• Paulo Vinicius

Resenha: "O Gigante da Guerra" de Diego Guerra

Quando o pai de Lenna e Ward é convocado para a guerra, ambos ficam encarregados de cuidar da fazenda. Mas, diante das cobranças cada vez maiores do prelado e dos funcionários do rei, a vida ficará cada vez mais difícil. Porém, a chegada de um gigante mudará os destinos de todos.

Sinopse:


Depois de décadas de uma guerra sem fim contra a rebelião de escravos, o Imperador lança mão de seu último esforço, recrutando os homens do campo para lutar sua guerra e entregando o Império a fome e a miséria.

Lenna e Ward ainda são crianças quando assistem seu pai partir para a batalha, deixando-os com a dura tarefa de cuidar das terras da família, mas os rigores do trabalho na lavoura e a luta contra a fome constante, os obrigam a crescer rapidamente, tomando decisões que põe a prova o que julgam como certo.

Na tentativa de proteger sua família e sobreviver a violência do mundo, são obrigados a questionar cada passo em seu caminho, tentando decidir qual é o limite aceitável para proteger aquilo que se ama. Uma tarefa que se torna ainda mais complexa quando um gigante é encontrado ferido em suas terras depois de desertar do exército imperial.

Enquanto Lenna luta para fazer o que é certo colocando em risco tudo pelo que seu pai está lutando, Ward leva suas responsabilidades ao extremo, sem medir sacrifícios em nome de antigas promessas.

O gigante da guerra é uma história para quem não teme nem o monstro que existe nas sombras do templo sob a colina, nem o julgamento dos deuses; que fala sobre amizade e dor, guiada pela voz dos mais fracos, as vítimas, aqueles que morrem e desaparecem sem nome no meio das grandes aventuras, retratando uma luta desesperada para não sucumbir a própria crueldade.




Grimdark é um gênero que se tornou muito popular nos últimos tempos. Histórias com personagens cujas características beiram mais para o cinza do que para o bem ou o mal. Ambientações repletas de violência, pessoas cuja moralidade é duvidosa em um estilo que busca se aproximar mais à realidade. Mesmo assim, são histórias que se baseiam nos feitos de grandes homens ou de companhias de soldados. Não existem tantas histórias nesse estilo de narrativa que se baseiam nos homens comuns. E é aqui o lugar onde O Gigante da Guerra se situa. O que eu li nas páginas desse livro é uma história incrível e ao mesmo tempo muito dolorosa, capaz de levar todos aqueles que se envolvem com os personagens à tristeza e a fortes emoções.

Temos aqui uma escrita muito poética apesar da temática mais voltara para o obscuro. Diego Guerra consegue passar em suas páginas uma ode à dor e ao sofrimento. Entretanto, as palavras com as quais ele tece suas descrições são belamente encadeadas. É aquela escrita belamente perversa, que te encanta em seu aspecto mais sombrio. Apesar de o livro ser pequeno, não se deixe enganar; a narrativa é pesada e vai exigir um pouco do leitor. Mas, talvez percebendo isso, o autor compôs capítulos pequenos que deixam bons ganchos para que o leitor sempre continue sua jornada pelas páginas do livro. A narrativa é escrita em terceira pessoa onisciente tendo como ponto de vista a personagem Lenna. Temos alguns capítulos vistos pelo olhar de Ward e alguns poucos (acho que um ou dois, se não me engano) no de Druhu. O autor apela bastante para as descrições, mas elas não são nem um pouco cansativas. Ele consegue passar bem o ambiente das fazendas e da vila de uma maneira que o leitor se familiariza muito rápido com as redondezas. Para mim, não houve nenhuma curva de aprendizado: me assentei em poucas linhas na escrita dele. Existem alguns elementos de construção de mundo e algumas palavras específicas, mas são muito poucas. O objetivo é realmente construir uma história situada naquele ambiente distante de tudo, logo a escrita não complica o que não precisa ser complicado.

"A certeza de que o que diferenciava o violento e o pacífico, ou o cruel e o clemente, não era sua disposição para o mal, era o tempo e o sofrimento. Aquele era o verdadeiro gigante daquela guerra. O gigante de todas as guerras: o fraco pagaria com sangue, suor e merda, a vitória que os fortes clamariam para si."

Gostei de todos os elementos do livro, mas preciso falar dos personagens. Como o autor criou algo tão competente assim. Antes de mais nada é preciso dizer que não temos personagens virtuosos nesse livro. Todos são muito humanos, passíveis de erros e falhas. Lenna pode ser considerada a personagem mais próxima de um "herói", mas ela tem suas características mais problemáticas: corajosa, porém cheia de si, devota dos deuses e, às vezes um pouco moralista. Já Ward começa tendo aquela aura de herói, mas um acontecimento durante a história muda completamente a sua perspectiva. Ele se torna um personagem cruel em sua vontade de sobreviver. E Druhu é um pobre coitado que apenas deseja se redimir pelos males que fez. Em sua inteligência limitada ele encontra em Lenna uma pessoa que finalmente lhe dá o respeito que merece.

A relação entre os personagens é o que vai movimentar a história. Os acontecimentos servem para testar estas relações. Vamos ver os personagens mudando a maneira como enxergam uns aos outros com o desenvolvimento da narrativa. A vila serve como o lugar onde estas relações se chocam explosivamente. Por esse motivo, a construção dos personagens de apoio é tão importante para a narrativa de O Gigante da Guerra. Seja Abbie Vermelha, Joram ou até o velho Moshe que pouco aparece, todos acabam afetando de alguma forma a maneira como os irmãos se relacionam e como estes encaram Druhu. Novamente, esta não é uma história de pessoas virtuosas. Vamos ver os vícios e as pequenas maldades que existem no coração destas pessoas. Seja o prelado que usa sua posição para chantagear as pessoas e tirar uma parte dos lucros, a velha sacerdotisa que vê uma oportunidade para enriquecer ou o avô mal humorado do qual ninguém gosta, mas todos procuram. A magistrada serve como a implacabilidade da mão do imperador. Quando ela chega, algo irá mudar.

Muitos são os temas trabalhados. Para mim, o livro se destaca por falar daqueles que ficam para trás quando os guerreiros saem para a guerra. Não paramos para pensar no que acontece com os camponeses que são deixados em suas vilas quando os homens fortes seguem para o combate. A dureza da vida dentro de uma fazenda e toda a banalidade das cobranças feitas pelo governo para manter sua máquina de guerra funcionando. A vida dessas pessoas se torna muito difícil e o pior que existe em seus corações é libertado. Durante esses momentos é que a história toma seus piores rumos. Mas, será que se estivéssemos no lugar daquelas pessoas, faríamos realmente diferente? O ser humano tem uma tendência natural a ativar o seu instinto de sobrevivência em situações extremas.

“Não existe liberdade entre os homens… Só diferentes formas de escravidão.”

E aí chegamos ao outro tema trabalhado no livro: a violência. Ward é o mais testado neste sentido. Após ele sofrer uma situação extrema, ele desenvolve um ser obscuro dentro de si. E esse ser obscuro vai fazer com que este personagem mude completamente de caráter. Outros personagens também vão revelar esse lado violento. Em vários momentos, Lenna e Druhu sofrem com a violência vinda de outras pessoas. Seja uma violência oriunda do consumo de álcool, a vingança por um ente querido que se foi ou uma pequena maldadezinha do dia-a-dia. Muitos trechos do livro são repletos de violência, mas nem sempre ela se manifesta fisicamente. A psiquê dos personagens é muito testada também. Você pode fazer o mal a uma pessoa quando retira tudo de bom que existe em suas vidas.

Por fim, queria falar da temática da liberdade. Isso porque Druhu é um gigante que fugiu de uma vida de escravidão (isso não é spoiler!!! está na descrição do livro). E o que me parece é que muitas vezes Druhu é o personagem mais livre nas redondezas. Ele faz o que faz porque tem um desejo de ajudar as pessoas e aquela que o reconheceu lá no fundo de seu coração. Os aldeões são escravos de um governo que cobra taxas exorbitantes nos períodos de colheita e leva seus filhos para a guerra. Filhos estes que nunca retornam ou voltam cheios de sequelas terríveis. Os irmãos estão presos por uma promessa a seu pai de que cuidariam da fazenda e fariam dela seu sustento. Eles poderiam ter abandonado a fazenda em vários momentos da história, mas não foram capazes de fazê-lo.

O Gigante da Guerra é aquele tipo de história que você precisa ir com o espírito preparado. Não é uma história que você deva ler quando está com astral baixo. Conta sobre o que existe de pior no ser humano. É uma história incrível que deveria ter uma visibilidade maior porque o autor se debruçou sobre o tema de uma maneira tão belamente sórdida que me emocionou bastante. Já considero uma das melhores leituras deste segundo semestre e não encontrei quaisquer problemas na escrita, na construção de personagens e no desenvolvimento do mundo e da narrativa. Vou recomendar este livro a todos vocês como uma leitura a ser feita em algum momento da vida. A quantidade de temas que merecem uma reflexão neste livro são inúmeras e são extremamente necessárias para nos dar aquele choque essencial para nos tornar pessoas melhores.


Ficha Técnica:


Nome: O Gigante da Guerra

Autor: Diego Guerra

Editora: AutoPublicado

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 240

Ano de Publicação: 2017


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