• Paulo Vinicius

Resenha: "O Menino Que Desenhava Monstros" de Keith Donohue

Às vezes o terror pode estar presente no lugar onde você menos espera. Esta é a história de um menino com muita imaginação e um desejo de vingança. J.P. gosta de desenhar monstros. E ele desconfia que os seus monstros podem estar se tornando reais.



Sinopse: Um livro para fazer você fechar as cortinas e conferir se não há nada embaixo da cama antes de dormir. O Menino que Desenhava Monstros ganhará uma adaptação para os cinemas, dirigida por ninguém menos que James Wan, o diretor de Jogos Mortais e Invocação do Mal.

Jack Peter é um garoto de 10 anos com síndrome de Asperger que quase se afogou no mar três anos antes. Desde então, ele só sai de casa para ir ao médico. Jack está convencido de que há de monstros embaixo de sua cama e à espreita em cada canto. Certo dia, acaba agredindo a mãe sem querer, ao achar que ela era um dos monstros que habitavam seus sonhos. Ela, por sua vez, sente cada vez mais medo do filho e tenta buscar ajuda, mas o marido acha que é só uma fase e que isso tudo vai passar. Não demora muito até que o pai de Jack também comece a ver coisas estranhas. Uma aparição que surge onde quer que ele olhe. Sua esposa passa a ouvir sons que vêm do oceano e parecem forçar a entrada de sua casa. Enquanto as pessoas ao redor de Jack são assombradas pelo que acham que estão vendo, os monstros que Jack desenha em seu caderno começam a se tornar reais e podem estar relacionados a grandes tragédias que ocorreram na região. Padres são chamados, histórias são contadas, janelas batem.


E os monstros parecem se aproximar cada vez mais. Na superfície, O Menino que Desenhava Monstros é uma história sobre pais fazendo o melhor para criar um filho com certo grau de autismo, mas é também uma história sobre fantasmas, monstros, mistérios e um passado ainda mais assustador. O romance de Keith Donohue é um thriller psicológico que mistura fantasia e realidade para surpreender o leitor do início ao fim ao evocar o clima das histórias de terror japonesas.




Quando lemos uma história de terror, sempre esperamos que aquele homem sinistro ou aquela mulher que foi maltratada revelem o seu lado obscuro. Raramente desconfiamos de uma criança inocente. Mas, às vezes, a inocência pode esconder um lado sombrio desconhecido até mesmo pelos adultos. Keith Donohue vai explorar esse lado obscuro em uma família que luta para cuidar de um filho

Jack Peter é um menino solitário que sofre de síndrome de Asperger. Ou seja, ele não consegue se relacionar de maneira normal com as pessoas. Após um momento de sua vida em que ele quase se afogou, J.P. desenvolveu ainda agorafobia, ou seja, o medo de espaços abertos. Ele agora só consegue viver dentro de casa. Para sair é preciso muito esforço dos pais mesmo para fazer as coisas mais bobas como ir ao médico. Para cuidar de seu filho, Tim abandona o emprego (já que sua esposa Holly ganha mais do que ele) e passa a se dedicar integralmente a ele. Isso vai começar a criar uma série de problemas na relação entre seus pais. O único amigo que resta na vida de J.P. é Nick que vai visitá-lo e fazer companhia a ele quase todos os dias. Nos últimos tempos, o menino começa a desenvolver um estranho gosto por desenhos. Mas, estranhos acontecimentos despertam a curiosidade de Nick que parece ser o único que percebe nos desenhos de J.P. uma relação com os ossos encontrados na praia, um estranho homem de branco que parece vagar pela costa. Será que J.P. está desenhando monstros que ganham vida? Ou a explicação é algo muito mais assustador?

De cara eu gostaria de aplaudir o esforço do autor em criar um protagonista tão interessante e multifacetado. Donohue poderia ter caído no estereótipo de criar um garoto retardado. E não foi isso o que ele fez. J.P. tem Asperger e o autor representa de uma maneira respeitosa as dificuldades que o menino vive. Os capítulos narrados pelo menino são muito interessantes porque acabamos enxergando o mundo pelos olhos de um autista. Todas as nuances de sua visão de mundo estão presentes na descrição das cenas, na interação com as pessoas e na interpretação dos acontecimentos. Uma das frases mais interessantes do livro é J.P. escutando a conversa dos pais sobre mandá-lo para longe. "Eles pensam que eu não estou ouvindo". Essa frase foi um soco no estômago. Muitas vezes, aqueles que cuidam de jovens com algum tipo de deficiência mental acreditam que eles não compreendem aquilo que está acontecendo ao seu redor. E sim, eles entendem perfeitamente. Tudo o que vai acontecer a seguir se resume a esse momento de fraqueza dos pais. Toda a confusão e as situações a seguir são originadas pela falta de compreensão dos pais em relação à situação dos filhos.


"Eles comeram como se estivessem famintos, entregando-se ao desejo, como se o simples ato de comer fosse sinistro, enquanto algo verdadeiramente sinistro estava ali fora, do outro lado da porta." 

E aí eu passo para o segundo ponto. A maneira como o autor apresenta a relação dos pais é perfeita. O ambiente familiar não é propício para o desenvolvimento de J.P. Criar uma criança com Asperger não é algo fácil e exige muita dedicação dos pais. Somado à questão da agorafobia tudo se complica ainda mais. Os pais são apresentados como jovens que curtiam a vida até terem J.P. Eles se casaram, mas não amadureceram o suficiente. Holly tem questões religiosas não resolvidas e Tim esconde um segredo que ele pensa que a esposa não sabe. Quando a condição de J.P. se agrava o ambiente familiar fica insuportável. O filho se torna um fardo que os pais não sabem como cuidar. Infelizmente os pais acabam encontrando no desenho uma válvula de escape. Deixar o menino desenhando é uma forma de os pais poderem ter alguns momentos para si. Mas, isto não é uma solução; é fugir do problema. As situações só vão se resolver quando os pais percebem que precisam atacar o problema de frente. E quando eles entenderem que era necessário mudar de abordagem.

O elemento sobrenatural da trama é muito interessante. Aliás, o autor me deu uma boa rasteira. Ele conduz o enredo de uma maneira que você acredita que a situação X é a responsável pelos acontecimentos da história quando não é. Muitas vezes a explicação mais correta é aquela que é a mais simples. E o autor nos conduz pelo caminho errado até os dois últimos capítulos da história. Adorei!! Se formos perceber em retrospecto os acontecimentos até aqueles capítulos finais, vamos perceber que realmente faz sentido. O que complica um pouco a conclusão é o fato de que existe um espaço de tempo entre o acontecimento e os desenhos de J.P. Essa parte não ficou bem explicada de como aquilo sobreviveu até o início do processo. Foi o único furo de enredo que eu achei.




Porém, eu não consegui me engajar totalmente na história. Por essa razão eu não dei mais corujas. Senti que faltou alguma coisa. Compreendo que a ambientação precisava ser claustrofóbico para trabalhar toda a questão do isolamento, mas não sei explicar o que faltou. Talvez seja apenas implicância da minha parte, mas, por exemplo, O Cemitério de Stephen King, foi mais visceral para mim. O momento "há-há" do final não teve o mesmo impacto que o bebê maligno de King em O Cemitério.

A explicação para isso possa estar na maneira como o autor usa o fator do medo. Donohue emprega um medo sensorial, algo que afeta os nossos sentidos. Percebam que as descrições dele estão repletas de elementos visuais, auditivos ou de tato. O autor explora ao máximo o leitor trazendo-o para o seu mundo. Nós olhamos pelos olhos de Tim, ouvimos através dos ouvidos de Holly e sentimos junto com J.P. O tato é explorado através dos desenhos, ou seja, a maneira como o menino enxerga o mundo é manejada através de seus desenhos. Os monstros são os demônios e os medos que existem no coração da criança: o medo de perder seu amigo Nick, o medo de ser abandonado pelos pais, o medo de ser obrigado a sair. À medida em que os desenhos vão se materializando mais e mais, as formas e contornos vão se tornando cada vez mais reais e o autor acaba abandonando a exploração dos sentidos para nos apresentar elementos mais palpáveis.

A narração é feita em primeira pessoa e é interessante como o elemento do gelo interage diretamente com a estrutura narrativa. Mais de 70% da história se passa com os personagens enxergando o mundo de maneira isolada. Tirando J.P. que está sempre ao lado de Nick, Tim e Holly são sempre apresentados durante uma caminhada, uma ida à Igreja ou um momento próximo à praia. A neve e o gelo servem para isolá-los ainda mais um do outro. Esta é a perfeita imagem de como se encontra a relação entre os dois. Tim prefere pensar mais nos momentos junto com Nell do que com Holly. O sol só se abre quando os dois finalmente chegam a uma compreensão de que são importantes um para o outro.

O livro é muito bom e produz alguns momentos realmente assustadores. A edição da DarkSide está lindíssima com uma capa melhor que o da edição americana e a folha de guarda apresentando desenhos relacionados aos que J.P. faz. Outro destaque vão para as páginas em branco no final do livro para os leitores desenharem seus monstros. Ótima sacada da editora e reforça mais uma vez o cuidado destinado às edições dos livros. A história contribui bastante também para agradar ao leitor e eu espero que a editora traga mais coisas do Donohue que possui somente mais um outro livro publicado no Brasil (A Criança Roubada, que também será resenhado por nós).




Ficha Técnica:


Nome: O Menino Que Desenhava Monstros

Autor: Keith Donohue

Editora: DarkSide Books

Gênero: Terror

Tradutora: Cláudia Guimarães

Número de Páginas: 256

Ano de Publicação: 2016


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