo Norte. Diante de seres bizarros que ainda não entendem o verdadeiro significado de ciência e filosofia, Margaret Cavendish não vê remédio senão ensiná-los e tornar-se sua imperatriz. É dessa forma que A descrição de um novo mundo chamado Mundo Resplandecente, texto precursor da ficção científica contemporânea, explora questões como ciência, gênero e poder, incorporando elementos típicos da filosofia utópica e do romance de aventura em uma leitura imprescindível para compreender a mentalidade da época.


Margaret Lucas Cavendish viveu a revolução científica e participou do novo mundo como uma das figuras mais singulares do século XVII: uma mulher que ousou se aventurar pelas esferas masculinas da política, das ciências e das letras. Contemporânea de Newton, Descartes e Leibniz, Cavendish transforma uma viagem fantástica por uma terra estranha habitada por animais falantes em um desafio para a imaginação e o pensamento contemporâneos.




Uma mulher quebrando barreiras


Ler uma obra escrita em outro período é sempre um desafio. Isso porque envolve outro contexto e outra forma de escrita. Sabemos a dificuldade que alguns leitores possuem ao ver o quanto Frankenstein ou Drácula são obras complicadas e eruditas. Mary Shelley e Bram Stoker pertenciam ao século XIX onde os valores eram outros, o que interferia na forma como as ideias eram colocadas para o papel. Mas, imagine se aumentarmos essa distância entre o leitor e o autor? Margaret Cavendish foi uma inglesa nascida em 1623 e que teve uma vida bem peculiar. A Duquesa de Newcastle conseguiu realizar um feito inédito: fazer parte da Sociedade de Ciências na Grã-Bretanha do século XVII, tendo escrito sua obra O Mundo Resplandecente em 1666. Certamente essa obra vai apresentar desafios a vários leitores, mas vai revelar muito sobre o período no qual foi escrita.


Cavendish nos presenteia com um romance de exploração, ou seja, uma narrativa em que tudo serve para explicar conceitos e ideias através de um mundo fantasioso e/ou utópico. Se tivermos que comparar O Mundo Resplandecente (se é que é possível, dada a peculiaridade do romance), podemos compará-lo à Utopia, de Thomas More (escrito em 1516) e Cândido ou o Otimismo, de Voltaire (escrito em 1679). Através da leitura dessas obras, somos instigados a pensar e refletir sobre determinados temas em voga no período. Em O Mundo Resplandecente, Cavendish se depara com temas como a filosofia natural, a natureza dos espíritos, a explicação racional dos fatos e até a forma ideal de Estado. Analisando historicamente, Cavendish claramente prenuncia a chegada dos ideais iluministas que estarão no foco das grandes tensões do século XVIII; Não nos esqueçamos que ideias como as da autora fizeram parte da cartilha de homens como o Barão de Montesquieu e de Jean-Jacques Rousseau, mentores intelectuais da Revolução Francesa. Claro que Cavendish ainda vai ter os dois pés na sociedade do Antigo Regime, mas as críticas que ela faz à sociedade da época nos mostram como os intelectuais já estavam mais agressivos do que outrora.

"O desejo natural pelo conhecimento - responderam - não é condenável, desde que você não vá além do que sua razão natural pode compreender."

A facilidade com a qual ela discute temas científicos é espantosa. Os diálogos que ela tem sobre espíritos e religião despertam muito a nossa atenção. Revelam como a mentalidade europeia mudava de uma base cristã para algo mais científico. Os embates que ela tem com os homens-animais nos mostram pessoas em busca de respostas para anseios internos. Ela ainda tenta buscar uma explicação para as auras e os miasmas, que se acreditavam ser os espíritos que ainda não haviam conseguido alcançar os céus. Não será estranho a autora colocar no meio da história espíritos possuindo corpos humanos para poder trafegar livremente em nosso mundo (até mais de um espírito habitando um corpo). Segundo o que podemos perceber, os corpos físicos são apenas veículos para que os corpos possam habitar nessa realidade. Cavendish ainda não consegue explicar exatamente o que se sucede com os homens após a morte.



Em busca de respostas


"[...] a maior felicidade em todos os mundos consiste na moderação."

É notável o quanto podemos retirar da escrita da autora. Por exemplo, sabemos perfeitamente que forma de governo e religião não são coisas que ela pretenda mexer no atual estado de coisas. Ao chegar no mundo resplandecente, ela é coroada imperatriz e adota uma postura até tirânica ao mudar a cultura dos povos que ali viviam. Ao não concordar com suas crenças e ideias, ela passa a uma postura de civilizá-los e retirá-los da barbárie. Postura essa que se assemelha à colonização do Novo Mundo. A protagonista deseja adequá-los e torná-los homens de bem. Algo que eu percebi na narrativa é uma das velhas obsessões dos europeus: a busca por Eldorado. Na narrativa, a capital do mundo resplandecente é feito de ouro e outras pedras preciosas. Quando ela retorna ao seu mundo natal na segunda parte da trama, leva navios feitos de ouro. Eldorado era uma mítica cidade que ficaria na Amazônia e teria sido descoberta por exploradores espanhóis que subiram até a nascente do rio Amazonas. Mas, a cidade nunca foi descoberta. Desde o século XVI, Eldorado se tornara uma obsessão e sempre esteve nos relatos dos mais diversos exploradores.


Apesar de Cavendish estar na vanguarda da ciência e das ideias sociais, ela não entende outra forma de governo além da monarquia absolutista. A protagonista tem uma postura liberal, incitando o diálogo e a discussão dos mais diversos assuntos, mas ela é quem possui a palavra final em tudo. A autora não emprega esse discurso, mas podemos deduzir que a imperatriz do mundo resplandecente ainda se arroga o direito divino dos reis. Sua vontade é onipotente e seus pensamentos são infalíveis. A única pessoa capaz de julgá-la é Deus (mesmo ela não usando essa justificativa em nenhum momento). Mas, os indícios estão presentes.

"[...] é da natureza que muito ouro e grande reserva de riqueza faz os indivíduos loucos. Tanto que se esforçam para destruir uns aos outros por causa de ouro e riqueza."

Contudo, a autora manifesta a quebra de confiança entre os intelectuais e a Igreja. Como era já algo que se manifestava nos discursos de intelectuais do período, ciência e religião iniciavam um longo processo de afastamento. Nas discussões de Cavendish percebemos que a autora busca explicações racionais para a religião. Algo que vai levar longas audiências entre os homens-animais e a imperatriz. E percebemos o quanto a autora precisa dar voltas muitas vezes para não encontrar explicação alguma. Seus argumentos são por vezes exóticos, como a posição do sol e da lua no céu e sua relação com a criação divina. Isso sem mencionar a situação dos espíritos, que de cristão tinha bem pouco.

O leitor e o estudioso


Essa é uma obra bem difícil de se resenhar. Isso porque eu, historiador, entendo a importância do que a Plutão Livros fez ao nos trazer esse título tão importante para a ficção científica em sua raiz como para os estudos de literatura de época. Ao mesmo tempo, o eu, leitor, não curtiu a leitura. É uma narrativa chata e tortuosa que não vai agradar a todos os leitores. Isso porque a obra é uma sequência de diálogos sobre filosofia natural, estado e religião. Como narrativa, deixa muito a desejar. Como representação de ideias, é fenomenal. Por essa razão, a minha avaliação vai ser tão estranha. Me peguei refletindo sobre a narrativa e eu precisava avaliar de alguma forma. Mas, como este é um blog sobre impressões de leitura e não sobre pesquisa social, o resultado vai ser o que vocês verão abaixo. Isso em nada tira o mérito da editora e eu tenho certeza de que O Mundo Resplandecente vai ser alvo de inúmeras pesquisas literárias e históricas ao longo dos anos que virão.


A tradução está excelente, e com várias notas de apoio. Nesse sentido não temos do que reclamar. Tudo é compreensível e as dúvidas são rapidamente sanadas através das notas da tradutora. A edição em ebook está muito boa mesmo e conta com um prólogo da tradutora, a pesquisadora Milene Cristina da Silva Baldo que traça um perfil da autora e sua importância para o século XVII como pioneira entre seus pares.


Nota: 5 estrelas pela importância histórica.




Ficha Técnica:


Nome: O Mundo Resplandecente

Autora: Margaret Cavendish

Editora: Plutão Livros

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Milene Cristina da Silva Baldo

Número de Páginas: 150

Ano de Publicação: 2019


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