• Paulo Vinicius

Resenha: "O Homem Sonha a Máquina" (Requiem vol. 2) de Lidia Zuin

Após os eventos de Dies Irae, Lynx reencontra o homem misterioso do primeiro volume da série. Juntos eles vão investigar a morte de três pessoas e sua ligações com estranhos grafites hindus misteriosos.

Atenção: tem spoilers do primeiro volume.



Sinopse:


Num mundo hedonista e cibernético, haverá espaço para os deuses? Os seguidores de um grupo conhecido como tecnognósticos estão sendo assassinados e as únicas pistas são estranhos símbolos. Um velho conhecido de Lynx pede sua ajuda para resolver o mistério. Para a hacker, porém, aquele homem é o verdadeiro enigma.




Okay, Lidia Zuin continua sendo um enigma para mim. Admito. E eu gosto disso. Não vou dizer que acho a série Requiem maravilhosa e que a autora revolucionou o gênero cyberpunk nem nada do gênero. Acho essas hipérboles desnecessárias e acabam mais prejudicando um autor do que ajudando. Uma coisa é certa: ela tem a minha atenção. E continuo com o meu discurso de que as histórias dela me agradam bem mais dos que as histórias do Gibson. Principalmente porque ela vai usar a estética cyberpunk em uma abordagem existencialista, questionando os limites daquilo que entendemos como real. Ou seja, novamente: isso não é Gibson, é Philip K. Dick. Só que de um jeito particular que a autora deu a identidade dela para a narrativa.


Para aqueles que entraram no mundo de Requiem de gaiato, O Homem Sonha a Máquina é um segundo volume de uma série, mas ele se passa após outro conto chamado Dies Irae. Infelizmente terei que dar spoilers do conto por isso coloquei lá em cima que tem spoilers. Lynx se vê completamente perdida depois da morte de Eichi, uma pessoa a quem ela tinha como uma das poucas de sua confiança. Tudo o que ela tem no corpo são algumas roupas e seus velhos apetrechos de hacker. Nada da Lynx high style do primeiro volume. Essa é uma personagem mais decadente, que se meteu com as pessoas erradas e usou as drogas erradas. A experiência extracorpórea que ela teve no primeiro volume que a fez questionar o que é real ou não também mexeu com as suas certezas. Então quando o homem misterioso que ela encontrou no primeiro volume volta à sua vida, no fundo Lynx sabe que as coisas vão ficar agitadas.


Esse segundo volume é mais introspectivo do que o primeiro. Por isso ele mescla elementos investigativos com Lynx e o homem misterioso atrás dos assassinos de tecnognósticos enquanto que ao mesmo tempo a protagonista se questiona se em um mundo de máquinas e cybernet é possível existirem deuses. Ela vai em uma espécie de templo onde símbolos de vários deuses estão quase como que concentrados uns juntos dos outros. Existe uma religião certa? Um deus único? Vários deuses? Um outro mundo? Ao mesmo tempo os assassinos de tecnognósticos parecem obcecados com os preceitos do budismo, questionando o samsara, ou seja, a existência do homem no mundo material.


Para mim, este seria um volume perfeito se não fosse por uma pequena barriga que eu senti no meio do conto. Novamente acho que a Lidia errou um pouco no volume de páginas e de informações passadas. Ou talvez até na forma como essas informações seriam passadas para a Lynx. Não acho que a autora tenha feito info dumping... meu questionamento não é acerca do que, mas do como. Pensando objetivamente se a Lynx tivesse obtido essas informações a partir de diferentes meios, fazendo com que ela tivesse que ir de um lado a outro na cidade, ou precisando invadir alguma deep net, ou alguma outra coisa do gênero, essas informações tivessem sido diluídas e pareceriam menos expositivas do que ficaram. Todo o arcabouço lógico que vai levar ao desfecho é necessário para a protagonista. São como blocos necessários para ela montar o quebra-cabeças; então eles não podiam faltar. O veículo é que poderia ser outro.


Voltei a curtir cyberpunk graças à Lidia Zuin. No ano passado eu já tinha lido Isegún, da Lu Ain Zaila, mas era uma obra que possuía outros tipos de bandeiras e questionamentos. Já aqui a autora escreve um cyberpunk em sua forma clássica (se é que é possível usar esse termo para designar um gênero de vanguarda), mas com uma identidade própria. Por isso ela consegue manter o meu interesse conto após conto após conto. Vou pegar o volume 3 em breve para ver o desfecho da história.










Ficha Técnica:


Nome: O Homem Sonha a Máquina

Autora: Lidia Zuin

Série: Requiem vol. 2

Editora: Draco

Número de Páginas: 40

Ano de Publicação: 2013


Avaliação:

Outros Volumes:

Deus Sonha o Homem (vol. 1)

Dies Irae (vol. 1,5)








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