• Paulo Vinicius

Resenha: "O Aprendiz de Assassino" (A Saga do Assassino vol. 1) de Robin Hobb

Esta é a história de FitzCavalaria e de como ele começou a se embrenhar nas artes do assassinato. Sendo um bastardo, se tornar um assassino do rei é sua única alternativa para permanecer vivo na corte de Torre do Cervo. Mas, Fitz vai descobrir que as coisas não são tão simples assim...


Sinopse:


Com personagens cativantes, tramas políticas complexas e lutas cheias de magia e reviravoltas, O aprendiz de assassino é tudo o que um fã do gênero pode esperar de uma ótima fantasia épica.


Fitz tem seis anos de idade quando seu avô o joga aos pés de um guarda real e anuncia que a partir de então o pai deve cuidar do bastardo que produziu ― e o pai de Fitz é ninguém menos que Chilvary Farseer, o príncipe herdeiro dos Seis Ducados.

Excluído pela realeza, mas importante demais para ser abandonado, Fitz é criado à sombra da corte, protegido pelo mestre dos estábulos e crescendo em meio aos criados e plebeus da Cidade de Torre do Cervo.

No entanto, um bastardo real é uma peça perigosa, e o rei Shrewd não demora a convocá-lo. Carregando no sangue a magia ancestral do Talento e uma habilidade ainda mais instintiva de se comunicar com os animais, Fitz passa a ser treinado para se tornar um assassino a serviço do rei.

Quando saqueadores selvagens começam a atacar as regiões costeiras dos Seis Ducados, Fitz recebe sua primeira missão. Embora alguns o vejam como uma ameaça, o jovem bastardo vai provar que pode ser a chave para a sobrevivência do reino.




Fitz, o Bastardo


Fitz é o filho bastardo de Cavalaria, o príncipe herdeiro de Torre do Cervo. A descoberta do paradeiro de Fitz acaba causando um furor e obrigando o príncipe a abandonar o trono. O jovem menino é entregue ao mestre dos estábulos, Bronco, para ser treinado. O rei Sagaz, pai de Cavalaria, decide usar o menino como seu assassino. Como não tem muita escolha a não ser servir de joguete político, o protagonista aceita ser treinado por Breu, o assassino sênior a mando de Sagaz. Isso leva a muitas confusões. Parece ser uma história clichê, certo? O escolhido, o menino que precisa sair do nada para se tornar um grande homem, ele descobrir que possui habilidades especiais (Fitz é capaz de falar e usar os sentidos dos animais). Sim, mas a maneira como você conta uma história é tão importante quanto os clichês que você emprega. E Robin Hobb faz isso de forma magistral no primeiro volume desta série.


A narrativa pega os primeiros anos da vida de Fitz na corte do rei Sagaz. Lá ele vai descobrir o quanto sua vida vai ser difícil simplesmente por ser um bastardo. Cavalaria teve um caso fora de seu casamento com Dama Paciência e acabou gerando o rapaz. A própria existência de Fitz causa o afastamento do príncipe e coloca Veracidade, o segundo filho na linha sucessória. A voz de Fitz é quem nos conta a história, portanto, vemos tudo através de seus olhos. O protagonista não é exatamente confiável, até porque suas opiniões são o que encaminham a narrativa. Por ser treinado nas artes do assassinato, Fitz é um mentiroso profissional e ele escolhe quando dar ou não uma informação ao leitor. O legal disso é que a gente percebe que não é só um meio de dar suspense para a história, mas algo genuíno do personagem.


"A maior parte das nossas prisões é criada por nós mesmos. Um homem também faz a sua própria liberdade."

As relações que Fitz estabelece com outros personagens são importantes para seu próprio crescimento. E Hobb consegue dar bastante importância mesmo a personagens coadjuvantes ou até de apoio. Vamos ficar irritados com os ciúmes de Garrano em relação a Fitz e sua disputa pela atenção de Bronco. Ou Augusto, o jovem fidalgote habilidoso nas artes do Talento, que vai ser peça fundamental quando a corte for até o reino da Montanha. E a sua relação com Fitz vai ser determinante para os acontecimentos que se seguem. Ou mesmo Moli, possivelmente o primeiro amor da vida de Fitz, que vai lhe ensinar a amadurecer em um momento em que ele precisava desse crescimento. Os três personagens citados não são nem de longe personagens secundários, mas são importantes de uma forma ou de outra para o protagonista.


A forma como a autora escreve é sutil e ampla ao mesmo tempo. O que alguns leitores vão sentir falta é de uma construção de mundo mais específica. Mas, pelo que eu pude ver da autora esse não é o estilo dela. Hobb prefere trabalhar os personagens, o que os motiva, como pensam, como se relacionam. O psicológico deles é o que vai interessar à autora. E é a partir dos personagens que a narrativa vai se desenvolver. E ela faz isso sem qualquer pressa. Por isso eu disse que o leitores podem não curtir; sua escrita é devagar e progressiva e ela vai tocando os pontos aonde ela quer chegar progressivamente. Temos um clímax bem no final da narrativa, mas a história toda segue uma estabilidade até um pouco incômoda. Quando eu me acostumei e me assentei à forma de contar histórias da autora, tudo passou a fluir muito melhor. É como se a história tivesse feito surgir toda uma série de novas cores.


"Uma chuva fininha começou a cair, a última luz do dia morreu e eu continuei ali. Olhei para cima, em direção à torre, negra como as estrelas, com uma luzinha tremeluzente aqui e ali. Por um momento, pensei em pousar o cesto no chão e fugir, fugir pela escuridão adentro e nunca mais voltar. Será que alguém viria à minha procura? Mas, em vez disso, mudei o cesto para o outro braço e comecei a minha lenta caminhada morro acima, de volta à torre."

Intrigas Reais


A narrativa segue os esforços de Fitz para treinar e se tornar útil ao rei. Diferentemente do chato e desagradável Kvothe, de Patrick Rothfuss em O Nome do Vento (link da resenha aqui), Fitz até tenta aprender várias habilidades, mas em algumas ele falha miseravelmente. O protagonista nem de longe é um Mary Sue, ou seja, um cara que aprende tudo e derrota todos apenas porque é muito hábil em qualquer coisa. Esse lado falho do personagem me agrada porque cria um ar de verossimilhança maior. É impossível para uma pessoa ser boa em absolutamente tudo. Mesmo assim, o personagem tem disposição para aprender mais. Isso também é um truque da autora, fazendo com que Fitz seja um personagem-orelha para o leitor. Sua simples tentativa de aprender as coisas serve para apresentar o mundo para nós.


Hobb faz uso de uma escrita convergente assim como Rothfuss. Ela vai deixando pistas aqui ou ali que vão redundar em algum desenvolvimento futuro. Como O Aprendiz de Assassino parece ser um de seus primeiros trabalhos, estas pequenas pistas rapidamente são solucionadas em poucos capítulos depois. Mas, à medida em que a narrativa vai avançando a gente percebe que a autora vai se arriscando cada vez mais. A tendência é que ela comece a brincar mais com o longo prazo em volumes seguintes. Ou pelo menos essa é a minha impressão. Ao mesmo tempo ela deixou vários pontos sem solução como, por exemplo, quem é a mãe de Fitz e por que ela o abandonou? Como sabemos logo nos primeiros capítulos, o protagonista possui a Manha, uma habilidade ligada a empatia com os animais. Certamente ele não adquiriu isso de Cavalaria, um exímio usuário do Talento, uma habilidade voltada para transmissão de pensamentos a longas distâncias. Novamente sou eu deduzindo, mas ao que me parece a Manha e o Talento são intimamente ligados e o fato de Fitz ser habilidoso nas duas técnicas vai ter consequências futuras.


"Por que afinal eu devo falar, se não sei falar claramente?"

A ambientação é bem trabalhada com o mundo sendo apresentado sem pressa. Nesse primeiro volume acabamos passando apenas por três lugares: Torre do Cervo, Forja e Jhaampen. E mesmo assim parece que muita informação foi despejada em nosso colo. Já no final desse primeiro volume eu conseguia sentir que já era familiar há muito tempo desse mundo. Contribui para isso a ótima escrita da autora e a também muito boa tradução. Detalhes simples acabam sendo agregados à história como o preconceito contra os usuários de Manha. Isso atrapalha e muito a relação entre Bronco e Fitz. Ou os hábitos e costumes dos camponeses. Ou o ter de lidar com os frequentes ataques dos navios vermelhos que acabou por provocar uma mudança na própria maneira como as pessoas realizavam suas plantações. O que começa como uma história simples no começo vai adotando ares de complexidade pouco a pouco e Fitz vai precisando exercitar cada vez mais suas habilidades diplomáticas.



Uma escrita sólida


O Aprendiz de Assassino não é um livro com uma escrita dinâmica e cheia de explosões e mortes para todos os lados. Nesse sentido, pode ser até um livro chato por conta da ausência de grandes combates. Em um determinado momento da narrativa, lá perto do final, o livro adota um tom investigativo onde Fitz precisa descobrir quem é o suspeito por um determinado acontecimento. E precisa tomar uma decisão em um curto espaço de tempo que, dependendo da forma como a decisão for tomada, pode significar a sua morte ou o seu exílio. Hobb nos mostra que uma narrativa memorável não precisa ser necessariamente repleta de combates. Ah, e a autora não alivia a mão na questão mortes também não. Podem esperar ter seus corações partidos em algum momento.


O que mais me agradou no livro é em como a autora é uma ótima contadora de histórias. Ela vai nos enredando pouco a pouco e nos levando para um mundo mágico onde coisas fantásticas acontecem, mas o perigo é bem real e mora ali do lado. Ela constrói também um personagem interessante e curioso que ainda tem muito potencial para crescer e se tornar alguém relevante em seu mundo. Se ele vai ser ou não um herói, só o tempo irá dizer. Porém, sua vida fica muito mais complicada ao final deste primeiro volume e eu quero muito ver os próximos capítulos de sua vida.



Ficha Técnica:


Nome: O Aprendiz de Assassino

Autora: Robin Hobb

Série: A Saga do Assassino vol. 1

Editora: Suma

Gênero: Fantasia

Tradutor: Orlando Moreira

Número de Páginas: 376

Ano de Publicação: 2019 (nova edição)


Outros Volumes:

O Assassino do Rei (vol. 2)

A Fúria do Assassino (vol. 3)


Link de compra:

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*Material enviado em parceria com a editora Suma


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