• Paulo Vinicius

Resenha: "O Homem do Castelo Alto" de Philip K. Dick

Em um mundo onde os nazistas venceram a Segunda Guerra Mundial vamos acompanhar a jornada de homens como o sr. Tagomi, Robert Childan e Frank Frink: suas ambições, suas tristezas e seus arrependimentos. Tudo isso em um mundo marcado pelo medo e pelo controle.



Sinopse: Neste livro que é considerado por muito o melhor trabalho do autor, Dick apresenta um cenário sombrio: a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelos Nazistas. O mundo vive sob o domínio da Alemanha e do Japão. Os negros são escravos. Os judeus se escondem sob identidades falsas para não serem completamente exterminados. É nesse contexto que se desenvolvem os dramas de vários personagens. Ao apresentar uma versão alternativa da história, Dick levanta a grande questão: “O que é a realidade, afinal?”



Mais uma história de Philip K. Dick. É preciso ressaltar o motivo de tantas reviews sobre o autor: tanto ele como Asimov são aqueles que possuem o maior número de obras publicadas em português e disponíveis no mercado atualmente. Gostaria de poder variar mais as minhas reviews, mas a gente lida com o que tem. Aos poucos eu vou fazer algumas reviews de obras que tenho lido no Kobo. Em um futuro bem próximo (estimo de 2 a 3 meses), vamos começar a ver autores como Richard Morgan e Stephen Baxter que são algumas das referências da ficção científica na atualidade. Feita a explicação, voltemos à programação normal. 

Muitas vezes durante aulas de História nos deparamos com a seguinte pergunta: “E se...”. Mesmo em nossas vidas, costumamos nos questionar a respeito de decisões não tomadas. Algumas possibilidades levam a futuros melhores, enquanto outras a futuros aterradores. Mas, a pergunta é válida (apesar de muitos historiadores odiarem este tipo de ficção histórica... não me incluo nesse grupo, por favor). A pergunta é até motivo para reflexão e valorização de nossa realidade, tendo em conta que vivemos uma era interessante onde existem muitas “liberdades”. Imaginem viver em uma ditadura? Ou uma monarquia absolutista? Ou um império escravista? Ou quem sabe um regime totalitário? E aí chegamos ao cerne da questão. 

A ficção alternativa é um gênero literário que existe a décadas no mercado editorial norte-americano e europeu. É um gênero de nicho, mesmo entre os amantes da ficção científica. Alguns gostam, outros odeiam e alguns mais até desconsideram o gênero como parte do conjunto da ficção científica. Aqui no Brasil é um gênero quase desconhecido salvo algumas publicações da década de 70 que estão fora do catálogo. Este romance de Philip K. Dick foi uma tentativa do autor no gênero, mas segue sendo sua única incursão em ficção alternativa. Até se formos analisar a fundo, o objetivo do autor nunca foi escrever uma história de “e se...”, mas  de passar uma mensagem completamente diferente. 

Nesta realidade, alemães e japoneses venceram a guerra. Mudanças sutis na história contribuem para isso: a Luftwaffe nunca foi derrotada pela Inglaterra, Rommel saiu da África e juntou o restante de suas tropas com uma coalizão italiana para destruir a Rússia e Pearl Harbor foi uma derrota terrível para os norte-americanos que tiveram todas as suas bases do Pacífico tomadas pelo governo japonês. Os EUA foram divididos em três regiões: os Estados Aliados do Pacífico (EAP) controlado por uma Missão Comercial Japonesa e parte do Kempeitei estacionado em San Francisco; os Territórios das Montanhas Rochosas onde existe uma certa neutralidade, mas alemães e japoneses agem livremente, além de contar com a presença de muitos imigrantes italianos buscando uma nova vida; e os Estados Unidos propriamente ditos foram reconstruídos e agora governados como um protetorado alemão sediado na cidade de Nova York. Na Europa, a Alemanha controla boa parte dos territórios sem opositores enquanto que a URSS desapareceu completamente do mapa. 



Não existe aqui nenhum tipo de julgamento moral sobre se a nossa realidade é melhor do que a existente no livro. Alguns leitores podem confundir isso; Dick apenas imaginou uma realidade controlada por um governo totalitário. O lado alemão realmente funcionava daquele jeito antes da ascensão de Hitler; o lado japonês representa o conjunto cultural oriental. Quando Juliana Frink, uma das personagens exploradas pelo autor, encontra Abendsen, ele revela que não existe algo melhor ou pior. O ser humano é altamente adaptável ao seu meio. 

Temos uma forte dualidade presente na trama: aquela onde os japoneses são os governantes e a dos alemães. Começando pelos alemães, achei até que Dick fosse explorar mais esse núcleo dado a orientação do gênero de sua obra. Não aconteceu. O pouco que pudemos perceber é que o lado alemão lembra até um pouquinho os nossos dias atuais: dividido em vários lados que disputam o poder a qualquer custo e uma corrupção que assola da base até o topo da cadeia. Claro que, não posso comparar os extremismos usados para definir a posição dos alemães como a da Operação Dente-de-Leão. Já o lado japonês onde boa parte dos personagens se encontra, revela um mundo que substituiu a sua orientação cristã/presbiteriana por uma cultura da transição e do budismo. Aqui eu consigo perceber um pouco da crítica religiosa de Philip K. Dick. Todas as pessoas precisam ter fé porque elas buscam, de certa forma, algum tipo de orientação em suas vidas. Não precisa ser necessariamente uma figura divina ou um panteão de deuses ligados à natureza, mas algo precisa estar ali para orientar em momentos de dúvida. E a ferramenta usada por Dick é o I Ching, a sabedoria milenar do budismo contida em dois grossos livros pretos. Todos os personagens consultam o I Ching em busca de alguma orientação. Quando o sr. Tagomi não faz uma consulta, tudo aquilo que se segue é considerado uma tragédia colocada na conta da falta de consulta aos livros de sabedoria. Vamos ver mais dessa crítica (e não digo no mau sentido, entendo como uma reflexão filosófica do autor) em outro livro a ser resenhado por mim posteriormente, Valis. Dick acredita friamente (e chegou a dar entrevistas sobre o tema) que a religião é uma forma de o homem conseguir obter orientação quando se encontra em uma encruzilhada. Os rituais e cerimônias são uma forma de alcançar essa força contida no sagrado. 

Os personagens são interessantes: o sr. Tagomi, um homem importante ligado à Missão Comercial em San Francisco que se vê envolvido em uma conspiração para colocar um dos lados em disputa em Berlim no poder; Robert Childan é um vendedor de arte (na verdade ele é dono de um empório) que tenta a todo custo sobreviver entre a exigente sociedade japonesa repleta de costumes estranhos e mesuras; Frank Frink lida com metais e é capaz de trabalhar com fenomenais obras de arte, mas esconde o fato de ser judeu e poder ir parar em um campo de concentração a qualquer momento; Juliana Frink é a ex-mulher de Frank que tenta a vida como instrutora de judô nas Rochosas quando se depara com Joe Cinadella que lê um estranho romance O Gafanhoto Torna-se Pesado onde o autor, Hawthorne Abendsen, descreve um mundo onde os ingleses e norte-americanos teriam vencido a guerra; e o sr. Baynes, um empresário sueco que parece ser muito mais do que ele diz. Cada uma das histórias mostra os personagens em busca de algum objetivo que dê sentido a suas vidas. Prefiro deixar o grosso das histórias por conta dos leitores, já que o livro não é tão grande assim e os plots de cada personagem terminam rapidamente.



A impressão que tive é que Juliana Frink representa uma faceta de Philip K. Dick. Questionador, insatisfeito consigo mesmo, mas ao mesmo tempo sem saber o que fazer diante de um mundo que lhe é estranho. Todos os outros personagens possuem plots que de uma forma ou outra fazem com que eles se encaixem dentro daquela existência mundana. Aliás, não existe uma evolução extraordinária nos personagens: eles certamente são colocados no limite, principalmente Juliana, mas eles não desejam sair deste mundo. Mesmo o sr. Tagomi quando diante da tentativa de assassinato, ele não deseja que aquilo tudo fosse diferente, apenas que ele não tivesse sido obrigado a cometer uma ação que ia contra as suas crenças. Mas, Juliana é um caso diferente: de todos os personagens da história, ela é a única que não se enquadra no status quo. Ela busca Abendsen para que ele diga a ela como a realidade poderia ser diferente. Ela queria o mundo presente em Gafanhotos. Quando Abendesen descreve a ela a forma como ele escreveu o livro, todas as suas esperanças caem por terra. Ela se perde e não sabe mais o que fazer. Eu vi em Juliana a imagem do próprio autor. E O Homem do Castelo Alto tem essa característica diferenciada em relação a outras obras de Dick. 

Recentemente fiquei a par de que será realizada uma minissérie ou um filme baseado no livro. Tenho muito receio de tal. Digo isso porque o romance tem poucas cenas de ação; ele é uma obra de reflexão. Os personagens não salvam o mundo (nem mesmo Baynes quando retorna à Alemanha) e muitos plots são deixados no ar. O objetivo do autor não era dar uma solução definitiva, mas apresentar a jornada de auto-conhecimento de cada um dos personagens. E, em vista da maior parte das adaptações feitas da obra dele, tenho muito medo. Recomendo demais a leitura de O Homem do Castelo Alto, mas não espero muita coisa dessa possível versão para a TV ou para o cinema. 



Ficha Técnica:


Nome: O Homem do Castelo Alto

Autor: Philip K. Dick

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Fábio Fernandes

Número de Páginas: 304

Ano de Publicação: 2007


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