• Diego Araujo

Resenha: "O Coronel e o Lobisomem" de José Cândido de Carvalho

O Coronel e o Lobisomem é uma ficção regional focada na vida do protagonista Ponciano, que possui muito a dizer sobre os seus feitos e, principalmente, os desfeitos.




Sinopse:


Com a publicação de O coronel e o lobisomem, a Companhia das Letras tem o prazer de anunciar seu projeto de reedição das obras de José Cândido de Carvalho (1914-1989). A produção literária desse artífice da palavra ágil, do humor, de uma luxuriante imaginação e de um elenco inesquecível de personagens ganha agora uma nova roupagem, à altura de um autor que merece circular ainda mais entre os leitores de todas as idades. Ao longo dos próximos anos, obras como Por que Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon, Um ninho de mafagafos cheio de mafagafinhos, Olha para o céu, Frederico! e outros títulos receberão tratamento editorial à altura de sua importância: projeto gráfico moderno e elegante, posfácios a cargo dos melhores autores e críticos contemporâneos, divulgação escolar, edições eletrônicas, antologias. O coronel e o lobisomem, obra-prima publicada em 1964, continua sendo até hoje um dos pilares do realismo mágico à brasileira. Adaptado com justiça ao cinema, é diversão literária para quase todas as idades. Conta a história de Ponciano de Azevedo Furtado, que enlouquece depois de deixar o campo pela cidade. Tudo isso, porém, numa linguagem viva, com situações que alternam o humor e o fantástico e com direito a sereias, onças, rabos de saia e - claro - o tal do lobisomem do título.





Alerta de gatilho: comentários machistas presentes na narrativa


Histórias folclóricas se originam de pessoas a compartilharem por gerações os causos vistos pelos antepassados ou ainda presentes na geração vigente. Mesmo vindo do povo, uma voz tende a sobressair das demais, ainda mais quando vem de alguém que possui credibilidade sem precisar contar toda a verdade, assim como no protagonista desta história. O Coronel e o Lobisomem reúne vários causos contados pelo personagem Ponciano por meio das letras de José Cândido de Carvalho. Publicado pela primeira vez em 1964, a Companhia das Letras relançou o romance em 2014.

“― Seu Ponciano, pasto é lugar de lobisomem, terra de povo safado.”

O coronel Ponciano de Azeredo Furtado viveu boa parte da vida em Sobradinho, em uma fazenda herdada do avô Simeão, embora também goste de se aventurar pela cidade, formando amizades frutíferas e pelejando no foro contra os agentes do governo. Ponciano foi surpreendido no meio desses evento, tendo ele sobrevivido para contar e permitir que outras pessoas cometessem exageros de forma a favorecer sua imagem. Esses perigos vinham desde ameaças brasileiras do sentido selvagem ao sobrenatural diante do coronel.

“Vez por outra aparecia um caso desimportante em forma de cobra ou mula sem cabeça.”

Ponciano é o típico protagonista e narrador não confiável de sua própria história. Sob interesse constante de promover os feitos, aproveita as palavras ao florear atitudes controversas ou situações vulneráveis, contradizendo-se nas tentativas de se justificar e por isso toma toda a prosa escrita no livro para si, deixando pouco espaço aos demais personagens. Isso quando Ponciano permite, pois na maior parte das vezes expressa os comentários dos outros por meio de um discurso indireto. É um narrador divertido de ler por testemunhar o desenrolar dos nós dados na própria história. Tal egoísmo dificulta conhecer os personagens secundários, exigindo da memória ao reconhecer a quem o coronel está se referindo no momento, ainda mais pela grande quantidade de nomes. Vale avisar sobre o flerte do protagonista gerar comentários a mulheres sem o risco de levar reprimenda pela patente e vivência em região e época patriarcal, o que pode resultar em incômodos a leitoras. Um fruto de outra época em que esse comportamento era "aceito" pela sociedade.



Em relação ao título do livro e considerando o que foi dito no parágrafo anterior, há muito mais do coronel que do lobisomem no enredo. Na verdade há quase nada da besta fora as menções metafóricas e os embates que não contaremos aqui para evitar spoilers. Em suma não é ideal a quem deseja ler histórias de licantropos no Brasil como as do Clecius Alexandre Duran e Marcela Rossetti, sem por isso desmerecer o livro que possui um protagonista marcante e enfrenta adversários tanto físicos como irreais e políticos. A parte que deixa a desejar é a demora em narrar todos esses confrontos devido a cenas passíveis de corte, capazes de comprometer mesmo a narrativa bem feita de Ponciano, pois floreia até as situações corriqueiras.

O Coronel e o Lobisomem é sobre a vida do protagonista de patente e competente em contar os próprios causos, capaz de convencer os amigos e adversários que bateria de frente a qualquer anomalia além das citadas neste livro. Atende o público leitor de ficção brasileira, sendo os elementos fantásticos secundários, recursos do protagonista a engrandecer sua imagem perante as pessoas.

“E de toda essa labuta ficou um resto de enxofre no recinto da desavença.”











Ficha Técnica:


Nome: O Coronel e o Lobisomem

Autor: José Cândido de Carvalho

Editora: Companhia das Letras

Número de Páginas: 408

Ano de Publicação: 2014 (nova edição)


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*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras















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